No Paraná, o apagamento da Filosofia e Sociologia nas escolas, por Vinicius de Figueiredo

Filosofia e sociologia são disciplinas que integram a grade curricular do ensino médio por uma razão bem concreta. Elas lidam com a capacidade de apresentar razões para fundar nossos juízos.

No Paraná, o apagamento da Filosofia e Sociologia nas escolas

por Vinicius de Figueiredo

Pense rápido: a vacinação (quando, afinal, começar) deve ser feita unicamente pelo SUS ou quem puder pagar por ela deve ter o direito de vacinar-se num laboratório particular o quanto antes? Se você titubeou, acertou. Não é uma questão simples. Quem não hesitou e chutou convicto A ou B nunca teve aula de filosofia ou sociologia na vida.

Filosofia e sociologia são disciplinas que integram a grade curricular do ensino médio por uma razão bem concreta. Elas lidam com a capacidade de apresentar razões para fundar nossos juízos. Obrigam a examinar as questões de todos os lados. Assim, voltam-se diretamente para a interpretação da realidade que nos cerca. Como essa realidade é fruto de uma construção coletiva, também é indispensável familiarizar os estudantes com arte. Privar nossos jovens da prática reflexiva e expressiva, tão cara a essas disciplinas, é roubar-lhes a competência de participar da invenção de seu próprio futuro.

É o que está prestes a fazer o governo do Paraná. Conforme medida publicada 22 de dezembro (!), Ratinho Jr. determinou a redução pela metade das aulas de filosofia, sociologia e artes nas escolas públicas do ensino médio do estado. Sem consulta prévia a ninguém, sem debate com os professores e/ou coordenadores das escolas, etc. No lugar delas, entra “Educação Financeira”. Mas calcular juros e coisas não é matéria obrigatória da matemática? Pois é. A FGV/SP, onde se formou o atual secretário estadual da educação, sabe disso de cor e salteado.

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O presente de Natal de aproximadamente 4 mil professores que lecionam essas disciplinas na rede pública do Paraná é o seguinte. Se a medida não for revogada, terão de começar o ano fatiando mais e mais suas atividades didáticas, correndo de uma para outra escola para cobrir o piso de 30 horas/aula, o que lhes remunera o que ganha um professor em início de carreira no Estado. No médio prazo, vínculos serão extintos. Assim como terá sido em vão todo o investimento (é uma conta simples, Secretário) feito em sua formação e qualificação continuada. O prejuízo para a formação educacional será inestimável.

É normal que a educação seja objeto de revisões e que as grades curriculares sejam atualizadas de tempos em tempos. Mais que isso, é necessário. Mas delicado. A ideia de reduzir horas de escola voltadas para interpretar a realidade, compreender como participamos dela e exercitar meios de exprimir-se artisticamente para, em seu lugar, propor o que já faz parte da disciplina de matemática é simples contrasenso. Verdade que o panorama político brasileiro tem aprontado muitas dessas. Talvez seja mesmo hora de reconsiderar o que afinal entendemos por “normalidade”. Para fazê-lo direito, será preciso mais e não menos filosofia, sociologia e arte.

Vinicius de Figueiredo – Prof. Titular do Departamento de Filosofia da UFPR

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3 comentários

  1. Marchionne assumiu a direção da FIAT em condições falimentares tinha, no entanto um caminho para a recuperação baseado nas alianças, para ter corpo e competitividade. O seu objetivo continuou mesmo após sua morte. Da sua formação em direito administração necessária acrescentava que nos momentos de mais criticidade era na filosofia o caminho encontrado das soluções.
    O bicho com apelido nojento do Paraná, fiel do bozo e lá colocado pelo papai e estupidez conservadora deste infeliz sul, cumpre tabela ele é um zero total.

  2. A rede particular (vejo isso aqui no Rio) já tem aulas de “coaching”…

    Junta isso com bíblia, pronto, pra quê Sociologia e Filosofia? Pro “mercado”, a formação humanística que interessa tem que passar longe de conversas sobre desigualdade, por exemplo. Pouco importa que seja o fato social mais gritante da face do oeste, e que o mundo inteiro esteja preocupado, pra fascistada, isso é assunto de “sindicalista”, “esquerdopata”….

    Já era.

  3. A discussão é tremendamente mais ampla. Vai um pequeno caso verídico (em tempo, sou professor aposentado). Colega, professor de Química em universidade particular, curso de Ciências Biológicas, foi reclamar com aluna que ela realmente não sabia nada. Veio singela explicação: , estuando no interior, não havia professor de Química, foi designado um professor de Educação Física no lugar. Ele deu como tarefa aos alunos fazer uma horta e por ela seriam avaliados. Simples assim.
    vamos focar no problema, grande, já existente. Ah, e não se esqueça que no Brasil é turno de meio horário. Quantas disciplinas e qual conteúdo (isso o mínimo) pretende que tenham?

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