Guerra civil no Bolsonaristão?

Por João Almeida Moreira

No Diário de Notícias

Na edição de 8 de março, um cientista político defendeu no DN a ideia de que Bolsonaro preparava “uma guerra civil” contra os governadores estaduais por causa das medidas destes, de restrição à circulação de pessoas, no combate à pior fase da pandemia no Brasil.

Argumentava o académico que o presidente vinha, entre outros sinais preocupantes, como o armamento da população e o incentivo a milícias, estimulando a indisciplina dos escalões mais baixos da Polícia Militar.

No mesmo texto, era citada a carta enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF) por Raul Jungmann, ministro da Segurança Pública e Defesa de Temer, a alertar que “a política armamentista de Bolsonaro” poderia levar o país “a repetir cenas como a da invasão do Capitólio” e “a uma guerra civil”.

Leitores, portugueses e brasileiros, acharam a peça “histérica”. “Guerra civil? Mas o Brasil é alguma antiga república soviética? Há ameaça do Estado Islâmico?”, ironizava um deles.

Vamos agora fazer uma revista aos acontecimentos dos últimos dias. No domingo, dia 21, Bolsonaro festejou o aniversário com um discurso a apoiantes onde acusava “alguns tiranetes”, referindo-se aos governadores, de tolher “a liberdade de muitos de vocês”. “Podem ter a certeza que o meu exército é o verde oliva e o de vocês também, contem com as Forças Armadas (…) Eles estão esticando a corda, faço qualquer coisa pelo meu povo”.

O polícia Wesley Góes passou o domingo, dia 28, a disparar para o ar numa área turística de Salvador. Chamado para acalmar o surto do colega, o Batalhão de Operações Especiais (BOPE) foi recebido por uma rajada de tiros. Na resposta, lamentavelmente, matou-o.

Noutra zona de tiro, o Twitter, a bolsonarista radical Bia Kicis inventou imediatamente que Góes, “um herói”, fora morto por se recusar a cumprir o confinamento decretado pelo governador da Bahia; o comando do BOPE e, mais importante, as imagens desmentiram-na; a deputada até retirou o tweet mas, no entretanto, já companheiros de Góes ameaçavam o governador com um motim, aquilo a que o cientista político na peça do DN aludia.

No dia seguinte, 29, Bolsonaro demitiu o ministro da defesa Azevedo e Silva, por, diz-se nos bastidores do Planalto e dos quartéis, o general não ter apoiado a decisão de decretar Estado de Sítio. O presidente queria os poderes totais que o estado de exceção lhe atribuiria para retaliar as restrições dos governadores.

Na última terça-feira, 30, os comandantes dos três ramos das Forças Armadas demitiram-se em solidariedade com o ministro pela manhã. À noite, um deputado lambe botas de Bolsonaro tentou fazer passar um decreto no parlamento a alterar a Lei de Mobilização Nacional que permitiria ao presidente dispor de militares e civis, como se o país estivesse em guerra.

No ano passado, o fiel bolsonarista general Augusto Heleno falara em “consequências imprevisíveis”, caso o telemóvel de Bolsonaro fosse confiscado para apurar as acusações de Sergio Moro de que o presidente aparelhara a polícia para salvar os filhos.

Por essa altura, Bolsonaro participava em manifestações a pedir o fecho do Congresso e do STF.

Bolsonaro, aliás, construiu a sua grotesca carreira política a dizer que fuzilaria Fernando Henrique Cardoso e a lamentar que a ditadura militar tenha matado pouco.

Guerra civil? No Brasil? Soa histérico, sim senhor. Mas se chamarmos o Brasil por aquilo que se tornou desde 2018, República Evangélica do Bolsonaristão, não soa tanto assim.

Jornalista. Correspondente em São Paulo

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