A vitória eleitoral de Lula em dados, por Lauro Mattei
Participaram das eleições presidenciais realizadas em 04.10.2026 doze candidatos vinculados as mais distintas agremiações partidárias. Todavia, no primeiro turno do processo eleitoral apenas duas candidaturas somaram mais de 92% dos votos úteis totais: Flávio Bolsonaro (PL) com 47,03% e Lula (PT) com 45,16%. Isso significou um esvaziamento da votação nas demais candidaturas nos dois campos políticos (direita x esquerda) que estavam se confrontando politicamente. Com isso, o segundo turno das eleições realizado em 25.10.2026 recolocou os dois candidatos mais bem posicionados eleitoralmente no primeiro turno em um novo confronto direto, tendo saído vencedor o candidato Lula com 51,79% do total de votos úteis. Em termos absolutos, o candidato Lula foi reeleito com 64.256.232, significando 51.79% do total dos votos úteis. Registre-se que tal patamar de votos nunca havia sido atingido por nenhum candidato nos pleitos presidenciais realizados até o presente momento.
Neste artigo será analisada a vitória de Lula do ponto de vista agregado nacional, bem como dos desdobramentos pelas cinco regiões geográficas e com os resultados também nos respectivos estados, comparando-se o desempenho eleitoral no primeiro turno vis-à-vis o desempenho desse candidato no segundo turno.
Nesse tipo de abordagem é importante considerar o coeficiente eleitoral de cada mesorregião do país em termos de participação no agregado eleitoral nacional. Os percentuais são os que seguem: região Norte 8,3%; região Nordeste 27,4%; região Centro-Oeste 7,6%; região Sudeste 41,8% e região Sul 14,4%. Ou seja, aproximadamente 70% dos eleitores do país estão domiciliados em apenas duas mesorregiões: Sudeste e Nordeste.
1- O DESEMPENHO ELEITORAL DE LULA NOS DOIS TURNOS NO AGREGADO NACIONAL E PELAS GRANDES MESORREGIÕES
O Quadro 1 apresenta a votação total do Presidente Lula em cada um dos dois turnos eleitorais distribuída pelas cinco mesorregiões do país. No agregado nacional verifica-se que Lula recebeu 53.700.073 votos no primeiro turno, correspondendo a 45,16% do total de votos úteis depositados nas urnas por todos os eleitores do país.
Do ponto de vista regional, observa-se que 75,6% do total dos votos obtidos por Lula no primeiro tiveram origem em duas regiões: Nordeste com 39.8% e o Sudeste com 35,8%. No primeiro caso por ser um reduto histórico do candidato Lula, enquanto no segundo caso, além desse candidato também ter uma forte base de apoio, nessa região está concentrada a grande maioria do eleitorado do país que em 2026 era de 158,7 milhões de pessoas aptas a votar. Deste total, 66.329.375 estavam domiciliadas nos quatro estados dessa região, significando 41,78% dos eleitores do país.
Por outro lado, nas regiões Sul e Centro-Oeste se concentravam as maiores resistências à candidatura de Lula dada a conjugação de duas características que se somam: por um lado, o conservadorismo da direita tradicional, especialmente nos estados do Sul do país e, por outro, a saga anti-Lula nos estados onde predomina o “agronegócio”, mesmo que ao longo dos últimos 4 anos de governo esse setor tenha sido altamente beneficiado pelas políticas de crédito rural subsidiado do governo federal, particularmente no Centro-Oeste do país.

Finalmente, na região Norte a candidatura tem uma aceitação bem menor, exceção apenas nos estados do Amazonas e Pará que na verdade concentram a grande maioria dos eleitores. Nestes dois casos específicos, observa-se que o apoio à candidatura recebeu quase 50% dos votos, o que acabou compensando o baixo percentual de votos à Lula nos demais estados amazônicos.
Apenas como registro em relação aos votos obtidos no exterior, no primeiro turno Lula obteve 47,57% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro recebeu 43,49% do total e votos válidos. Todavia, o peso dessa votação é percentual insignificante no cômputo geral porque representa 0.3% do eleitorado do país.
