Liberal na bonança, keynesiano na crise. Ou “Lessefé, mas só quando a gente qué”, por Anjuli Tostes

Diferentemente do que tem sido pregado, a economia não é algo separado da escolha das pessoas, como a física ou a química. Ela é uma construção social, produto das nossas escolhas.

Liberal na bonança, keynesiano na crise. Ou “Lessefé, mas só quando a gente qué”

por Anjuli Tostes

“Não existe almoço grátis” é uma expressão de origem incerta, mas que os liberais adotaram. Utilizam-na para criticar políticas distributivas, e dizer que alguém está sempre pagando a conta. “O setor produtivo”, que para eles é representado pelos empresários, não pelos trabalhadores.

Eis que, diante da crise do Coronavírus, que já teve imenso impacto nas bolsas e nos bolsos de megaempresários, nos deparamos com uma conversão repentina, como a de Abílio Diniz.

“É preciso gastar dinheiro. Dinheiro mesmo. Muito dinheiro. Conversei hoje com Guedes. Ele está a par disso. Vai colocar mais de R$ 600 bilhões em circulação. Ele é liberal, mas em momentos de crise somos todos keynesianos“, afirmou Diniz, durante live da XP Investimentos realizada na noite da última quarta-feira (25/03).

O “milagre” pode ser tudo, menos surpreendente. É a mesma lógica adotada na crise de 2008, em que o governo americano promoveu um resgate trilionário de bancos, diante de uma crise por estes mesmos criada. E gerando um risco moral gigantesco: incentivos para que os mesmos erros voltem a ser cometidos impunemente.

Ser liberal nessas condições é maravilhoso. Quando há lucro, defendo que todo ele deve ser privado, pelo corte de tributos. Mas quando há prejuízo, nas crises, o governo tem que ajudar. E onde essa conta fecha? Apenas no fantástico mundo do neoliberalismo de ocasião, ou do “laissez-faire, mas só quando a gente quer”.

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O que o governo precisa fazer neste momento é transferir dinheiro diretamente para a base da pirâmide, de modo a garantir a renda e a capacidade de consumo da população. É essa base que tem o condão de aquecer a economia em um momentos de retraimento da demanda, como nas crises. Para quem virou keynesiano agora: na base, o efeito multiplicador é muito maior, porque essas pessoas consomem tudo o que recebem e fazem girar a economia.

E isso pode ser feito tanto por meio da garantia de uma renda básica, como a recentemente aprovada pela Câmara dos Deputados, quanto por meio da concessão de linhas de créditos a juro zero. Estas últimas podem ser estendidas até mesmo a micro, pequenos e médios empreendedores, desde que se comprometam a não demitir ninguém ou cortar salários.

O economista Eduardo Moreira tem uma proposta bastante interessante, que consiste na emissão de um cartão de crédito pela Caixa Econômica, com o valor da renda básica emergencial liberado às famílias. Este cartão apenas poderia ser utilizado para adquirir produtos das empresas que assumissem o compromisso de garantir o emprego e a renda aos seus trabalhadores no período da crise.

São várias as possibilidades. O que não pode acontecer é se utilizar os recursos que o Estado dispõe – e que seriam muito maiores, se grandes fortunas, lucros e dividendos e grandes heranças houvessem sido devidamente tributadas no passado – para entregar na mão de banqueiros e dos grandes conglomerados econômicos. Mas isso é justamente o que o governo está fazendo.

Há cerca de uma semana, o Banco Central anunciou que comprará títulos soberanos brasileiros, de posse das instituições financeiras, com 10% de desconto, para “garantir o bom funcionamento dos mercados”. Esse estoque de títulos corresponde a 31 bilhões de dólares (161 bilhões de reais).

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Os bancos são os que mais lucram, mesmo nas crises. O que eles fizeram com os bilhões que receberam em cima dos juros cobrados do cidadão comum?

