Brasil + Argentina = Prosperidade I, por Luiz Alberto Melchert

Durante a colônia, a Argentina, que fazia parte do vice reino do Prata, era administrada de uma forma muito mais homogênea que o Brasil

Brasil + Argentina = Prosperidade I

por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

As comparações entre Brasil e Argentina costumam ir do bizarro ao conflituoso, passando pelo apaixonado. Enquanto o Brasil se vê – cada vez menos – como o país do futuro, a Argentina se entende como herdeira de um passado – cada vez menos – glorioso. Provavelmente, a autoimagem dos dois países tenda a convergir na medida em que se passe do mito à realidade. O Brasil detém um mercado que se recusa a desenvolver. A Argentina crê que seu mercado possa abarcar uma indústria, cuja escala ali não se consegue obter. O sucesso de ambos reside na complementaridade.

Primeiro, é preciso entender a diversidade histórica. Durante a colônia, a Argentina, que fazia parte do vice reino do Prata, era administrada de uma forma muito mais homogênea que o Brasil, que, basicamente, era visto pela Metrópole de quatro formas, especialmente no século XVIII. O norte, indo do Piauí ao extremos do Amazonas, era conhecido como Grão Pará e administrado por companhia pombalina de mesmo nome. Do Ceará à Bahia, era a Companhia de Pernambuco, embora as províncias tivesse administração própria. O que hoje se conhece como Sul, incluindo São Paulo, era — por assim dizer — deixado à própria sorte. A região da Minas Gerais, incluindo Goiás e os atuais estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo, tinham tratamento diferente, devido ao ouro e ao Distrito Diamantino.

As coisas começaram a divergir como conceito de nacionalidade durante o processo de independência dos dois países. Enquanto o Brasil, a fim de manter o status de império, investiu na unidade territorial e administrativa. As guerras da Independência, que terminaram com a Cabanada em 1825 acabaram com qualquer tentativa regional de se manter parte de Portugal, ou mesmo constituir região autônoma. Por causa disso, três anos depois da proclamação, o brasil já tinha uma constituição. O legado desse processo foi a manutenção de um exército regular e uma marinha de guerra profissionalizada a partir da contratação de oficiais ingleses experientes. Isso deu ao Império do Brasil o status de potência regional, visto que era o único com unidade territorial e forças armadas capazes de, vitualmente, agir em todo país.

A Argentina, ao contrário, rechaçou o legado imperial, partindo para um federalismo próximo ao da aurora dos Estados Unidos como país. Eram treze províncias capitaneadas por Buenos Aires, visto que era dali que chegava e partiam os produtos destinados ao mercado exterior. Disso derivou que cada uma delas tinha suas próprias forças armadas, que podiam lutar ombro a ombro, ou mesmo, umas contra as outras. O fato é que os conflitos mantiveram-se até a derrota da batalha de Monte Caseros em 1852, de que o Brasil participou com dezessete mil homens por terra e vários navios, sob o comando do então conde de Caxias. Foi o fim do que, pelo lado do Brasil, chamou-se de “Questão do Prata”, que começara com o apoio de algumas províncias argentinas à independência do Uruguai vinte e seis anos antes. Derrotada saiu a Província de Buenos Aires. Foi isso que acendeu o espírito federalista e a necessidade de se constituir um país na acepção da palavra. O resultado foi a promulgação da Constituição Nacional Argentina em 1853, depois de trinta e sete anos de administração caótica, deixando o território, administrativamente, similar ao resto da américa Latina recém independente.

Os dois países tinham soluções ambíguas, quando não bizarras. Uma delas era a liberdade de culto, que ambas pregavam. No Brasil, Igreja católica e Estado confundiam-se. Na Argentina, eram independentes, mas o presidente tinha que ser católico, dispositivo que só foi revogado em 1994. Já a educação teve lugar na carta magna argentina e foi totalmente esquecida na brasileira. Enquanto os argentinos eram regidos pela máxima de que “governar é habitar”, privilegiando a imigração para ocupar o território, o Brasil via a imigração como substituição da mão de obra escrava.

No Brasil do Império, havia dois partidos, Liberal e Conservador. A Argentina, apesar de pretender ser uma república, tinha voto aberto e partido único, o PAN (Partido Autonomista Nacional), que durou até 1916, depois da reforma de Sains Peña. O Brasil passou a ser pluripartidário a partir de 1891, mas ambos eram regidos por flagrantes fraudes eleitorais, aqui o “voto de cabresto”; lá, o “voto Cantado”.

Em muitos aspectos, perante o Brasil, a Argentina é um país bastante conservador. Aqui, as mulheres puderam votar a partir de 1935; na Argentina, a partir de 1951, depois de uma campanha conduzida por Evita. O Brasil antecipou-se em dez anos na adoção do divórcio, entre outros avanços institucionais.

No próximo capítulo vamos analisar o ruralismo nos dois países.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

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