No segundo turno não foram verificadas alterações muito relevantes nesse cenário agregado regional no caso da região Norte, muito embora o montante absoluto dessa localidade tenha aumentado em 477.538 votos, o que significou um acréscimo de 10,5% em relação à votação obtida por Lula no primeiro turno. Isso fez com que a participação da região no total agregado nacional tenha se reduzido de 8,5% para 7,8% no segundo turno. Da mesma forma, houve pequena alteração percentual da participação final da região Centro-Oeste em relação aos dois turnos, porém destacando-se que em termos numéricos Lula teve uma expansão de mais de 1 milhão de votos, o que representou um aumento de 26% em relação ao primeiro turno. Isso fez com que o percentual participativo da região tivesse um leve acréscimo no segundo turno de 0.3%
No caso da região Sul observou-se um aumento de 24,3% do total de votos recebidos por Lula no segundo turno em relação ao primeiro, importando em um aumento absoluto de 1.332.846 votos. Tal fato se repetiu nas três unidades da federação, porém com maior impacto decorrente do expressivo aumento absoluto do número de votos à Lula oriundos do Rio Grande do Sul (aproximadamente 530 mil votos) e do Paraná (511 mil votos). Essas mudanças fizeram a participação da região passar para 10.5% no agregado nacional.
No caso da região Nordeste, mesmo que o percentual tenha se reduzido do primeiro para o segundo turno (39.8% para 38.2%), é importante destacar que em termos absolutos o número de votos em Lula aumentou em 2.973.797, o que significou um acréscimo percentual de 14%.
Finalmente, registra-se que o maior salto em votos absolutos ocorreu na região Sudeste com um aumento entre os dois turnos de 4.800.945 votos, o que correspondeu a um acréscimo de 25%, o maior percentual dentre todas as regiões. Isso fez com que a participação da região Sudeste no segundo turno praticamente se igualasse à região Nordeste, tanto em termos absolutos quanto em percentuais.
2-DESEMPENHO ELEITORAL DO LULA NAS DISTINTAS UNIDADES DA FEDERAÇÃO EM CADA UMA DAS GRANDES REGIÕES GEOGRÁFICAS
O quadro 2 apresenta a evolução da votação de Lula nos dois turnos na região Norte com ênfase nas votações em cada estado da região. Em primeiro lugar, é importante registrar que 76% dos votos obtidos por Lula, tanto no primeiro turno quanto no segundo turno, tiveram origem nos estados do Amazonas (23%) e Pará (53%). Todavia, em termos percentuais nota-se que que o candidato Lula aumentou seus percentuais no segundo turno em relação ao turno anterior nas seguintes proporções: no Amazonas a votação de Lula passou de 48% para 54%, enquanto no Pará passou de 49% para 55%. Outro aspecto relevante que ocorreu nos dois turnos foi a baixa votação obtida por Lula nos estados do Acre (passou de 28% para 33%), Roraima (passou de 22% para 27%) e Rondônia (passou de 25% para 30%). Todavia, como a densidade eleitoral dessas unidades da federação é baixa, esses percentuais produziram impactos reduzidos sobre o resultado final na região, ou seja, Lula com a maioria dos votos dos dois principais estados transformou-se no grande vitorioso no Norte do país, mesmo que em termos absolutos o aumento de votos foi de apenas 477 mil.

