Dinâmica de Sistemas, por Fernando Nogueira da Costa

Nesta hora de aflição social e econômica, fica evidente, até para quem antes sofria cegueira ideológica, a inaptidão das pessoas no Poder Executivo para enfrentar uma crise sistêmica.

Dinâmica de Sistemas

por Fernando Nogueira da Costa

O sistema capitalista é complexo, isto é, com múltiplos componentes, entre os quais os econômico-financeiros, interativos e dinâmicos. Varia ao longo do tempo e do espaço. Há variedades de capitalismo, desde aquele ocidental em busca de um livre-mercado idealizado abstratamente até o realismo pragmático do Capitalismo de Estado à chinesa.

Sua evolução leva a previsão futura ser extremamente dependente da trajetória passada. Demonstra uma não linearidade por não haver determinação exata no tempo das condições iniciais de um processo sempre em andamento.

O comportamento não linear evolui no tempo através de realimentações. É influenciado por realimentações, sejam positivas em círculos virtuosos, sejam negativas em círculos viciosos. Todas elas redundam em novas realimentações influentes no sistema complexo, regulando-o, ora construtivamente, ora destrutivamente.

No caso dos idealizados Sistemas Dinâmicos Lineares, esperam-se respostas ordenadas e “lisas”. Os eventos futuros ocorrem dentro de margens probabilísticas calculáveis.

No caso dos Sistemas Dinâmicos Não Lineares, as respostas podem ser consideradas também ordenadas, mas, dadas as rugosidades do mundo real, as resultantes futuras dos eventos não são lisas, ao contrário, são ásperas. Logo, os resultados são caóticos. O desafio é buscar um padrão reconhecível, por ele nunca ser estático, sempre dinâmico.

Um exemplo prático ilustrativo da dinâmica entre Sistemas Lineares e Não Lineares é saltar em uma piscina com água serena. As ondas geradas no mergulho se propagam até as margens, de forma ordenada e sequencial, refletem nas paredes da borda e retornam, cruzando-se entre si. Aí elas interagem e se realimentam, ora positivamente, ora negativamente.

Já distorcidas pelas realimentações, as ondas continuam seu trajeto em direção às margens opostas, sofrendo ainda mais interações ocasionadas pelos entrecruzamentos. Estes geram mais realimentações. Começam a ocorrer alguns movimentos aparentemente caóticos por se afastarem das condições iniciais. Porém, o padrão das ondas é previsível, mesmo sendo mais difícil o reconhecimento desse padrão não estático. Ele é a resultante de inserções aleatórias nos movimentos da água redundantes em um Sistema Dinâmico Não Linear.

Os Sistemas Lineares têm um único ponto de equilíbrio. Um Sistema Não Linear pode transitar, temporariamente, por pontos de equilíbrio na interseção entre decisões satisfatórios para os agentes envolvidos nas transações. Não são permanentes.

Dinâmica de Sistemas é uma abordagem para entender o comportamento de sistemas complexos no tempo. Adota uma metodologia e técnica de simulação computacional para esquematizar, entender e discutir problemas e assuntos complexos.  Lida com ciclos de retroalimentação interna e atrasos. Ambos afetam o comportamento do sistema como um todo.

O que faz o uso da dinâmica de sistemas diferente de outras abordagens para o estudo de Sistemas Complexos é a utilização das ideias de ciclo de retroalimentação (loop of feedback), estoque e fluxos (stocks and flows). Esses conceitos ajudam a descrever certo padrão mesmo quando nos encontramos em confusa não-linearidade (nonlinearity).

A base do método para o entendimento do comportamento de Sistemas Complexos é o reconhecimento de a estrutura de qualquer sistema — a maioria é circular, fechado e passível de atrasos nos relacionamentos entre seus componentes — é, com frequência, tão importante na determinação de seu comportamento quanto os próprios componentes individuais. Existe, frequentemente, emergências de propriedades do todo não encontradas entre as propriedades dos elementos. Nesses casos, o comportamento do todo não pode ser explicado pelos comportamentos das partes.

Exemplos são Dinâmicas Sociais percebida pela Teoria do Caos. O estudo de Dinâmica de Sistemas atualmente é útil para análise das políticas públicas necessárias para o combate ao coronavírus.

Uma imagem gráfica simples e de fácil compreensão o ilustra. Dá sentido à expressão mais importante para enfrentá-lo: “achatar a curva”. Abaixo está a tradução da versão de Bergstrom e da designer Esther Kim, publicada pelo G1 em 12/03/2020.

O erro mais frequente cometido por presidentes irresponsáveis a desdenhar a pandemia é chamar a atenção para a proporção aparentemente baixa de mortos (entre 0,5% e 3,5% do infectados), para a alta quantidade de casos leves (mais de 80%) e para a gravidade reduzida, a não ser em grupos de risco específicos como idosos, diabéticos e doentes do coração. O crucial não é a gravidade da doença em si, mas a capacidade de dar atenção a todos os infectados no momento quando eles precisam.

