Javier Milei, presidente: “sabemos que no curto prazo a situação irá piorar”

Durante a posse de Javier Milei, no último 10 de dezembro, alguns apoiadores do presidente também negaram os 30 mil desaparecidos

Foto Maíra Vasconcelos

Javier Milei, presidente: “sabemos que no curto prazo a situação irá piorar”

por Maíra Vasconcelos, Especial para Jornal GGN

Um discurso inaugural com promessas de sofrimento, sacrifícios e ajustes, além de números falsos sobre a herança herdada dos governos kirchneristas e dos mortos durante a pandemia; seguidores de Milei acompanharam a posse nas imediações do Congresso.

Antes das 11 horas da manhã, deste domingo 10 de dezembro, sob um sol de primavera razoavelmente quente, os apoiadores de Javier Milei ocuparam as ruas próximas ao Congresso, no bairro Balvanera, na Capital Federal. Um público de jovens, adolescentes, famílias inteiras, adultos, idosos com andadores, senhoras chorando, crianças cansadas e curiosas. Em meios aos típicos cartazes imitando notas de dólar com a foto do Milei, outros mais diretos diziam, “Senhor presidente, privatize tudo”, as buzinas de praxe, lenços, bonés com o desenho do leão, leões infláveis, animal símbolo de campanha do presidente, além das bandeiras de “Viva la libertad carajo”. Entre os seguidores do novo presidente, número consideravelmente menor do que se costuma ver nos habituais protestos e marchas na Capital, muitos se mostraram esperançosos, diziam não apoiar todas as propostas do partido “La Libertad Avanza”, como a derrogação da lei do aborto ou os discursos contra a diversiade sexual, mas defendem e afirmam estarem dispostos a aguentar o ajuste de choque prometido para os próximos meses. “O ajuste? Perfeito, perfeitíssimo, é o que o país necessita”, disse o menino Santino Bolpado, 15 anos, perguntado pela reportagem do Jornal GGN. E, assim, a Argentina inaugura um capítulo “libertário” na sua história, com um governo negacionista em relação aos 30 mil mortos e desaparecidos pelo terrorismo de Estado, na última ditadura cívico-militar (1976-1983), e o primeiro governo de ultradireita, após a redemocratização.

Alguns de seus seguidores consideram que a Argentina está entrando em uma nova era, como afirma também Milei em seus discursos e entrevistas. E essa mudança radical está associada, também, a uma derrota do peronismo. “É um dia que vai ficar para a história e quero contar aos meus netos. Porque estou cansada que nos roubem”, disse com voz trêmula, a ponto de chorar, Eugénia Xardez, 52 anos. Perguntada sobre a questão do aborto, Xardez se mostrou a favor dos direitos da mulher, mas não necessariamente da manutenção da lei. “Cada um faz do seu corpo o que quer. Pode estar a lei, ou pode não estar a lei. Porque não estando a lei as pessoas vão fazer “por fora”. Estando a lei, qualquer um pode fazer. Se você é crente, não irá fazer, por mais que esteja a lei. Ter a lei não te obriga”, afirmou.  

Logo após a cerimônia nos recintos da Assembléia Legislativa, que pode ser vista em um telão instalado em frente a Praça dos Dois Congressos, após jurar o cargo “por Deus e pela Pátria”, o presidente mudou o protocolo e, ao estilo estadunidense, escolheu discursar aos seus seguidores desde as escadarias do Congresso. “Não há alternativas ao ajuste, nem ao shock”, voltou a repetir o que vem afirmando desde que venceu o segundo turno das eleições contra o peronista e ex-ministro da Economia, Sergio Massa. Além de faltar com a verdade em relação aos números da inflação e dos mortos durante a pandemia, Milei também disse que os postos de trabalho do setor privado estão estancados em 6 milhões, o que é falso. Foram registrados aumentos nos segmentos de assalariados registrados e informais, entre 2019 e 2023.

