6 de novembro de 2026

Brasil: entre a força da extrema direita e a reação do campo progressista, por Luciano Fazio

Em muitos casos, as diferenças políticas passaram a envolver identidades, valores morais, convicções religiosas e visões de mundo.
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Lula venceu Flávio Bolsonaro em 25/10/2026 com 64,26 milhões de votos contra 59,83 milhões, garantindo vitória progressista.
Bolsonarismo mantém força com 60 milhões de eleitores e Congresso conservador dificulta aprovação de propostas do governo Lula.
Mobilização popular e reação ética fortaleceram campo progressista, que enfrenta desafio de diálogo e governabilidade até 2030.

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Brasil: entre a força da extrema direita e a reação do campo progressista

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por Luciano Fazio

Os 64,26 milhões de votos de Lula, contra 59,83 milhões de Flávio Bolsonaro, em 25/10/2026, consagraram uma importante vitória do campo democrático e progressista. Uma diferença de 4,43 milhões de votos válidos não é desprezível, a demonstrar que o eleitorado brasileiro não aceitou a perspectiva de um quadriênio de governo bolsonarista.

A FORÇA DA EXTREMA DIREITA PERMANECE

Seria um erro, entretanto, interpretar esse resultado como uma perda da força do bolsonarismo, que mantém influência e capacidade de mobilização na sociedade. Os 60 milhões de eleitores que votaram no número 22 não desapareceram com o fechamento das urnas. Boa parte deles continuará identificada com as ideias e os valores que sustentaram a candidatura de Bolsonaro Jr.

Além disso, o Congresso Nacional recém eleito é majoritariamente conservador , aumentando as dificuldades do governo Lula para aprovar suas propostas. O partido de Bolsonaro terá a maior bancada na Câmara dos Deputados e no Senado. A direita e o centro-direita, somados, dispõem de uma expressiva maioria parlamentar, podendo até aprovar mudanças na Constituição Federal sem o apoio dos demais partidos.

São previstos 4 anos de governabilidade difícil. A própria preservação de direitos sociais e trabalhistas e a implementação de mudanças estruturais dependerão de negociações complexas do governo com forças políticas de projetos e interesses bastante distintos dos seus.

Para além da atual composição do Congresso, nos últimos anos, houve um aumento estrutural do poder do Legislativo e, em contrapartida, uma redução da capacidade de iniciativa e coordenação política do Executivo federal. Além de espaço de representação e de exercício do voto parlamentar, o Congresso constitui um importante centro de reprodução e difusão de ideias, com capacidade de irradiá-las para todo o país.Além disso, hoje, o congressista brasileiro dispõe de verbas muito expressivas provenientes das emendas parlamentares, que lhe permitem “mostrar serviço” em sua base eleitoral, atendendo a interesses locais, mesmo quando estes não estão em sintonia com as prioridades do governo federal.

O DESAFIO DE RECONSTRUIR O DIÁLOGO DO GOVERNO COM A SOCIEDADE

Permanecem presentes os principais elementos de força eleitoral da direita: a deslegitimação moral do Partido dos Trabalhadores, rotulado como partido corrupto, a mobilização de valores religiosos e de costumes tradicionais, o medo da violência, a capacidade de explorar as insatisfações sociais e, sobretudo, a utilização das novas tecnologias de comunicação para construir narrativas políticas. Eles requerem respostas do campo democrático e progressista.

Um dos problemas mais importantes é a profunda divisão da sociedade brasileira. Não estamos diante apenas de divergências sobre programas de governo ou preferências partidárias. Em muitos casos, as diferenças políticas passaram a envolver identidades, valores morais, convicções religiosas e visões de mundo. O adversário político deixou de ser alguém que pensa diferente e passou a ser visto como uma ameaça, alguém com quem não se deve sequer conversar.

Essa divisão é agravada pelas chamadas bolhas informativas. As redes sociais e os aplicativos de mensagens, impulsionados por algoritmos que privilegiam conteúdos capazes de despertar emoções fortes, tendem a apresentar às pessoas informações que confirmam suas próprias convicções. Notícias, interpretações e opiniões que contradizem essas convicções sequer são recebidas e, quando conseguem furar a bolha, frequentemente são rejeitadas, independentemente de sua veracidade.

