4 de junho de 2026

O rei do rock negro

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O REI DO ROCK NEGRO

“Eu não sou Shakespeare. Mas ganhei muita grana e transei com mais de 4 mil mulheres. Tenho certeza de que Shakespeare trocaria de lugar comigo a qualquer hora”, Gene Simmons, do Kiss, dos Més e dos Rocks Brabos.

por André Barcinski

Elvis, ao contrário de vários outros ídolos da época (como Pat Boone, por exemplo), nunca renegou a origem de sua música. “O que eu faço não é novidade”, disse. “Os negros vêm cantando e dançando dessa forma há muito tempo.”

“Eu agradeço a Deus por Elvis Presley”, disse o negro Little Richard (foto), um dos grandes pioneiros do rock. “Ele abriu as portas para muitos de nós.”

Uma história emblemática é a de Shelley “The Playboy” Stewart, um radialista negro que apresentava um programa de rock na estação WEDR, no Alabama. O programa de Stewart atraía um público predominantemente branco, que aprendera a gostar dos artistas “de cor” que o DJ tocava.

No dia 14 de julho de 1960, Stewart estava apresentando um show na cidade de Bessemer, quando recebeu um aviso do dono do clube: a Ku Klux Klan, temida organização racista, havia mandado 80 homens para atacá-lo. Os encapuzados cercavam o clube e ameaçavam invadir o local. Sem perder a calma, Stewart avisou à platéia – formada por 800 brancos – que teria de parar o show. Foi aí que o inesperado aconteceu. “Os jovens que estavam no clube se rebelaram”, disse Stewart, anos depois. “Eles saíram correndo do local e atacaram a Klan, lutando por mim.” A simbologia do fato é forte demais: brancos lutando contra brancos, pelo direito de ouvir música negra.

O rock’n’roll não mudou a sociedade, mas serviu como espelho de mudanças e tendências. Claro que ninguém deixou de ser racista ao ouvir Elvis Presley cantando música “de negros”, mas o simples fato de Elvis aparecer em cadeia nacional, rebolando os quadris e celebrando uma cultura marginal, mostrava que o país estava mudando.

Os roqueiros passavam por maus bocados no fim dos anos 50: Elvis Presley foi para o Exército, Chuck Berry ficou preso dois anos por ter atravessado uma fronteira estadual com uma prostituta menor de idade, Little Richard abandonou o rock e virou pastor depois de “ouvir o chamado de Deus” durante um vôo turbulento, Jerry Lee Lewis arruinou a carreira ao casar com uma prima de 13 anos, Buddy Holly morreu em um acidente de avião, que matou também Ritchie Valens (La Bamba) e Big Bopper (Chantilly Lace), e Eddie Cochran morreu em um acidente de carro. Quando o futuro do rock’n’roll parecia negro, surgiram os Beatles.

 Michael Ochs Archives / Getty Images

George Harrison, Paul McCartney, Pete Best e John Lennon no palco do Cavern Club, em fevereiro de 1961, em Liverpool, Inglaterra | Fotógrafo: Michael Ochs Archives / Getty Images

A influência dos Beatles é incalculável. Musicalmente, eles elevaram o rock a um nível até hoje inigualado, estabelecendo parâmetros e modelos para toda a música pop. Suas experimentações abriram novas possibilidades sonoras e ampliaram os horizontes musicais das gerações posteriores. Culturalmente, eles foram igualmente importantes: carismáticos, irreverentes e cheios de sex-appeal, eles surgiram no mundo como um sopro renovador, obliterando a caretice da década de 50 e inaugurando uma era mais livre e esperançosa – os anos 60.

O rock democratizou a música pop. Subitamente, qualquer um podia subir em um palco e cantar. Elvis, um caipira ignorante, passou a freqüentar as paradas de sucesso ao lado de Sinatra (foto) e Nat King Cole (dá até para entender por que Sinatra, acostumado a trabalhar com músicos experientes, não aceitou o novo estilo: “rock’n’roll é a coisa mais brutal, feia e degenerada que eu já tive o desprazer de ouvir”, disse o “olhos azuis”).

