Chile de Boric pode ser exemplo de como enfrentar o problema de uma polícia ideologizada

Boric encara queda inusual nas pesquisas, fruto de uma relação ambígua com a polícia militar e de uma forte campanha contra a constituinte

Foto: Felipe Rojas / Agência Uno

A premissa de que os governos em seu primeiro ano de mandato gozam de um período de lua de mel com a população não parece estar se reproduzindo no Chile de Gabriel Boric, ao menos segundo a pesquisa Cadem, onde o mandatário aparece com um índice de aprovação de apenas 36%, enquanto sua desaprovação subiu a 53% no final de abril.

Este resultado é questionável, devido ao fato de que a consultora Cadem é muito ligada ao ex-presidente neoliberal Sebastián Piñera – amigo pessoal dos donos da empresa, Jorge Steiner e Roberto Izikson, a qual manteve um contrato milionário com seu governo, e que foi cancelado após a posse de Boric. Ainda assim, é fato que o governo do jovem presidente chileno vem sofrendo as consequências de uma forte campanha dos meios conservadores e liberais contra a Assembleia Constituinte, mas também com as críticas, inclusive de aliados tradicionais, especialmente por sua relação com os Carabineros, a polícia militarizada do país.

Durante o mês de abril, o país enfrentou dois tipos de manifestações nas ruas, promovidas por caminhoneiros, que reclamavam do forte aumento no preço dos combustíveis (entre outras demandas), e por estudantes secundaristas, que cobravam maior investimento para melhor a infraestrutura das escolas públicas (também entre outras demandas).

Tal situação gerou cenários negativos, especialmente para um governo de esquerda como o de Boric: enquanto os bloqueios de rodovias realizados pelos caminhoneiros no norte e no sul do Chile contavam com a paciência e até a camaradagem por parte dos Carabineros – há vídeos de policias conversando pacificamente com transportistas, ao lado das barricadas que deveriam ser coibidas por eles –, as marchas e ocupações de escolas organizadas pelos estudantes foram tratadas com repressão e violência por parte da mesma instituição.

Essa diferença de tratamento não só alimentou o debate antigo sobre a partidarização e ideologização da polícia militar chilena como também levantou críticas ao governo de Boric, que não estaria sabendo como lidar com esta situação. Sem contar o fato de que boa parte desses questionamentos vêm de setores aliados ao governo, como o Movimento Estudantil, do qual o presidente é oriundo, e o Partido Comunista, que conforma a aliança governista junto com a Frente Ampla e o Partido Ecologista Verde.

É importante destacar também que a extinção dos Carabineros e sua substituição por uma nova instituição policial não militarizada foi uma das principais demandas da Revolta Social Chilena de 2019, evento que levou à instalação da Assembleia Constituinte no ano seguinte e criou a maioria social que permitiu a vitória eleitoral de Boric em 2021. Esta reivindicação é promovida especialmente pelo Movimento Estudantil, devido aos frequentes abusos aos direitos humanos cometidos durante as marchas, e pelos coletivos feministas, que reclamam dos abusos sexuais que são comuns contra mulheres quando são detidas – em casos que incluem ameaças verbais, toques nos seios ou nas genitálias, nudez forçada e até estupros.

Neste domingo (1º/5), outro exemplo bastante violento – e com um possível desfecho mortal – aconteceu durante a tradicional marcha pelo Dia do Trabalhador, que reuniu muitas das organizações sociais que apoiam o governo de Gabriel Boric.

Quando a marcha organizada pelos movimentos sociais passou pelo setor de Estación Central, no centro de Santiago, um grupo de indivíduos armados – supostamente comerciantes da região, segundo a versão da polícia – começou a disparar tiros, que atingiram pessoas que estavam no bloco da marcha onde se encontravam os repórteres de meios alternativos de imprensa. Houve dezenas de pessoas feridas e uma delas com gravidade: a jornalista Francisca Sandoval, do canal de tevê comunitário Señal 3 La Victoria, que foi internada após ser atingida no peito e seu quadro de saúde é de extrema gravidade e risco de vida. O caso se tornou ainda mais polêmico na noite do mesmo domingo, quando surgiram imagens onde se vê algumas das pessoas armadas se aproximando do local onde estava o batalhão de choque dos Carabineros, conversando com eles e até sendo protegidos, se escondendo atrás do batalhão quando os manifestantes reagiram após os disparos, segundo reporta o meio digital La Voz de los que Sobran.

Sobre a polêmica jornada de domingo, deve-se acrescentar que ela aconteceu dois dias depois de uma reunião entre o governo de Boric e os altos comandantes dos Carabineros e da PDI (Polícia de Investigações, a polícia civil chilena), a qual foi encabeçada pela ministra do Interior e Segurança Pública, Izkia Siches.

Nesta terça-feira (3/5), dois líderes importantes do Partido Comunista – Carmen Hertz, deputada e advogada de causas de direitos humanos reconhecida mundialmente, e Daniel Jadue, prefeito do município de Recoleta e adversário de Boric nas prévias da coalizão Apruebo Dignidad, no ano passado – apresentaram um documento formal pedindo a renúncia do diretor-geral dos Carabineros, general Ricardo Yañez, também segundo o meio digital La Voz de los que Sobran.

“Surgem novas imagens daqueles que atiraram nos manifestantes. Qual é o verdadeiro papel dos Carabineros diante destes delitos?”, perguntou Jadue, através de sua conta de Twitter.

Até o momento, o governo de Gabriel Boric tem evitado maiores conflitos com as instituições policiais. No caso do tiroteio após a marcha do Dia do Trabalhador, o Palácio de La Moneda exigiu que a polícia militarizada entregasse as informações sobre os operativos realizados durante a manifestação, incluindo tanto o trabalho das tropas de choque quanto a de possíveis policiais infiltrados e a paisana, mas não cedeu aos pedidos de partidos e movimentos aliados para demitir o comandante dos Carabineros.

No caso das posturas contraditórias com relação aos protestos de caminhoneiros e estudantes, a reação do governo foi tardia: apenas depois de duas semanas, e devido a muitas queixas dos movimentos sociais, o governo instalou uma ação contra os caminhoneiros invocando a Lei de Segurança do Estado, instrumento que até o ano passado só era utilizado contra protestos de estudantes e outros movimentos sociais.

As dificuldades do governo de Gabriel Boric sobre como lidar com uma polícia ideologizada pode ser um exemplo de como o Brasil pode ter que lidar com esse problema no futuro. Em recente entrevista, o ex-presidente e atual candidato presidencial Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) disse que, caso vença as eleições, seu eventual governo teria que lidar com mais de 80 mil militares que fazem parte do aparato do Estado, instalados pelo atual presidente Jair Bolsonaro – entre os quais estão não somente membros das Forças Armadas como também oficiais das Polícias Militares de diferentes estados.

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1 Comentário

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Paulo Dantas

- 2022-05-03 21:09:11

A chamada da matéria dá a entender que Boric enfrentou a questão mas não ainda ...

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