Militares no governo – o caso da Venezuela, por Andre Motta Araujo

A incorporação de militares no Governo, como anel de proteção, é uma questão de PROCESSO e não de ideologia. Nada tem a ver com ideologia, é um método de governo, conhecido desde os tempos do Império Romano.

Militares no governo – o caso da Venezuela

por Andre Motta Araujo

No início de 2003 estive em Caracas para um encontro com a direção da PETROLEOS DE VENEZUELA S.A., a mítica PDVSA, a pedido de um cliente. Meu anfitrião foi José Rojas, então Vice Presidente Executivo da empresa, que era maior que a PETROBRAS em faturamento, não só pelas três grandes estruturas herdadas da EXXON, SHELL e TEXACO, a nacionalização dessas multinacionais petroleiras se deu muito antes de Chavez, nos anos 80 mas também pela vasta estrutura de refinarias e postos de combustíveis da CITGO no Texas, 8 refinarias e 14.000 postos de combustíveis, a PDVA exportava 1,3 milhão de barris/dia para o Texas, lá refinava  e distribuía em seus postos.

Posteriormente também acompanhei a compra da ELECTRICIDAD DE CARACAS pela PDVSA, a primeira grande nacionalização do governo Chavez que pagou sem discutir o preço da EDC pelo que valia na Bolsa de Nova York, usando o caixa da PDVSA, que era maior que o caixa da Tesouraria da República. José Rojas depois se desentendeu com o presidente da PDVSA, o mítico revolucionário Ali Rodriguez, por motivos onde Rojas tinha total razão, mas Chavez não podia confrontar com Rodriguez, uma espécie de pai ideológico de Chavez.

Rojas continuou respeitado e admirado por Chavez, que o enviou a Washington como diretor executivo do Fundo Monetário Internacional representando a Venezuela e mais 10 paises.

Estive com ele em Washington algumas vezes no restaurante Citronelle, onde a PDVSA tinha uma mesa cativa, Rojas era formado pelo prestigiado Instituto Francês do Petróleo, um homem brilhante, depois foi candidato à presidência do BID, seria um dos homens talhados para uma nova Venezuela, sua esposa costarriquenha juíza, gente de escol.

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Nessa época não havia nenhum militar na PDVSA, nem no Conselho de Diretores. Quando Chavez começou a perder prestígio político por causa das más condições da economia começou o processo de cooptação dos militares para garantir o regime. No início dois generais foram para o Conselho da PDVSA, foi só o começo. Hoje o que restou da PDVSA, uma ruína completa, está inteiramente na mão de militares. A cooptação não foi homogênea, no golpe fracassado contra Chavez em 2002, quem o recolocou no poder foi o General Raul Baduel, que depois foi Comandante do Exército de 2004 a 2007 e, em seguida, Ministro da Defesa. Mas em 2008 Baduel rompeu com Chavez, foi preso e se encontra preso até hoje em Fuerte Tuna. Baduel rompeu com Chavez porque viu a escalada autoritária que colocaria fim à democracia na Venezuela, que foi o que aconteceu.

Hoje, o aparelho do Estado na Venezuela está inteiramente dirigido por militares, especialmente do Exército. O sucessor de Chavez aliciou o Exército com nomeações que contemplaram os mais de 500 generais e suas famílias, os quais todavia veem seu poder  erodir pela existência de milícias cada vez mais armadas, que são as que enfrentam as manifestações de rua anti-maduristas, fazem as distribuições de alimentos e se tornaram um novo Estado dentro do Estado.

No processo de cooptação das Forças Armadas dois valores foram destruídos na Venezuela, a República, o País está em ruínas, e as próprias Forças Armadas como instituição.

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A incorporação de militares no Governo, como anel de proteção, é uma questão de PROCESSO e não de ideologia. Nada tem a ver com ideologia, é um método de governo, conhecido desde os tempos do Império Romano, quando em certo período a Guarda Pretoriana dominava o trono, aliás chegou a leiloá-lo.