Essa “democracia” do rock teve um efeito imediato: os artistas ficaram cada vez mais parecidos com seu público, tanto em idade quanto em classe social. Os jovens passaram a se identificar mais com seus ídolos, estabelecendo uma relação mais próxima com a música. O rock também passou a buscar na sociedade – especialmente nos jovens – os temas de suas canções. Essa troca fez do rock a música mais popular e culturalmente impactante do século 20.

Não foram os únicos roqueiros que se tornaram símbolos de uma era: Bob Dylan, Jimi Hendrix e Jim Morrison também viraram ícones dos anos 60, tanto quanto o símbolo da paz ou o rosto de Che Guevara. Sid Vicious é, até hoje, a imagem mais reconhecível da rebeldia punk. E basta um passeio por qualquer grande cidade para ver, a qualquer hora, jovens usando camisetas com o semblante triste de Kurt Cobain (foto).

Esses rostos passaram a representar mais que a simples paixão por uma banda ou artista: tornaram-se símbolos de um estado de espírito e de um jeito de ser. A iconografia, claro, reduz tudo a seu nível mais rasteiro – e um artista como Kurt Cobain, autor de dezenas de músicas, acabou reduzido a garoto-propaganda do suicídio e da alienação adolescente. John Lennon foi assassinado e virou “marca”, transformado, como Gandhi, em símbolo de paz e amor. Logo ele, que nunca escondeu ter sido um pai ausente e que tratou Paul McCartney como um cachorro sarnento depois do fim dos Beatles. O rock simplifica tudo.

Talvez seja essa a razão de seu sucesso. Como bem disse Gene Simmons, do Kiss: “Eu não sou Shakespeare. Mas ganhei muita grana e transei com mais de 4 mil mulheres. Tenho certeza de que Shakespeare trocaria de lugar comigo a qualquer hora”.

Quem duvida?

***

Tamára, pinçei partes do texto original de André Barcinski prá dizer que sou fã dos Beatles, dos Roliing Stones e até de algumas Antas Cantoras que, despudoradamente, despertam o gosto pela música por velhos, jovens e criancinhas que, no passado, viravam apreciados petiscos de comunistas famélicos.

E muito ‘Ding Dong, Ding Dong’ prá você!

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14 Comentários
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  1. Daytona

    22 de dezembro de 2013 9:31 pm

    Nassif, se você me permite

    Nassif, se você me permite fazer uma sugestão de tópico, houve grande repercussão o caso do tweet racista de Justine Sacco.

    http://www.quora.com/Justine-Sacco-Offensive-Tweet-Controversy-December-2013/What-should-Justine-Sacco-do-to-start-rebuilding-her-reputation-and-career

    A repercussão foi 100% negativa, ela perdeu seu emprego, foi fortemente condenada por todos.

    Seria interessante um tópico salientando a diferença na reação a demonstrações de racismo nos EUA e no Brasil, onde Gentili e similares fazem declarações ofensivas e racistas(o comentáriod e Gentili oferecendo bananas para o rapaz negro), recebem apoio e seus patrões não fazem absolutamente nada, talvez até os incentive a continuar fazendo isso.

    1. Ed Döer

      22 de dezembro de 2013 10:41 pm

      Eu tinha visto o caso “lá

      Eu tinha visto o caso “lá fora” mas demorei pra ligar com o nome….já ia soltar um “quem”…

      …por sinal, ela era uma diretora sênior da empresa quando postou isso aqui:

      “Going to Africa. Hope I don’t get AIDS. Just kidding. I’m white!”

      E realmente, a reação lá tende a ser diferente. Teve também o caso de um reality show chamado “Duck Dinasty” que estava gerando polêmica nos últimos dias:

      http://www.huffingtonpost.com/2013/12/18/duck-dynasty-phil-robertson-gay_n_4465564.html

      ‘Duck Dynasty’ Star Phil Robertson Makes Anti-Gay Remarks, Says Being Gay Is A Sin

  2. ed. não logado

    22 de dezembro de 2013 9:54 pm

    Orgulho negro com beneficio geral

    Além de outras, é notável a influência negra na música predominante dos últimos tempos (XX e XXI).

    Jazz, blues, rock..

