4 de novembro de 2026

Copom mantém Selic em 13,75% e aponta inflação como justificativa

BC eleva projeção de inflação para 3,5% no segundo trimestre de 2028 e aponta riscos associados ao câmbio; economistas veem espaço para ciclo sem ajustes
Edifício do Banco Central, em Brasília. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu manter a taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano, interrompendo o ciclo de cinco cortes consecutivos iniciado em março de 2026.

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Em comunicado divulgado nesta quarta-feira (4), o colegiado apontou uma piora do cenário inflacionário, o aumento das incertezas externas e domésticas e uma desaceleração mais acentuada da atividade econômica brasileira.

A decisão mantém os juros em patamar considerado substancialmente contracionista pelo próprio Banco Central. O comunicado também trouxe uma mudança importante na orientação da política monetária: em vez de mencionar a magnitude total do ciclo de calibração, como na comunicação anterior, o Copom afirmou que continuará acompanhando a evolução do cenário para manter a restrição adequada e assegurar a convergência da inflação à meta.

A deterioração das perspectivas de preços aparece nas projeções do próprio Comitê. A estimativa de inflação para o segundo trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária, subiu de 3,2% para 3,5%. As projeções para 2026 e 2027 também foram revistas para cima, passando a 5,6% e 4,7%, respectivamente.

O Copom destacou que a inflação cheia e a média das medidas subjacentes aceleraram nas divulgações mais recentes, situando-se acima do limite superior do intervalo de tolerância da meta. As expectativas de inflação para 2026 e 2027, apuradas pela pesquisa Focus, também se distanciaram da meta, alcançando 5,2% e 4,8%.

No diagnóstico sobre a atividade econômica, o Banco Central identificou uma moderação mais acentuada, principalmente nos setores mais sensíveis ao ciclo econômico. O mercado de trabalho permanece resiliente, mas apresenta sinais de desaquecimento na margem.

O cenário internacional também se tornou mais adverso, segundo o Comitê, diante do prolongamento dos conflitos no Oriente Médio e das incertezas sobre a política monetária das principais economias avançadas.

Riscos inflacionários e ausência de sinalização para os juros

O balanço de riscos apresentado pelo Copom mantém assimetria altista, indicando maior preocupação com fatores que podem pressionar a inflação. Entre eles estão a desancoragem prolongada das expectativas, os possíveis efeitos de segunda ordem dos choques nos preços do petróleo e seus derivados, a maior persistência da inflação de serviços, a depreciação cambial e eventuais estímulos adicionais à demanda.

O colegiado também apontou riscos de baixa, como uma desaceleração mais intensa da economia brasileira, um enfraquecimento mais acentuado da atividade global e uma eventual redução nos preços das commodities.

Para a economista Marianna Costa, da corretora Mirae Asset, a decisão reflete a deterioração da dinâmica inflacionária e das expectativas, mesmo diante de uma atividade econômica mais fraca. A avaliação da instituição é que a Selic deverá permanecer em 13,75% por um período relevante, pelo menos até o final do primeiro trimestre de 2027.

Beto Saadia, economista-chefe da Nomos, observa que o comunicado de novembro adotou um tom mais duro em relação ao documento anterior. Além da retirada da referência à magnitude do ciclo de calibração, ele destaca a ênfase na manutenção de uma política monetária restritiva e a inclusão explícita dos riscos relacionados à inflação de serviços e à persistente depreciação cambial.

Segundo Josias Bento, sócio da GT Capital, a manutenção da Selic preserva a âncora monetária em um ambiente de incerteza internacional e pressões domésticas sobre os preços.

Para ele, a deterioração das expectativas de inflação é um dos principais fatores por trás da decisão, o que pode fazer com que a taxa siga em 13,75% até o final do ano e que a condução da política fiscal será determinante para os próximos passos do Banco Central, podendo prolongar o ambiente de juros elevados e manter os ativos brasileiros sob pressão.

Rai Chicoli, estrategista-chefe da Monte Bravo, também destaca a elevação da projeção de inflação para 3,5% no horizonte relevante e a manutenção da assimetria altista no balanço de riscos. Para ele, a decisão de preservar a taxa básica “reflete a necessidade de manter a restrição monetária diante da piora das expectativas e dos choques de oferta incorporados desde a reunião anterior”.

O diretor de pesquisa econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, também considera que o comunicado reforça a possibilidade de uma pausa prolongada. Para ele, a retirada da referência à magnitude total do ciclo de calibração é compatível com a manutenção da Selic em 13,75% na reunião de dezembro, e destaca que a retomada dos cortes em 2027 dependerá de uma melhora mais consistente das expectativas de inflação, da evolução da política fiscal e da confirmação da desaceleração econômica.

Apesar das diferentes interpretações sobre a duração do atual patamar de juros, os especialistas convergem na avaliação de que a deterioração das expectativas inflacionárias limita o espaço para uma flexibilização monetária no curto prazo. O Copom, por sua vez, não antecipou os próximos passos.

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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