Os quatro maiores regimes autoritários do Século XX, dois comunistas, Stalin na URSS e Mao na República Popular da China e os dois regimes fascistas, Mussolini na Itália e Hitler na Alemanha, NÃO usaram militares no Governo, ao contrário, seu domínio sobre a máquina militar era completo. No caso alemão, já fiz aqui vários artigos.

Um dos maiores Comandantes militares alemães da Segunda Guerra, o Marechal Erich von Manstein, não se envolveu com o nazismo, sobreviveu à Guerra e foi o fundador do Exército da Alemanha Federal, o Bundeswehr. Até sua morte, em 1973, era uma das personalidades mais respeitadas da Alemanha.

Outro General da 2ª Guerra, Hans Speidel, que foi Comandante militar de Paris sob Hitler, dez anos depois era o Comandante das Forças Terrestres da OTAN. Só foi possível porque eram OFICIAIS PROFISSIONAIS e não se envolveram com política mesmo sob o nazismo, raros generais alemães eram filiados ao Partido Nazista.

Dentro dos registros históricos vê-se que essa questão é delicadíssima e comporta análise substantiva, não é uma questão de “mais ou menos”.

O GOVERNO MILITAR DE 64 TINHA ESTRUTURA CIVIL

O Governo Militar instaurado em 31 de março de 1964 teve Generais Presidentes alternados, não se criou o domínio de um homem ou família e seus grandes formuladores e operadores eram todos civis de alta qualidade. Roberto Campos, Delfim Neto, João Paulo Reis Velloso, Mario Henrique Simonsen, Mario Thibau, Camilo Penna, Octavio Marcondes Ferraz, Azeredo da Silveira, Mario Gibson Barbosa, Petrônio Portella, Magalhaes Pinto. Alysson Paulinelli, Murillo Macedo, Saraiva Guerreiro, Esther Figueiredo Ferraz.

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Os militares reservam para si as áreas de defesa e segurança, as demais eram civis, era um Governo de DNA militar, mas funcionava como civil.

A passagem para a redemocratização, em 1985, não causou um desmonte da máquina administrativa porque ela foi mantida civil antes, durante e depois de 1964.

O aparelhamento militar no atual Governo é infinitamente maior do que no período 1964-1985, na forma e número de cargos, ocupados sem lógica de pertinência e eficiência.

A natureza do governo, mais e mais, vai sendo militar, não adianta dizer que a instituição militar não está envolvida, é evidente que está pela presença de generais da ativa, e na ativa, em cargos palacianos. A simbiose passa a ser total e os ganhos e custos vão ser jogados na conta das Forças Armadas, é verdade que mais para o Exército. É um alto risco.

Manstein, marechal alemão, uma aula de sobrevivência, por André Motta Araújo

 

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8 comentários

  1. O André Motta não diz uma palavra sobre a contra-revolução apoiada e bancada pela CIA corte-americana, nem sobre o bloqueio econômico criminoso promovido pelos EUA contra a Venezuela e – historicamente – contra todos os países que buscaram outros caminhos de desenvolvimento econômico e social que não o do capitalismo gângster.

    • O governo Chavez desperdiçou 2 trilhões de dolares de receita de petroleo dessde 1998, não há como defender, a essencia desse governo sempre foi a minumental incompetencia e falta de racionalidade,
      ESTATIZARAM 2.000 empresas, sem nenhum criterio logico, uma delas de amigos, a Agro Islena, uma cadeia de lojas de jardinagem, não tem nada a ver com CIA, os americanos são incompetentes onde se meteram
      noexterior mas se houvesse REALMENTE uma intenção de derrubar esse regime teriam feito há muito tempo, entre 1999 e 2010 bastava bloquear a importação de petroleo, o oleo venezuelano só podia
      ser refeinado no Texas , a partir de 2011 a China fez refinarias para esse oleo pesado.
      A PDVSA foi destruida, as tres refinarias viraram sucata, isso não é obra da CIA.
      A mega reserva do Orinoco, a maior do mundo, tem como concessinaria a CHEVRON, hoje uma das maiores empresas da Venezuela, as ligações com os EUA sempre foram maiores que a retorica.
      O embargo é recente, até 2015 os EUA eram o maior parceiro comercial da Venezuela. É impossivel a alguem racional defender esse regime, nem Stalin defenderia

    • Eu acho que não era o objetivo da postagem. O que essa informação, sabida por todos, AA incluso. alteraria os fatos mencionados? Aí vai querer que retorne a nacionalização e por aí vai.

