O iFood entrou na Justiça de São Paulo contra a Keeta, plataforma de delivery controlada pela chinesa Meituan, sob a acusação de praticar preços predatórios e de aliciar restaurantes ligados a contratos de exclusividade. A ação foi protocolada na quarta-feira (4) e pede a interrupção das supostas práticas anticoncorrenciais, além de indenização por danos materiais e morais.
De acordo com o iFood, a Keeta financia descontos, cupons e outras vantagens com dinheiro da controladora, em montante que as receitas da operação brasileira não sustentariam. O objetivo, segundo a autora, seria ganhar mercado rapidamente, enfraquecer rivais e, depois, aumentar preços e reduzir benefícios.
Preços abaixo do custo
Na petição, o iFood afirma que, desde a chegada da Keeta ao Brasil, em outubro de 2025, a plataforma oferece descontos de até 60%, cupons de até R$ 200, entrega gratuita e comissões reduzidas aos restaurantes. A empresa apresenta um parecer econômico da consultoria Compass Lexecon e levantamentos das empresas Smart Research e PiniOn.
Os dados citados indicam que, entre dezembro de 2025 e julho de 2026, os descontos da Keeta em São Paulo ficaram entre 39,2% e 42,9% do valor integral dos pedidos, e 87,8% das entregas tiveram frete grátis. Segundo o parecer, a receita líquida por pedido seria negativa mesmo antes de os custos operacionais serem considerados, já que os descontos superariam o que a plataforma arrecada com comissões e taxas. A consultoria ressalva, porém, que não teve acesso aos custos efetivos por pedido.
O estudo estima ainda que, se o iFood adotasse as mesmas condições comerciais em 70 milhões de pedidos mensais, teria prejuízo superior a R$ 514 milhões por mês. Para o iFood, a capacidade financeira da Meituan permitiria à Keeta suportar perdas prolongadas, uma vantagem que não decorreria de eficiência operacional.
A empresa também menciona a atuação da Keeta em Hong Kong, Arábia Saudita, Qatar e Kuwait, onde, segundo o parecer, subsídios semelhantes teriam enfraquecido concorrentes e, mais tarde, levado à redução de benefícios a restaurantes e entregadores.
Aliciamento de restaurantes
A segunda frente da ação trata da suposta interferência da Keeta nos contratos de exclusividade do iFood. Conforme a petição, a rival montou uma equipe comercial chamada SMBX, formada sobretudo por ex-funcionários do iFood, para abordar estabelecimentos vinculados a esses acordos.
Como prova, o iFood apresenta transcrições de áudios atribuídos a um gerente da Keeta. Em um deles, o profissional diz integrar um time criado para negociar com restaurantes exclusivos do iFood. Em outro, pede capturas de tela do portal de parceiros, dados de pedidos e acesso ao contrato de exclusividade, incluindo informações sobre taxas e multas. A inicial também reproduz um bilhete manuscrito, atribuído a uma funcionária da Keeta, que menciona recursos disponíveis para o rompimento desses contratos.
O iFood cita ainda cláusulas de contratos atribuídos à Keeta que exigiriam dos restaurantes informações comerciais, como volume de pedidos, comissões e cópias dos acordos de exclusividade, e que previam o ressarcimento de multas pela quebra dos vínculos. Para a empresa, as práticas vão além da concorrência legítima, pois induzem ao descumprimento de obrigações contratuais e à obtenção de dados estratégicos e confidenciais.
Pedidos à Justiça
A ação se apoia na lei de propriedade industrial, na lei de defesa da concorrência e no Código Civil, e sustenta que as condutas configuram concorrência desleal, infração à ordem econômica, abuso de direito e interferência contratual ilícita.
O iFood quer que a Justiça obrigue a Keeta a cessar os preços predatórios e a deixar de oferecer incentivos condicionados à quebra de exclusividade ou à obtenção indevida de informações confidenciais. Pede também indenização por danos materiais, em valor a ser apurado, e R$ 200 mil por danos morais, além de multa diária em caso de descumprimento.
Para comprovar as alegações, a empresa solicita perícia econômico-financeira sobre custos, preços e subsídios da Keeta e a distribuição dinâmica do ônus da prova, de modo que a concorrente apresente informações sobre suas operações.
O processo tramita na 1ª Vara Empresarial e Conflitos de Arbitragem do Foro Central Cível de São Paulo, sob responsabilidade do juiz André Salomon Tudisco. A causa tem valor de R$ 1 milhão.
*Com informações do Migalhas.
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