    No Brasil, dentre outros, o óbvio samba e sua filha com o jazz, a nova bossa que, embora de composição mais branquela, não poderia por suas origens, deixar de ser bem mulata sapoti.

    Propaga-se que aqui hoje predomina o funk e o sertanejo (como diria Tacanhêde: “mas univesitááário”).

    Aquele ainda também bastante negro.,O último, mais uma mercadização da música original “do sertão” com o country americano, que tem origens mais branquelas dos colonos que a “customizaram” na terra de Marlboro.

    Sabs-se que Elvis (e outros pioneiros) chegou a ser excomungado e proibido em muitas paróquias, pelas origens negras e pela “dança sexual” do diabo (sim, o “balança e gira” era (tam) bem uma dança.

    Logo pra quem quiseram “soltar essa”: pra geração baby boomers!

    De minha parte, talvez pela contemporaneidade (virtual, certo?) sempre gostei mais deste rock original. Depois complicou e distorceu um tanto demais, me parece.

    Quando vi o título pensei que fosse algo específico a Little Richard. Mas aí percebi que não era  “O rei negro do rock”, hehe.

    Ótimo o trecho sobre a Klan, mostrando como se pode separar e juntar pessoas em trono de algo.

    Muitos algos!

    Boa!

     

    1. morallis

      22 de dezembro de 2013 11:45 pm

      Cai nessa tambem, pensei

      Cai nessa tambem, pensei tratar-se do Litlle Richards, esse sim o verdadeiro rei do rock

      sem desmerecer  o “the pelvis ” lá do inicio. É mais que  notório que  o rock n roll musicalmente

      é uma variação”jocosa e sensualizada  do  Rhythm and blues  em seu nascedouro ,  já era tocado

      bem antes da introduçaõ de “pitadas country ” seu  é dançar é filho direto do ” swing e do lindy hop.

    2. ed. não logado

      22 de dezembro de 2013 11:56 pm

      Falando de rei em torno de tronos

      “em trono de algo”, evidentemente devia ser “em torno de algo”.

      Não cometeria tal desrespeito a um rei.

  3. Tamára Baranov

    22 de dezembro de 2013 10:01 pm

    Champagne & Reefer

    Jns, eu nunca gostei dos bitôus, apenas por George Harrison, eu nutria uma particular simpatia. Harrison foi para mim o maior dos Beatles, o mais discreto, sempre tímido, e mantendo-se em segundo plano o seu talento, infelizmente, acabou ofuscado pelo egocentrismo de John e Paul. Assim como eu sempre preferi os ‘Rolling Stones’ exatamente por eles respeitarem e reverenciarem os cantores negros de blues tanto que adotaram como nome da banda o título de uma das canções de Muddy Waters gravada em 1950 e foram uma das primeiras bandas de rock britânico dos anos 60, que se adaptou ao som de clássicos do blues cantado pelos negros norte-americanos, com versões originais que foram posteriormente reformuladas pela banda, como a ‘Love in Vain’ de Robert Johnson ou a ‘I’m a King Bee’ de Slim Harpo. Ou ‘Champagne & Reefer’ de Muddy Waters, brilhantemente acompanhada pelo bluseiro Buddy Guy no documentário ‘Shine a Light’ de Martin Scorsese. Aliás, Buddy Guy poderia fazer parte dos ‘Rollings Stones’ tal a fantástica sintonia. 

    Obrigada pelo ‘Ding, Dong’ e como estamos em vésperas de festejar um outro ano, ‘Champagne’ para você, e para nós todos. O ‘Reefer’ fica apenas na música. E como adoro blues e os Stones, alguns vidiozinhos no original e na versão dos Stones para alegrar um modorrento domingo. 

    [video:http://www.youtube.com/watch?v=oHowqKYSXNI align:center]

    [video:http://www.youtube.com/watch?v=p-aw6n6xznI align:center]

    [video:http://www.youtube.com/watch?v=-BkPm8JIJJQ align:center]

    [video:http://www.youtube.com/watch?v=ryRDcE2sB2A align:center]

    [video:http://www.youtube.com/watch?v=XWLvm11MAaM align:center]

    [video:http://www.youtube.com/watch?v=yDxE9SaqUtI align:center]

    1. morallis

      23 de dezembro de 2013 2:11 am

                                  

      [video:http://youtu.be/n3zmZO58U64%5D

                                                                                                                               [video:http://youtu.be/0VIrCCL0XqY%5D

       

       

       

      “Então qual é a  boa Paul? Alguma sacada?!