Não há tampouco garantia de que recursos transferidos a empresas serão utilizados em benefício dos trabalhadores. Joseph Stiglitz, nobel de Economia, critica a estratégia do “trickle-down”, ou “gotejamento”. Ele demonstra empiricamente que esses recursos, quando repassados a grandes conglomerados econômicos, são quase sempre distribuídos na forma de bônus a sócios e CEOs.

Muito mais efetivo, portanto, é transferir esses recursos diretamente às mãos dos empregados que sofrerem os efeitos desta crise, e permitir que estes continuem comprando, o que também ajudará o empresário.

Aos liberais que recentemente se converteram em keynesianos – mas apenas o keynesianismo da crise, o keynesianismo oportuno, especial para os nossos amigos -, um recado: a máxima “não existe almoço grátis” é verdadeira, sempre foi. Alguém irá pagar a conta. Neste caso, seremos todos nós que pagaremos pelos delírios de quase 50 anos de neoliberalismo.

2.153 bilionários possuem mais riqueza do que 60% do planeta. Eles não reunidos neste momento planejando como nos ajudar com esta crise. A “mão invisível” não virá socorrer ninguém. Seguremos nas mãos uns dos outros, que é o que dá pra fazer agora, muito precariamente.

Diferentemente do que tem sido pregado, a economia não é algo separado da escolha das pessoas, como a física ou a química. Ela é uma construção social, produto das nossas escolhas. E é graças às regras do jogo até hoje vigentes que o trabalhador está diante de uma escolha que jamais deveria ter que fazer: perder o emprego ou arriscar a vida.

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O papel principal do governo é proteger as pessoas em momentos como esses, para que não aconteça um genocídio. Quando tudo isso terminar, teremos uma outra economia, muito debilitada, mas quem sabe também outras concepções de Estado e outras regras do jogo. A humanidade precisará aprender a ser mais solidária. O mundo após esta crise pode ser melhor ou pior, mas jamais será o mesmo.

Anjuli Tostes – doutoranda em Direito e Economia na Universidade de Lisboa (Portugal)

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2 comentários

  1. O problema dos keynesianos, apesar de sua boa intenção, é acreditar que “a economia não é algo separado da escolha das pessoas, como a física ou a química”.
    No capitalismo (e só no capitalismo) a economia passou a se comportar, de fato, como uma segunda natureza, diante da qual temos muito pouco controle sobre as leis (naturalizadas) do capital. Temos muito pouco controle sobre sobre o sistema e sua lógica, onde as pessoas e a natureza são apenas instrumentos para a valorização do capital.
    Neste aspecto, os economistas ortodoxos/neoliberais/”de mercado” têm toda razão: a economia ou o mercado (Marx diria o capital) “age” de acordo com suas leis às quais devemos nos adaptar, afinal estamos submetidos a elas como às leis da gravidade. E têm razão, pois nosso sistema social é regulado pelo capital/dinheiro: até para fazer caridade precisamos dele.
    Diante do capital naturalizado e independente de nós, o que podemos fazer são apenas mitigações provisórias e insuficientes, que é o que os keynesianos, afinal, conseguem. Mas a independência do capital em relação à nossa vontade não é uma lei da física e sim uma lei socialmente construída e, portanto, podemos sair dela: não tentanto adestrar o capital como querem os keynesianos, mas abolindo-o, crindo outros princípios de síntese social que não sej o capital/dinheiro.

  2. De acordo com Anjuli Tostes, a economia não é algo separado da escolha das pessoas, como a física ou a química. Ela é uma construção social, produto das nossas escolhas.

    Sismondi, economista liberal suíço, nascido em 1773 e morto em 1842, tinha opinião contrária. Segundo ele, o patrão que compra o trabalho do operário a um preço tão baixo que mal chega para as necessidades mais prementes, não é o responsável nem pela insuficiência dos salário, nem pela extrema longa duração da jornada de trabalho: ele submete a si mesmo à lei que impõe ao operário… Não é tanto dos homens que procede a miséria, mas dá potência das coisas.

    Obs.: Na verdade, o patrão não compra o trabalho do operário, ele compra a força de trabalho do operário. Se o patrão comprasse o trabalho do operário, ele não obteria lucro. O lucro é trabalho não pago.

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