Desbloqueados, por Atilio Boron

A chegada do navio petroleiro Fortune, proveniente do Irã, à grande refinaria El Palito na Venezuela tem um significado que excede em muito a quantidade de gasolina e de outros insumos importantes transportados naquele navio.

Desbloqueados

Do jornal Página 12

por Atilio Boron

Tradução de Roberto Bitencourt da Silva

A chegada do navio petroleiro Fortune, proveniente do Irã, à grande refinaria El Palito na Venezuela tem um significado que excede em muito a quantidade de gasolina e de outros insumos importantes transportados naquele navio. Existem outros aspectos que são muito mais importantes. Eu gostaria de apontar para três deles.

Primeiro, foi contestado com sucesso o bloqueio dos EUA, que impedia a chegada de todos os tipos de produtos – de alimentos e medicamentos, combustíveis a peças de reposição para os trens do metrô de Caracas – até a República Bolivariana da Venezuela bloqueada e atacada. Trata-se deu triunfo maiúsculo para o governo de Nicolás Maduro e de um revés retumbante para a Casa Branca. Especialmente quando você considera que os navios da Quarta Frota estão patrulhando a região do Grande Caribe há alguns meses e poderiam facilmente ter interceptado esse navio, o que eles não fizeram. Resta saber por que, mas o que de fato importa é que eles não o fizeram.

Segundo, que tenha sido a República Islâmica do Irã que conseguiu contornar a proibição de Washington. Um outro país também submetido a sanções cruéis pela Casa Branca, que no início deste ano sofreu com a ordem de assassinato do general Qasem Soleimani, uma das principais figuras da Governo iraniano. O crime que o sicariato midiático mundial, aquele que esconde todos os erros do governo dos Estados Unidos e que permanece calado diante do lento assassinato de Julian Assange em Londres, apenas registrou a ocorrência e sequer se preocupou em analisar e divulgar.

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Terceiro, resta ver o que acontecerá com os outros quatro navios-tanque que estão a caminho da Venezuela. É evidente que o governo Trump reverteu a sua posição inicial e as suas ameaças ficaram nisso, fanfarronices típicas de um personagem assemelhado a gângster, que acredita que é o próprio messias chamado a reconstruir a supremacia perdida, que os Estados Unidos sabiam ter desde a desintegração da União Soviética até os ataques de 11 de setembro de 2001. Um sociopata que causou cerca de cem mil mortes ao seu próprio povo, com a sua mistura de ignorância e arrogância revelada na pandemia da covid-19 e que em menos de seis meses irá se deparar com o jogo da reeleição, em meio a uma depressão econômica pior que a dos anos trinta.

Mas é óbvio que a história não acabou. Resta ver o que acontece com os outros quatro navios-tanque. Parece pouco provável que um Trump assediado por problemas domésticos muito sérios ordene prendê-los, atacá-los ou afundá-los, porque se configurariam em atos de guerra repletos de consequências imprevisíveis, que prejudicariam ainda mais suas chances de ser reeleito em 3 de novembro. As pesquisas eleitorais mais sérias dão a ele entre 5 e 6 pontos atrás de um candidato tão anódino quanto Joe Biden. Tudo indica que esse iintervalo vai aumentar à medida que a situação interna dos Estados Unidos continue se deteriorando.

Por outro lado, as ameaças de Trump foram fortemente respondidas por Teerã. O presidente Hassan Rohani advertiu Washington que seu país não ficaria indiferente a qualquer “problema” que surgisse na viagem à Venezuela. Em uma declaração extraordinariamente forte e não usual, Hassan disse que “se os estadunidenses criarem problemas para os nossos navios-tanque nas águas do Caribe ou em qualquer lugar do mundo, nós retribuiremos e criaremos problemas para eles. Temos o direito legítimo de defender a nossa integridade territorial e os nossos interesses nacionais. Esperamos que os americanos não cometam um erro”.

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É claro, o governo dos Estados Unidos continua colhendo fracassos em sua política externa. A chegada do navio Fortune na Venezuela é mais uma prova, e há outras. Trump não poupou palavras para insultar o líder norte-coreano Kim Jong-un em 2017 e, dois anos depois, ele acabou atravessando o mundo para visitá-lo na Zona Desmilitarizada que separa as duas Coreias. Qual foi o motivo dessa mudança? Noam Chomsky disse isso centenas de vezes: os Estados Unidos somente atacam os países indefesos. A Coreia do Norte não só não está indefesa, como desenvolveu um arsenal atômico que, mesmo sob uma eventual agressão dos Estados Unidos, mantém uma capacidade de retaliação que em instantes pode reduzir a cinzas mega-cidades como Seul (apenas 195 quilômetros de distância) e Tóquio (1.291 quilômetros).

Venezuela, Cuba e Irã tampouco baixam a guarda. É por isso que esses países resistiram a décadas de pressão diplomática, sanções econômicas, bloqueios e campanhas de demonização infames realizadas por “intelectuais bem-pensados” como Vargas Llosa e as centenas de publicitários do império mergulhados nos principais meios de comunicação, a (má) chamada “imprensa livre” do nosso continente. Quando o então presidente da França, Nicolas Sarkozy, convenceu a Muamar Kadafi de que não havia sentido em renovar a sua força aérea outrora poderosa, porque agora a Líbia e o Ocidente “eram amigos”, ele selou a sua sentença de morte. Kadafi aceitou o conselho do francês e do “chefe da máfia” italiano Silvio Berlusconi e quando em 2011 Washington mobilizou a OTAN para bloquear o espaço aéreo líbio, Kadafi estava à mercê de seus rivais, que o derrubaram e não apenas o lincharam com brutalidade selvagem, como matou três dos seus filhos.

Kadafi havia se desarmado; Venezuela, Cuba e Irã não, e é por isso que são países livres, mesmo quando precisam pagar um preço exorbitante por uma digna ousadia que desencadeia toda a raiva do império. Não apenas eles não se desarmaram, mas, aprendendo com a história de todas as revoluções, aqueles países criaram milícias populares poderosas (quase 4 milhões de membros no caso da República Bolivariana da Venezuela), cuja mera menção aos belicistas norte-americanos lhes dá calafrios, porque isso os lembra a tremenda surra que os vietcongues lhes deram durante a guerra do Vietnã. A conclusão desta análise terá que esperar alguns dias, dependendo do que virá a acontecer com os outros quatro navios-tanque. Um deles, o Forest, já está nas águas venezuelanas. Voltaremos ao assunto.

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Atilio Boron – sociólogo, cientista político e professor da Universidade de Buenos Aires.

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