5 de junho de 2026

Quando novas ideias são mais importantes do que o capital

Da Folha de S. Paulo
 
Por um capitalismo inovador
 
Por Pedro Luiz Passos
 
Novas ideias importam mais que capital e florescem quando se encoraja a liberdade para empreender
 
O negativismo que permeia as análises sobre a economia brasileira, em contraste com a percepção de bem-estar especialmente da base da pirâmide de renda, é o grande desafio que confronta o país sobre o que fazer para desobstruir a aceleração do crescimento sem implicar retrocesso dos avanços sociais. Essa é a equação prioritária para a engenharia política e a formulação da política econômica.
 
O ponto a questionar é se estamos dando devida atenção às causas primárias que embaraçam o crescimento econômico ou tomando sequelas desse processo, tais como pressões inflacionárias, baixo dinamismo do PIB e desvalorização da moeda, como os problemas prioritários da agenda de desafios.
 
Certamente, eles o são no curto prazo. Deficit externo crescente e financiado com capitais voláteis não tranquiliza ninguém. Nem a expansão econômica –que condiciona a receita dos governos– abaixo do ritmo de avanço no gasto público. Tais eventos serão problemas realmente sérios, se faltar convicção de que a economia vá gerar os resultados necessários para os compromissos presentes e futuros. Esse é o ponto mais discutível e pouco falado.
 
A verdade é que dois dos principais fatores que explicam a taxa de crescimento econômico de um país são o aumento da força de trabalho e a produtividade da mão de obra.
 

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Após uma década de expansão dirigida pelo consumo, o ritmo do aumento relativo da população economicamente ativa vem encolhendo, um fenômeno contra o qual há pouco o que fazer. A taxa de natalidade, um dos determinantes desse processo, caiu de 4,1 nascimentos em 1980 para 1,8 e continua a cair.
 
O esgotamento das oportunidades da “janela demográfica” ocorre em outras partes –do Japão à Alemanha, da Itália à Rússia, países em que a população diminui a cada ano–, não é um viés estritamente brasileiro. Mas as consequências dependem do que se faz com a outra parte do impulso do crescimento: a produtividade. Essa é a perna realmente manca de nossa economia.
 
Três quartos do crescimento do PIB na última década, segundo a consultoria BCG, vieram do acréscimo do número de pessoas empregadas, ante apenas 26% de ganhos de produtividade –conceito que abrange da melhor qualificação da força de trabalho aos gastos em automação e tecnologia pelas indústrias e superação dos gargalos de infraestrutura. O modelo econômico cujo vigor era baseado na expansão da mão de obra ficou para trás. O governo tem se aplicado em aliviar os constrangimentos estruturais. O plano de concessões de ativos de logística faz parte desse esforço.
 
Mas cabe indagar se o déficit acumulado da produtividade, que continua crescente em áreas mais difusas (como da segurança jurídica, da legislação trabalhista e das normas regulatórias) pode ser vencido sem mudança de conceitos e contribuição mais ampla da sociedade e do setor privado.
 
Como sugeriu o fundador do Khosla Ventures, um dos maiores e mais bem-sucedidos fundos de investimento em start-ups de tecnologia de ponta dos EUA, Vinod Khosla, referindo-se à Índia, seu país natal, “novas ideias são mais importantes que capital”. Dificilmente elas florescem em ambientes burocratizados. Mas onde governos encorajam o capitalismo inovador em contraponto à prescrição ditada do alto para baixo, disse Khosla, em artigo, o resultado transcende as expectativas.
 
Se estimuladas com incentivos apropriados, mesmo grandes empresas, acostumadas mais a proteger seus mercados que a inovar, diz Khosla, podem surpreender. Provocador, ele sugere, por exemplo, uma espécie de prêmio tributário da ordem de 10% para 25% da produção de carros mais eficientes, aplicando-se a mesma regra, mas como tributo punitivo, para os 25% menos eficientes. Para ele, isso seria mais eficaz do que fazem os EUA –e o Brasil–, ao impor meta de economia do consumo por quilômetro rodado até 2025, sem nem se saber qual tecnologia estará disponível em médio prazo.
 
