4 de junho de 2026

África, Oriente Médio e Ásia em Das Nibelungenlied, por Fábio de Oliveira Ribeiro

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África, Oriente Médio e Ásia em Das Nibelungenlied

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Esta semana torcedores ingleses ofenderam profundamente a sensibilidade dos russos ao fazer saudações nazistas numa cidade que foi devastada pelas tropas de Hitler durante a II Guerra Mundial. Ingleses e russos foram aliados na I e na II Guerra Mundial, mas isso parece não desempenhar qualquer importância nas consciências daqueles súditos da rainha Elisabeth.

Evidente, a irracionalidade deles, me levou a meditar sobre a irracionalidade dos próprios nazistas alemães. E então eu me lembrei de duas coisas. A primeira, a paixão de Hitler e dos nazistas pela ópera Der Ring des Nibelungen, de Richad Wagner (libreto e música concebidos entre1848 e 1874), pelo filme Die Nibelungen de Fritz Lang (1924) e, obviamente, pelo poema épico que inspirou ambos (escrito por volta de 1200).

Os neo-nazistas alemães (e os clones deles na França, Inglaterra, Espanha, Ucrânia, EUA, Brasil, etc…) também cultuam Das Nibelungenlied. Mas eles não odeiam apenas os judeus como seus antepassados. Eles devotam um ódio visceral contra negros, gays, russos, imigrantes, etc. Em especial, os neo-nazistas europeus (e alguns de seus clones brasileiros) gostam de fazer demonstrações públicas de ódio contra o islamismo e contra tudo que provém do Oriente Médio e da África (exceto o petróleo e os diamantes, é claro) e da Ásia (exceto os produtos manufaturados Made in China).

Há algum tempo comprei um exemplar de A Canção dos Nibelungos, editora Thesaurus, Brasília, 2013. Como sou estudioso de literatura, fiz uma leitura acurada do livro e resolvi expor aqui como e porque a irracionalidade dos neo-nazistas não encontra fundamento nem mesmo no poema épico que eles cultuam.

Além da aventura com o dragão e batalhas entre guerreiros virtuosos (e não tão virtuosos assim) Das Nibelungenlied narra a opulência e o refinamento na corte de Gunther em Worms e na corte de Brünhild na Islândia. Destaco abaixo alguns fragmentos da obra sobre esta temática:

362. Em sedas árabes, brancas como a neve, e em outras excelentes de um verde-alfafa, procedentes de Zazamanc, fixaram elas pedras preciosas resultado daí belos trajes. Foi Kremhild, a belíssima donzela, que pessoalmente talhou as roupas. (A Canção dos Nibelungos, editora Thesaurus, Brasília, 2013, 6ª Aventura, p. 93)

364. As damas tinhas à sua disposição asa melhores sedas do Marrocos e da Líbia em quantidade que jamais reunira outra casa real. O emprenho de Kremhild em atende-los mostrava o quanto lhes queria bem. (A Canção dos Nibelungos, editora Thesaurus, Brasília, 2013, 6ª Aventura, p. 93)

429. A donzela pôs uma cota de malha confeccionada em seda e que nunca havia sido danificada em combate. O tecido procedente da Líbia era belíssimo. Nele se via cintilar preciosos galões bordados a fio de ouro. (A Canção dos Nibelungos, editora Thesaurus, Brasília, 2013, 7ª Aventura, p. 105)

No castelo de Bechelarem, a esposa de Rüdiger – vassalo de Etzel (rei dos hunos) que havia comunicado o interesse do rei dos hunos de desposar a viúva Kremhild – dá um presente ao traiçoeiro  Hagen von Tronje.

1702. Um pano de fina seda cobria o escudo guarnecido de pedras preciosas (a luz do dia jamais iluminara escudo melhor). Se alguém quisesse compra-lo, ele certamente valeria mil marcos. (A Canção dos Nibelungos, editora Thesaurus, Brasília, 2013, 27ª Aventura, p. 345)

Num momento crucial da saga de Siegfried, a seda também desempenha um papel importante:

903. Hagen von Tronje sugeriu então. ‘Bordai sobre seu traje um pequeno sinal para que desse modo saiba onde devo protege-lo enquanto estivermos envolvidos em combate.’ Acreditava ela ter assim resguardado a vida do Herói, quando, na realidade, preparava sua morte.

904. Ela respondeu: ‘Com fio de seda bem fina bordarei uma cruz quase imperceptível. É ali que tu, bravo guerreiro, deverás proteger meu esposo, sempre que em meio ao futur da batalha ele enfrentar o inimigo.’ ” (A Canção dos Nibelungos, editora Thesaurus, Brasília, 2013, 15ª Aventura p. 194)

Dos fragmentos acima mencionados, podemos concluir Oriente-Médio, Ásia, África e Ocidente foram deliberadamente misturados durante o processo de construção do principal objeto de adoração dos nazistas e dos neo-nazistas. Não é possível separá-los sem mutilar profundamente Das Nibelungenlied. A intolerância cultural não está presente no texto do poema épico. Ela é produto de uma leitura seletiva, distorcida e irracional (ou, o que também é provável, de uma não leitura) da obra.

 

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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3 Comentários
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  1. Ivan de Union

    21 de junho de 2018 10:43 pm

    “Ela é produto de uma leitura

    “Ela é produto de uma leitura seletiva, distorcida e irracional (ou, o que também é provável, de uma não leitura) da obra”:

    Fabio, eu tenho antipatia visceral as mitologia nordica

    Nunca vi algo tao burro, nem algo tao certamente escrito por vitimas de depressao na minha vida inteiras

     

    So que eu penso isso desde is 9 ou 10 anos de idade.

    Literalmente.

    Eu DETESTO literature mitologia nordica…

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      22 de junho de 2018 1:33 am

      O poema épico que eu comentei

      O poema épico que eu comentei tem alguns elementos da mitologia nordica, mas na verdade ele é uma obra de transição. Na corte de Gunther em Worms quase todos são cristãos. Na Islândia e no país dos hunos o cristianismo ainda é uma novidade, mas já é mais ou menos tolerado. 

      A saga a que voce se refere (que contém a mitologia genuinamente nórdica) é outra. Creio que voce está se referindo ao livro de Snorri Sturluson (1179 – 1241), cujo conteúdo é bem diferente. Nele não há qualquer referência ao cristianismo ou a produtos oriundos da África, Ásia e Oriente Médio. Trata-se de um registro que se supõe fiel de uma realidade cultural e mitológica muito diferente que produziu costumes e crenças religiosas distintas daquelas que predominam no poema épico que foi comentado aqui.

      Tenho uma edição espanhola da saga dos Eddas, de Snorri Sturluson. Já fiz uma leitura, mas prefiro não entrar em detalhes aqui. 

      O ódio não é um bom conselheiro literário. É preciso manter distância das emoções quando entramos em contato com obras antigas, sejam elas oriundas de Roma, da Grécia ou da Europa pré cristã. 

  2. Gabro

    22 de junho de 2018 11:22 am

    O nazismo obviamente é um
    O nazismo obviamente é um fenômeno de origem alemã. Mas e o neo-nazismo? Não me parece tão claro. Não seria antes um movimento difuso internacional desde o seu surgimento? Neste caso seria impreciso falar de neo-nazismo alemão e seus clones. Alguém saberia esclarecer a questão? Abraços

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