O resultado é a formação de universos informativos paralelos, onde os fatos perdem espaço para as narrativas. A comunicação política esbarra na dificuldade em dialogar com quem já não compartilha a mesma opinião do comunicador.

Nas três semanas entre o primeiro e o segundo turnos da eleição presidencial, contudo, emergiram fatos novos. Temas relevantes para a sociedade voltaram a ser assunto do dia a dia das pessoas, mesmo daquelas que geralmente não falam de política. Ganharam destaque incomum assuntos como o salário mínimo, o emprego e o desemprego, a jornada de trabalho, o Sistema Único de Saúde e a possibilidade de retrocessos autoritários no sistema político nacional. O campo progressista, que parecia acreditar que seus feitos falassem por si só à população, entendeu melhor as dinâmicas de comunicação na sociedade atual e se movimentou para recuperar espaço na narrativa.

O principal motor dessa recuperação não foi a ação dos partidos governistas, mas a reação popular, em geral espontânea . Estudantes, uma parcela significativa dos bispos e dos fiéis católicos, minorias identitárias, organizações sindicais, artistas, entre outros sujeitos sociais, contribuíram para a reviravolta do cenário, caracterizada pela ocupação do espaço de fala e pela retomada dos espaços públicos. Inéditas foram a utilização das redes sociais e as grandiosas manifestações de rua, mesmo nos redutos geográficos do conservadorismo nacional.

A reação popular foi em parte política, com destaque para a defesa da democracia e das conquistas dos programas sociais e da soberania nacional, ameaçada pelos Estados Unidos com a cumplicidade de Bolsonaro Jr.

Essa reação, no entanto, foi também de caráter ético, em resposta aos discursos de ódio contra as minorias (povos indígenas, população afrodescendente, segmento LGBTQIA+ e nordestinos), à violência policial, à sistemática divulgação de fake news e aos atos de intolerância política e religiosa.

E AGORA?

Os eventos de outubro de 2026 evidenciaram a persistência de uma extrema direita muito forte e, ao mesmo tempo, a recuperação da iniciativa política pelo campo de centro-esquerda.

Depois de mais de uma década de dificuldade de mobilização popular, o campo progressista voltou à cena, superando um período de apatia. Em 25 de outubro, para surpresa de muitos analistas políticos, conseguiu reverter um resultado eleitoral que parecia comprometido pelo desempenho do primeiro turno de 04 de outubro.

O sucesso do governo Lula dependerá essencialmente da capacidade de manter essa mobilização popular, como contrapeso a uma representação parlamentar numericamente desfavorável no Congresso Nacional .

O país apresenta problemas de difícil solução, como o sentimento de insegurança da população frente à criminalidade, as elevadas taxas de juros e a impressão de que a classe política está longe do dia a dia das pessoas comuns.

O desafio do governo Lula, para além de costurar uma maioria no Congresso Nacional e administrar as políticas já existentes, será apresentar projetos de mudança que sejam entendidos e apoiados pela população. Trata-se de oferecer perspectivas de transformação e demonstrar que a democracia pode produzir resultados concretos na vida das pessoas. A política sem sonhos não mobiliza. Mas, se assim for, haverá um apoio popular decisivo.

Diante da rejeição do PT por quase metade do eleitorado, será fundamental que também outros partidos políticos e sujeitos sociais se façam protagonistas da busca de diálogo com setores conservadores da sociedade. Cabe tentar superar a contraposição do tipo ‘muro contra muro’. A decepção de parte das lideranças políticas de direita e de parte de seu eleitorado com a postura golpista de Bolsonaro Jr. também pode ajudar a reabrir espaço para posturas menos intolerantes e a retomada do confronto de ideias, em prol da paz social e do progresso nacional.

Luciano Fazio – Matemático pela Università degli Studi de Milão e pós-graduado em Previdência Social e Gestão de Fundos de Pensão pela FGV. Trabalha com consultoria e formação nas áreas de economia e previdência e é consultor externo do Dieese para assuntos previdenciários. Autor dos livros “O que é Previdência Social”, Loyola, 2016, e “O que é Previdência do Servidor Público”, Loyola 2020.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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