O que desiniba as transformações e encoraje o nascimento de negócios emergentes, especialmente de base tecnológica, ajudará a encaminhar a solução do que só o governo pode resolver, como problemas regulatórios e de infraestrutura. Onde viceja a criatividade costuma prosperar a confiança, hoje, talvez, nosso déficit mais preocupante.
 
Pedro Luiz Passos, 62, empresário, é presidente do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) e conselheiro da Natura.

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3 Comentários
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  1. Assis Ribeiro

    3 de janeiro de 2014 10:17 am

    Duas perguntas simples e singelas

    “O negativismo que permeia as análises sobre a economia brasileira, em contraste com a percepção de bem-estar especialmente da base da pirâmide de renda, (…)”

    De que lado esteve a grande imprensa durante todo este tempo?

  2. vera lucia venturini

    3 de janeiro de 2014 12:11 pm

    A taxa de crescimento

    A taxa de crescimento economico é condicionada ao aumento da força de trabalho e produtividade e um dos pontos que tem ser mudado segundo o autor é a legislação trabalhista brasileira. O raciocínio principal do artigo diz respeito á falta de confiança no governo atual  (sem esquecer que ele é conselheiro da Natura, cujo sócio faz parte da Rede, novo baluarte de tomada de poder pelos elitistas de sempre que querem a riqueza nacional pra eles) e depois cita um indiano e uma teoria nova de desoneração de impostos para os ricos.

    Então tá. Considerar a importância de segurança salarial para o principal condicionante do aumento da taxa de crescimento econômico não entra no raciocínio do presidente do Iedi. E não deve entrar mesmo. Quantos milhares de trabalhores são vendedores da Natura sem ter qualquer segurança trabalhista como piso salarial e recolhimento de  FGTS e INSS? 

    Ou citando um ditado antigo “o uso do cachimbo faz a boca  torta”.

  3. wagner aparecido nogueira

    3 de janeiro de 2014 2:32 pm

    TALVEZ TENHAMOS DE ACORDAR

    TALVEZ TENHAMOS DE ACORDAR PARA O CUSTO OPERACIONAL CAUSADO PELAS TAXAS DE JUROS DE NOSSA POLÍTICA FINANCEIRA. NÃO COMO SUPORTAR OS CUSTOS DE OPERAÇÕES DE CRÉDITO BANCÁRIO COM AS TAXAS ATUAIS. HÁ MUITO ESPAÇO PARA DIMINUIRMOS OS CUSTOS DE FINANCIAMENTOS DOS MAIS DIVERSOS, CARROS, IMÓVEIS e na hora que isto ocorrer, uma nova faixa (com transversalidade em todos os níveis salariais) de consumidores poderão “entrar” no mercado, “entrar” pois já estão, mas não se hailitam ao melhor consumo de bens duráveis por temerem a apropriação financeira de transferência de renda deles, os tomadores, para os bancos, meros prestadores de serviços que nada produzem, só se apropriam da renda de quem trabalha.

    AINDA SOMOS SUBSERVIENTES A UM SISTEMA FINANCEIRO ULTRAPASSADO E INADEQUADO QUE BOICOTA INTENCIONALMENTE A PRODUÇÃO, A INOVAÇÃO, A PRODUTIVIDADE E OUTRAS MAZELAS MAIS.

    NO MÍNIMO, O CUSTEIO DAS OPERAÇÕES (JUROS) INFLUENCIA DIRETAMENTE NO RESULTDOS DOS PREÇOS E CONSEQUENTEMENTE NA INFLAÇÃO.

    DEVERÍAMOS FAZER UMA CAMPANHA NACIONAL:   JUROS SÃO PREJUDICIAIS À SAÚDE!

    ASSSIM, TODAS AS VEZES QUE ALGUÉM TOMAR UM EMPRÉSTIMO, TERIA UM  ALERTA EM LETRAS GARRAFAIS, assim como é feito com bebidas e cigarros.

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