26 de outubro de 2026

Vitória de Lula enterra projeto de Trump para a América Latina, diz analista

Jeremy Adelman afirma que resultado eleitoral brasileiro enfraquece estratégia dos EUA para a região e expõe limites da aliança com governos de direita
Foto: Ricardo Stuckert

Vitória de Lula nas eleições brasileiras representa revés para a estratégia de Trump na América Latina.
Aliança regional de direita sob liderança dos EUA enfrenta fragilidades e disputas internas, diz historiador.
China supera EUA como principal destino das exportações da América do Sul em 2024, limitando influência dos EUA.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais brasileiras representa um revés para a estratégia de Donald Trump de ampliar a influência dos Estados Unidos sobre a América Latina.

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A avaliação é do historiador Jeremy Adelman, diretor do Global History Lab da Universidade de Cambridge, em artigo publicado no Project Syndicate.

O texto em questão sustenta que a derrota da extrema direita no Brasil compromete o projeto de Trump de reunir governos latino-americanos alinhados à sua política econômica e de segurança. Para Adelman, a estratégia norte-americana, que parecia próxima de se consolidar, agora enfrenta dificuldades para avançar.

O autor recupera a Doutrina Monroe, formulada em 1823 pelo então presidente dos Estados Unidos James Monroe, que advertia as potências europeias contra intervenções nas Américas. A iniciativa foi retomada em diferentes momentos da história norte-americana e, segundo Adelman, voltou ao centro da política externa com Trump, sob a perspectiva de consolidar uma área de influência regional subordinada aos interesses de Washington.

A expressão “Doutrina Donroe” combina o sobrenome de Donald Trump com o de James Monroe e simboliza a tentativa do atual presidente de reafirmar a primazia dos Estados Unidos no continente.

Aliança regional e interesses econômicos

Adelman argumenta que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro teria consolidado uma sequência de avanços eleitorais da direita na região, ampliando o grupo de governos alinhados a Trump.

O autor menciona a chegada de José Antonio Kast à Presidência do Chile, a ascensão de forças de direita na Colômbia e a proximidade de Trump com o presidente argentino Javier Milei e o salvadorenho Nayib Bukele. Nesse cenário, o Brasil seria uma peça central para ampliar a articulação regional sob liderança norte-americana.

A estratégia também teria sido incorporada à política de segurança dos Estados Unidos. A Estratégia de Segurança Nacional da administração Trump, divulgada em novembro de 2025, priorizou o Hemisfério Ocidental. Em março de 2026, a Casa Branca apresentou a Coalizão das Américas contra os Cartéis, iniciativa também chamada de Escudo das Américas, com a proposta de combater o narcotráfico, o crime organizado e a interferência de potências estrangeiras, especialmente a China.

O autor aponta, contudo, fragilidades na articulação, como divergências diplomáticas envolvendo representantes dos Estados Unidos no Chile e na Argentina, disputas internas no governo Trump e mudanças na condução da própria iniciativa regional.

China amplia presença econômica

Para Adelman, o principal limite da estratégia de Trump está na distância entre a aproximação política dos governos de direita e a realidade econômica latino-americana.

O historiador destaca que a China se tornou o principal destino das exportações da América do Sul, superando os Estados Unidos. Segundo dados de comércio referentes a 2024 citados em análises econômicas sobre a região, o mercado chinês absorveu aproximadamente 28% das exportações sul-americanas, enquanto os Estados Unidos responderam por cerca de 16%. Essa comparação se refere à América do Sul, e não ao conjunto da América Latina e do Caribe.

Nesse contexto, Adelman contrapõe os interesses de longo prazo de Pequim à estratégia de Trump, que busca ampliar a influência norte-americana no continente por meio de alianças políticas e acordos de segurança.

O artigo também questiona a capacidade dos governos latino-americanos de enfrentar problemas estruturais que não são resolvidos pela aproximação diplomática com Washington.

Adelman ressalta que Lula também terá de enfrentar os problemas estruturais da economia brasileira. A vitória eleitoral, por si só, não elimina as dificuldades relacionadas à produtividade, ao endividamento e à necessidade de ampliar investimentos.

A diferença, segundo a análise, é que a derrota da direita no Brasil enfraquece o projeto de Trump de construir um bloco regional politicamente alinhado aos Estados Unidos – e abre espaço para uma dinâmica continental menos subordinada à estratégia de Washington.

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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