    • Esqueceu que o desmonte da economia na Venezuela é bem anterior às sanções americanas, que aliás são bem mais brandas que o antigo bloqueio contra Cuba. Os EUA permanecem como o principal parceiro econômico da Venezuela. De resto, há apenas diatribe verbal de Trump. No mundo pós-guerra fria, o regime venezuelano não representa nenhum risco à economia ou à segurança dos EUA. A importância da América Latina no contexto atual é nula. Importante é o sudeste asiático e o oriente médio. Mas a cabeça de vocês continua presa aos anos 60 da guerra fria.

  2. Grande AA!! Notadamente a presença de tantos milicos no governo Bolsonaro serve de bóia de salvamento. Ele sabe muito bem que enquanto tiver o apoio desta instituição, que não é poder mas detem o poder, poderá auxiliá-lo em caso de tentativa de tirá-lo da cadeira. Os milicos gostam do poder. O onus deste (des)governo será dividido com eles. Por isso mesmo entendo que caso Congresso e Judiciário consigam afastar Bolsonaro, aí sim vão sentir como pintos no lixo!!
    Um presidente militar comandando um mundo de militares (ativos e de pijama)

  3. André, gosto muito de seus comentários, mas, se me permite o termo, você está babando muito ovo para cima das elites. Hoje você cita que a juiza esposa do Rojas era parte do escol (de qual sociedade?). Como em comentário te criticaram outro dia, essas elites, o escol, não se movimentaram muito para acabar com a miséria ou desigualdade na AL.

  4. Boa análise. Os regimes nazi-fascistas da primeira metade do século 20, notoriamente militaristas e belicistas, elevaram a função militar à importância máxima que poderia ter no país, inclusive subordinando a economia e a educação da juventude ao preparo para a guerra. Mas sequer passava pela cabeça de Hitler e Mussolini que generais deveriam participar do governo. As funções civis continuaram a ser desempenhadas por civis. Ambos ditadores estavam cientes de que, uma vez que a função das forças armadas era combater o inimigo externo, longe de imiscuir-se na política, deveriam, isso sim, ser disciplinadas com energia. Tampouco houve participação de militares no regime soviético. Stalin comandou o exército vermelho impondo o terror. Somente no Japão imperial houve protagonismo de militares na cena política, provavelmente uma herança longínqua do antigo xogunato.

    No Brasil, na realidade, a presença de militares em cargos civis começou no governo de Kubitschek, que colocou vários coronéis em cargos executivos em empresas estatais. O objetivo era o mesmo: comprar apoio para o governo. Mas no auge do regime de 1964, a economia foi comandada, em sua maioria, por tecnocratas civis.

    • Agradeço o comentario. Nos anos 90 o Comandante do Exercito dos EUA esteve no Brasil e queria visitar o
      Comandante do Exercito Brasileiro, Gal.Gleuber Vieira, naquela epoca eu representava no Btasil o Instituto Republicano, braço internacional do Partido Republicano e estive com o americano. O Gal.Gleuber era um top
      oficial, o americano estava impressionado com o nivel dele e me disse que no Pentagono a avaliação do
      Exercito Brasileiro era o de ser o mais profissional da America Latina, ao lado do chileno mas o Brasil superava
      pela amplidão geografica de presença no territorio e pela experiencia da 2ª Guerra. Fez comentarios bem menos lisonjeiros aos demais exercitos latino-americanos, ressalvando o da Colombia por uma situação especial de combate as FARC e aos carteis de droga.

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