As eleições legislativas de meio de mandato dos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro, podem representar um duro revés político para Donald Trump. Pesquisas de opinião apontam uma possível onda democrata, impulsionada pelo desgaste do presidente, pela insatisfação com a economia e pela rejeição a medidas adotadas durante seu segundo mandato.
Em reportagem publicada neste domingo (1º), no jornal britânico The Guardian, o jornalista David Smith, correspondente em Washington, analisa o cenário eleitoral e aponta que Trump transformou a disputa em um referendo sobre seu próprio governo. Ao convocar os republicanos a fazerem campanha como se ele próprio estivesse na cédula eleitoral, o presidente acabou nacionalizando uma eleição que parte dos candidatos preferia disputar com foco em questões locais.
O resultado pode ser particularmente desfavorável aos republicanos. Segundo levantamento Reuters/Ipsos citado pelo jornal, os democratas têm vantagem de 11 pontos percentuais na preferência genérica para o Congresso: 47% contra 36%. A aprovação de Trump aparece em apenas 32%, um dos piores índices registrados por um presidente americano às vésperas das eleições de meio de mandato desde Harry Truman.
A margem republicana na Câmara dos Representantes é estreita, de 218 a 214 cadeiras, enquanto o partido mantém vantagem de 53 a 47 no Senado. Os democratas precisam conquistar quatro cadeiras líquidas para assumir o controle da Câmara. A disputa pelo Senado é mais difícil, mas o desgaste de Trump ampliou o número de estados considerados competitivos.
Economia e guerra ampliam desgaste
Um dos principais fatores de insatisfação é o custo de vida. Durante a campanha presidencial de 2024, Trump prometeu combater a inflação e reduzir os preços. Entretanto, segundo a análise do Guardian, o resultado foi o contrário. Tarifas comerciais impostas pelo governo e a guerra contra o Irã contribuíram para agravar a pressão sobre famílias e setores produtivos.
O conflito, iniciado em fevereiro, provocou impactos nos mercados internacionais de energia, elevando os preços do diesel e afetando o transporte de cargas e a produção agrícola. A insatisfação atinge inclusive setores que apoiaram Trump em 2024, quando ele conseguiu ampliar sua presença entre trabalhadores e eleitores de diferentes grupos sociais.
Chris Matthews, comentarista político e ex-redator de discursos presidenciais, afirmou ao jornal que a economia tem um peso eleitoral superior às bandeiras ideológicas do movimento Make America Great Again (MAGA). Para ele, eleitores preocupados com o orçamento doméstico tendem a responsabilizar diretamente o presidente pelo aumento das despesas.
A percepção de corrupção também contribui para o desgaste. Smith destaca críticas aos gastos e às reformas promovidas por Trump na Casa Branca, além do crescimento de sua fortuna pessoal, estimada pela Forbes em US$ 6,5 bilhões, ante US$ 2,3 bilhões em 2024.
Recuo entre eleitores latinos preocupa republicanos
Outro problema para os republicanos é a perda de apoio entre os eleitores latinos. Em 2024, Trump conquistou avanços expressivos nesse segmento, especialmente entre os homens, alimentando a expectativa de uma nova coalizão eleitoral republicana.
Entretanto, a política de deportações em massa, marcada por operações ostensivas do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE), provocou reação negativa em comunidades latinas.
Larry Jacobs, diretor do Centro para o Estudo da Política e da Governança da Universidade de Minnesota, avalia que a estratégia migratória de Trump afastou justamente um dos segmentos de crescimento mais rápido do eleitorado americano.
O Texas tornou-se um dos principais campos de batalha. James Talarico, candidato democrata ao Senado, aparece competitivo contra o republicano Ken Paxton, aliado de Trump. Uma eventual vitória democrata no estado, tradicional reduto conservador, seria um sinal importante de mudança no cenário político nacional.
Democratas podem assumir controle do Congresso
A disputa também mobiliza candidatos democratas em estados considerados tradicionalmente republicanos. Em Ohio, o ex-senador Sherrod Brown tenta retornar ao Congresso, explorando a insatisfação dos trabalhadores com o preço dos combustíveis e o fechamento de unidades industriais.
Em Michigan, Abdul El-Sayed disputa uma vaga no Senado contra o republicano Mike Rogers. Caso eleito, poderá se tornar o primeiro senador muçulmano dos Estados Unidos. A campanha tem sido marcada por ataques relacionados às suas posições sobre política externa e por manifestações islamofóbicas de Trump.
Apesar do crescimento democrata, a reportagem ressalta que a disputa interna do partido permanece aberta entre moderados e progressistas. Uma vitória expressiva poderá fortalecer setores que defendem uma oposição mais incisiva ao trumpismo, mas analistas ouvidos pelo jornal alertam que os candidatos moderados continuam predominantes em diversas disputas.
Possível derrota pode paralisar governo Trump
Uma vitória democrata em qualquer uma das duas Casas do Congresso teria consequências importantes para o restante do mandato presidencial. Além de dificultar a aprovação de projetos legislativos, a oposição ganharia instrumentos para investigar decisões do governo, incluindo a guerra contra o Irã e possíveis conflitos de interesse envolvendo Trump e sua família.
O líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, já sinalizou que pretende utilizar os poderes de investigação do Congresso para apurar denúncias de corrupção e decisões da administração republicana.
O resultado também poderá antecipar a disputa presidencial de 2028. Entre os nomes cotados para suceder Trump na liderança republicana estão o vice-presidente JD Vance, o senador Ted Cruz e o secretário de Estado Marco Rubio. No campo democrata, aparecem o governador da Califórnia, Gavin Newsom, o senador Jon Ossoff, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez e a ex-vice-presidente Kamala Harris.
A reportagem de David Smith conclui que o eleitorado demonstra cansaço com a alta dos preços, os conflitos políticos permanentes e a instabilidade provocada pelo governo. A votação de 3 de novembro poderá, assim, representar não apenas uma mudança na composição do Congresso, mas um importante sinal sobre os limites políticos do segundo mandato de Donald Trump.
Fonte: Jornal The Guardian, reportagem publicada em 1º de novembro de 2026.
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