O Quadro 3 mostra a evolução da votação de Lula nos dois turnos na região Nordeste com ênfase nas votações em cada estado da região. Em primeiro lugar deve-se destacar que, se no primeiro turno Lula não fez menos de 50% em cada estado da região (Alagoas foi o mais baixo com 54%), no segundo turno Lula não fez menos de 60% dos votos totais de cada unidade da federação (novamente Alagoas apresentou o percentual mais baixo de 60,7%). O destaque no segundo turno foi o estado do Piauí com 75,8% destinado à Lula. A consequência geral na região foi um aumento expressivo do número absoluto de votos que passou de 21.476.632 (primeiro turno) para 24.450.429 (segundo turno). Em termos percentuais Lula ampliou sua performance em 14% ao final do processo eleitoral nessa região. Por fim, considerando-se que a densidade eleitoral é bem distinta entre os nove estados da região, observou-se que do total dos votos obtidos por Lula no segundo turno, aproximadamente 60% tiveram origem nos estados da Bahia, Pernambuco e Ceará. Por fim, deve-se destacar, ainda, que o Nordeste foi a região que mais destinou votos à Lula no segundo turno (24.450.429) seguida de perto pela região Sudeste, como veremos mais adiante (24.037.731 votos). Todavia, em termos de participação no diferencial de votos agregados do primeiro para segundo turno no país (10.376.694), a ampliação dessa região representou 29% dos votos a mais recebidos por Lula em todo o país no segundo turno.

O Quadro 4 mostra a evolução da votação de Lula nos dois turnos na região Centro-Oeste com ênfase nas votações em cada estado da região. Em primeiro lugar deve-se destacar que no primeiro turno Lula não teve votação acima de 40% em cada estado da região (Mato Grosso foi o mais baixo desempenho com 29%). Já no segundo turno Lula não fez mais de 45% dos votos totais de cada unidade da federação (novamente Mato Grosso apresentou o percentual mais baixo de 33,94%). O destaque no segundo turno foi o Distrito Federal que destinou 45,72% dos votos à Lula. Além disso, deve-se mencionar a boa expansão da votação no segundo turno no estado de Goiás que passou de 31% para 40%. A consequência geral foi um aumento considerável do número absoluto de votos que passou de 2.963.043 (primeiro turno) para 3.733.918 (segundo turno). Em termos percentuais, Lula ampliou sua performance em 26% ao final do processo eleitoral nessa região. Por fim, considerando-se que a densidade eleitoral é bem distinta entre os estados da região, observou-se que do total dos votos obtidos por Lula no segundo turno, aproximadamente 65% tiveram origem no Distrito Federal e no estado de Goiás. Por fim, deve-se destacar, ainda, que o Nordeste foi a região que mais destinou votos à Lula no segundo turno (24.450.429) seguida de perto pela região Sudeste, como veremos mais adiante (24.037.731 votos).

O Quadro 5 mostra a evolução da votação de Lula nos dois turnos na região Sudeste com ênfase nas votações em cada estado da região. Em primeiro lugar deve-se destacar que nessa região estão domiciliados quase 42% do total de eleitores do país. Assim, qualquer alteração entre um turno e outro, positivamente ou negativamente, impactará o desempenho final de cada candidato. Quando se considera o montante de votos obtidos por Lula no segundo turno, é factível informar que a grande virada de Lula está muito conectada com a votação obtida nessa região que, em termos absolutos, significou um acréscimo de 4.800.945 de votos a mais no segundo turno em relação à votação obtida no primeiro turno. Esse montante a mais no segundo turno nessa região representou 47% de todos os votos a mais recebidos por Lula em todo o país. Por isso, é importante analisar o que aconteceu em cada uma das unidades da federação dessa região. No caso do estado de São Paulo observou-se um aumento de 2.613.861 na votação de Lula no segundo turno. Esse patamar representa 54% do total de votos a mais na região Sudeste. Já em Minas Gerais foi registrado um aumento de 1.162.775 de votos obtidos por Lula no segundo turno, significando um acréscimo de 24%. Ou seja, do total de votos a mais em Lula na região Sudeste no segundo turno das eleições, 78% tiveram origem nos estados de São Paulo e Minas Gerais. O estado do Rio de Janeiro contribuiu com 18% desse acréscimo e o Espirito Santo com apenas 4%. E mesmo assim, com exceção de Minas Gerais (50,43%), em todos os demais estados a participação de Lula na votação total ficou abaixo de 50% do montante de votos.