       

    2. hugo1

      23 de dezembro de 2013 7:25 am

      Tamara, o John era cheia de

      Tamara, o John era cheia de frases impctantes e muitas vezes tiradas de contexto, é só lembrar de “mais famosos que Jesus”.  Elvis era (é) o ícone gostemos ou nao, sendo justos ou não, com os precursores reais do rock. E é obvio que John conhecia e também gostava do som negro americanos. Aqui dois pequenos exemplos.

      Chuck Berry e Lennon com Memphis, Tenessee.

      http://www.youtube.com/watch?v=h9kgu71d81U

      Uma versão swingada de I Want You com Billy Preston

      http://www.youtube.com/watch?v=R6BxmfiDHOM

       

       

  4. Orlando

    22 de dezembro de 2013 11:26 pm

    O titulo Rei do rock negro

    O titulo Rei do rock negro remete a Tarzan rei das selvas. O título é infeliz e inadequado. Ao contrário não exisitiria Elvis sem a música negra. Elvis, quando adolescente, se escondia para ouvir música negra em bares e também para ver como os negros dançavam. A importância de Elvis foi mostrar, para menores,isto é brancos, a música negra. nesse sentido, Elvis tem um pouco de Al Johson, só não pintava a cara. Os veradeiros herois e criadores do rock foram e continuam sendo subestimados, mesmo que em função de caras como os Stones, Rolling Stones, dentre outros, esses roqueiros negros tenham tido, na década de 1960 e 1970, um tardio revival e reconhecimento.

  5. Marco St.

    22 de dezembro de 2013 11:33 pm

    Raízes

    Se formos buscar a origem de tudo acabaremos na África, mais precisamente em Mali.

    Lá foi o berço do blues, que cresceu e se tornou adulto no sul dos Estados Unidos.

    Se a Africa é a Mamma, Mali é o útero.

    .[video:http://www.youtube.com/watch?v=6sdM-36eRGQ%5D

     

    [video:http://www.youtube.com/watch?v=S6V3q-djJD8%5D

  6. Gilson AS

    23 de dezembro de 2013 12:49 am

    Para quem não sabe, elvis era

    Para quem não sabe, elvis era presbiteriano e frequentava regularmente a sua Igreja

    ele fez muito sucesso cantando hinos cristão, alguns muitos famosos

    Nos seus ultimos dias de vida ele estava frequentendo a sua Igreja em Memphis.

    1. autonomo

      23 de dezembro de 2013 11:15 am

      Sem desmerecer o talento de

      Sem desmerecer o talento de Elvis,ele foi bastante apoiado justamente para contrabalançar o sucesso da musica negra nos EUA.

      Não sou expert em Elvis, mas, pelo que li, tratava-se de um racista radical.

      Era famosa uma de suas afirmações racistas. 

      Dizia ele:

      “Prefiro beijar mil negras do que uma mexicana”.

      1. Daytona

        23 de dezembro de 2013 4:03 pm

        Elvis não era racista, muito

        Elvis não era racista, muito pelo contrário, era um cara que quebrava os paradigmas do racismo sulista:frequentava paruqes de diversão em dias reservados para negros, frequentava bares de negros, imitava os negros em seu jeito de vestir e cantar.

  7. morallis

    23 de dezembro de 2013 1:28 am

    Engraçado o texto, quase uma

    Engraçado o texto, quase uma colagem “paia”..mas enfim se for do Barcinski  tá perdoado

    a praia dele é outra,  é a das bandas  que de tão “undergrounds  nem foram formadas

    ainda e certamente todas elas serão a melhor banda de todos os tempos por algumas

    semanas e da-lhes Lúcio Ribeiro , Álvaro Pereira “globo-punk” jr…etc. Reparem no trecho:

    “Quando o futuro do rock parecia  NEGRO surgiram os Beatles.  pum! Engraçado!

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