Quanto mais as infecções são adiadas, mais se “achata a curva de contágio” ao longo do tempo. Daí a menor a pressão sobre o sistema de saúde. Aumenta a probabilidade de ele dar conta da epidemia em seu pico. Quando o vírus se espalha rápido, não há leitos, médicos, enfermeiros, remédios e equipamentos suficientes. Quando todos doentes precisam ser atendidos ao mesmo tempo, as mortes disparam.

Testes e isolamento são os requisitos. Logo quando um paciente com o vírus é descoberto, deve ficar confinado imediatamente. Evitar a transmissão em aglomerações é essencial para “achatar a curva” e evitar a pressão sobre o sistema hospitalar.

A Dinâmica de Sistemas é baseada em uma estrutura direta de fluxos e estoques, projetada para modelar sistemas com numerosas variáveis, e com realimentações atrasadas entre as variáveis. Essa abordagem progride através de vários passos:

  1. Identificar o problema.
  2. Isolar os fatores a interagir e analisar os sintomas observados.
  3. Identificar a causa e providenciar a realimentação da informação de maneira a permitir uma tomada de decisão quanto a novas ações.
  4. Formular políticas de decisão formais socialmente aceitáveis, onde decisões resultam dos fluxos de informações disponíveis.
  5. Construir um modelo das políticas de decisão, fontes de informação, e interações dos componentes do sistema.
  6. Gerar o comportamento do sistema através do tempo como descrito no modelo.
  7. Comparar os resultados com o conhecimento disponível sobre o sistema atual.
  8. Revisar o modelo até ser aceitável como uma representação do sistema atual.
  9. Redesenhar, dentro do modelo, os relacionamentos organizacionais e políticas possíveis de ser modificadas no sistema atual para achar as mudanças capazes de melhorarem o comportamento do sistema.
  10. Alterar o sistema real nas direções apontadas pelo experimento modelado para levar à melhoria de desempenho.

A Dinâmica de Sistemas é uma ferramenta para análise da interdependência das variáveis de um fenômeno, sendo utilizada em estudos de impactos, entre outros, na cadeia de suprimentos. O “Efeito Chicotada” é definido como sendo a distorção da percepção da procura ao longo da cadeia de abastecimento na qual os pedidos para o fornecedor têm variância diferente da variância das vendas para o comprador. A variação da procura aumenta à medida que se avança ao longo da cadeia.

Uma pequena variação nos pedidos, no nível dos consumidores, por esse efeito provoca uma amplificação da variação ao longo da cadeia comercial e produtiva. Impacta todos seus intervenientes, tais como os comerciantes atacadistas e os fabricantes. Esgota estoques em curto prazo e superestima suas necessidades em longo prazo.

Comumente, falar em estoque ou estocagem se refere à guarda permanente ou temporária de matérias-primas e produtos semiacabados ou até mesmo mercadorias prontas para o consumo. O estoque geralmente está presente em diversas atividades, desde indústrias até lojas de varejo. Com choque súbito de demanda, ele se esvazia.

A estocagem é apenas uma das atividades da armazenagem. Além dela, esta engloba também os processos logísticos ligados à distribuição de mercadorias, ao fluxo de produtos, equipamentos e tecnologias utilizados, embalagem, retirada de itens, expedição de produtos, etc. Podem ser desarranjadas todas essas operações necessárias para manter um estoque, deslocar mercadorias e suprir lojas, fábricas e clientes.

O covid-19 é um choque econômico a abalar tanto a oferta — por meio de fechamentos de fábricas, ruptura das cadeias de suprimentos e restrições de viagens — quanto a demanda. Os consumidores confinados saem menos e gastam menos. Com o avanço da epidemia, surge uma crise de caixa, tanto para empresas com queda da receita, quanto para consumidores, especialmente, trabalhadores por conta própria, com perda de suas fontes de renda em vendas ou prestação de serviços.

Os fluxos de saídas nas contas a pagar, compromissos contratuais certos sob ameaça de falência caso ocorra inadimplências, superam os fluxos de entradas nas contas a receber com a queda das vendas. Tornam-se insuficientes para realimentar a disponibilidade de caixa necessária para saldar os compromissos.

Nesta hora de aflição social e econômica, fica evidente, até para quem antes sofria cegueira ideológica, a inaptidão das pessoas no Poder Executivo para enfrentar uma crise sistêmica. O menosprezo pelo problema, demonstrado pelo capitão, só foi abandonado quando ele sentiu sua ameaça. A omissão do ex-banqueiro de negócios, obsessivo com as reformas neoliberais favoráveis aos seus sócios, levou-o a apenas chantagear mais o Congresso Nacional para suas aprovações à toque de caixa. E a irresponsabilidade no desmanche dos bancos públicos tornou-se ainda mais clara agora quando eles são tão necessários para oferecer capital de giro para a dinâmica do sistema econômico não entrar em entropia. Quanto maior é a desordem de um sistema, maior será a sua entropia.

Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Ciclo: Intervalo entre Duas Crises” (2019; download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected]

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