O Quadro 6 mostra a evolução da votação de Lula nos dois turnos na região Sul com ênfase nas votações em cada estado da região. Em primeiro lugar deve-se destacar que nessa região estão domiciliados apenas 14,4% do total de eleitores do país. Quando se considera o montante de votos obtidos por Lula no segundo turno, verifica-se que a votação Lula sofreu um acréscimo de 1.332.846 votos em relação à votação obtida no primeiro turno, conformando um aumento de 24%. Todavia, esse montante a mais no segundo turno nessa região representou apenas 13% de todos os votos a mais recebidos por Lula em todo o país. Por isso, é importante analisar o que aconteceu em cada uma das unidades da federação dessa região. No caso do estado do Paraná, observou-se um aumento de 511.907 votos em Lula no segundo turno. Com isso a participação de Lula nesse estado passou de 31,20% (1º turno) para 37,42% de todos os votos sufragados no segundo turno. Já no Rio Grande do Sul esse aumento foi 529.793 votos, passando de 35,73% para 42,16% entre os dois turnos. Finalmente, em Santa Catarina o aumento foi de 291.146 votos, passando de 25,04% para 30,58%. Mesmo que os percentuais ficaram num patamar abaixo de 50%, vale frisar a importância desses aumentos da votação em Lula nesses estados dominados politicamente pelas correntes políticas conservadoras.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como comumente sempre se diz que o segundo turno é uma outra eleição, o processo eleitoral presidencial de 2026 confirmou tal fato. Em primeiro lugar porque Lula quebrou o paradigma de que o candidato que competiria no segundo turno com uma votação inferior àquela recebida pelo seu adversário no primeiro turno acabava perdendo as eleições. Lula foi gigante e quebrou mais esse paradigma ao se eleger pela quarta vez como presidente do país, fato que nunca havia sido registrado na história do país.
Outro fato importante a ser registrado é que nas eleições presidenciais de 20026 havia 12 candidatos concorrendo ao cargo de Presidente da República. Todavia, somente as duas candidaturas que competiram no segundo turno obtiveram 92% dos votos no primeiro turno, o que significou um esvaziamento das outras dez candidaturas já no primeiro turno.
Esse cenário sugeria que no segundo turno deveria haver um grande confronto entre os dois candidatos que resultaria numa diferença mínima entre vencedor e perdedor, sobretudo quando em 2022 Lula venceu as eleições por uma diferença de pouco mais de 2 milhões de votos. Todavia, ao final do processamento dos votos verificou-se que Lula se tornou vitorioso por uma margem bem maior (4,5 milhões de votos) do que estava sendo projetado.
O principal fator que explica essa virada de Lula no segundo turno foi uma mudança radical da campanha no segundo turno comparativamente à fase anterior. Por um lado, a campanha ganhou uma dimensão expressiva nas redes sociais por meio do chamado “exército de Lula” que ao final das eleições tinha mais de 12 milhões de pessoas cadastradas.
Por outro, as eleições de 2026 recuperam uma tradição das campanhas do PT não vista no primeiro turno, ou seja, a mobilização da sociedade em grandes manifestações de ruas. Assim, o segundo turno foi marcado por mobilizações gigantescas da população, especialmente na reta final da campanha, em todas as principais cidades do país. Essas mobilizações de ruas das pessoas – a meu ver mais impactantes que as mobilizações das redes sociais – criaram um clima de reconexão real entre as pessoas que deixaram o isolamento e o individualismo das redes sociais e passaram a caminhar juntas pelas ruas das cidades, situação que foi registrada somente em dois períodos históricos do país: a campanha das “Diretas Já em 1984” e a campanha de Lula em 1989, a primeira eleição presidencial depois do fim da ditadura.
E neste cenário é indiscutível o papel decisivo que tiveram os estudantes e os jovens nessas mobilizações, uma vez que tomaram consciência do perigo que significava o país ser governado novamente por um miliciano do clã bolsonarista.
Lauro Mattei – Professor de Economia da UFSC
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