Para o jovem argentino de La Pampa, 20 anos, que preferiu não se identificar, Milei é um candidato sincero, por dizer que irá promover o ajuste. Isso é considerado um ponto a favor para Milei, o fato de sempre ter avisado sobre o ajuste de choque. “Acho que é dos poucos candidatos que teve a cara de ser sincero e dizer ao povo que haverá ajuste. Sem mentir dizendo que a mudança vai ser agora. Ele propõe para o futuro e isso me parece muito sincero”, disse, e considerou que a lei do aborto, aprovada na Argentina, em 2020, deve ser mantida. “Isso não estou de acordo (com a derrogação da lei). Posso ser objetivo. Posso estar de acordo com o candidato, mas não com todas as suas ideias. Acho que a lei deve ser mantida”, afirmou. 

Ainda sobre o ambiente da posse, a vice-presidente Cristina Fernández de Kirchner fez um gesto de “fuck you” aos apoiadores de Milei que a insultaram quando ingressava à Câmara dos Deputados, acompanhada de seu filho e deputado nacional Máximo Kirchner, onde conduziu a cerimônia de posse como presidenta do Senado. A vice-presidente Victoria Villarruel ocupa agora o cargo de presidenta do Senado e o advogado Martín Menem, sobrinho do ex-presidente Carlos Menem (1989-1999), preside a Câmara dos Deputados. Menem, o sobrinho, concorreu para governador da província de La Rioja, mas ficou em terceiro lugar, derrotado pelo peronista Ricardo Quintela (52% dos votos). Menem se diz um libertário “puro sangue”, e foi eleito deputado nacional pela mesma província.  

Entre os apoiadores de Milei, também foi possível identificar alguns brasileiros, provavelmente muitos deles seguidores do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022), que esteve presente para a posse, convidado via telefônica pelo ultradireitista. A turista brasileira Claudia Maria Rosário, de Aracaju, 57 anos, estava de passagem pela Capital e aproveitou para acompanhar a cerimônia de assunção. “Estou aqui porque Milei tem os mesmos valores que Bolsonaro defende. Sou brasileira, sou Bolsonaro e por isso vim prestigiar a posse de Milei”, disse Rosário.

Além de Bolsonaro, entre os representantes estrangeiros, estiveram presentes o rei da Espanha, Felipe VI, os presidentes do Chile, Gabriel Boric, do Uruguai, Luis Lacalle Pou, do Equador, Daniel Noboa, do Paraguai, Santiago Peña, da Ucrânia, Volodimir Zelenski, e o primeiro-ministro da Hungria, Víktor Orbán. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não esteve presente, entre tantos outros ausentes. 

Um dos discursos dos apoiadores de Milei em relação ao ajuste é que a situação econômica já está ruim há bastante tempo. Então, o fato de que os primeiros meses do ajuste podem vir acompanhados de um cotidiano de “choque” para as economias familiares, com uma inflação mensal estimada entre 25% a 50%, a esperança de seus eleitores é que essa receita devolva o país à estabilidade e, principalmente, derrube os índices de inflação, que este ano deve fechar em 150%. Segundo o plano econômico ortodoxo de Javier Milei, a inflação estará controlada a partir do segundo semestre de 2025. Há, também, a queixa de que o governo do ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019) não realizou o ajuste que muitos de seus votantes esperavam, quer dizer, um ajuste de choque e não gradual.

“O ajuste me parece perfeito, porque o gradualismo foi o que fez com que o governo de Macri não tivesse êxito. Nós já estamos padecendo faz tempo, então um choque vai ser para que tudo isso mude”, disse a militante do partido Libertário, María Sare, arquiteta, 50 anos, da província de Santiago del Estero.

A política negacionista dos “libertários”

A vice-presidenta Victoria Villarruel pertence a uma família de militares e defende que o terrorismo de Estado, perpetrado durante a ditadura cívico-militar argentina, não deixou 30 mil mortos e desaparecidos, como reivindicam, por exemplo, as Avós da Praça de Maio e os organismos de direitos humanos. Villarruel tem um tio do qual não fala, Ernesto Guillermo Villarruel, que tinha um escritório próprio dentro de um centro clandestino de detenção, chamado “El Vesubio”, de onde dava ordens como chefe da Divisão de Inteligência II, do 3º Regimento de Infantaria de “La Tablada”.

Durante a posse de Javier Milei, no último 10 de dezembro, alguns apoiadores do presidente também negaram os 30 mil desaparecidos, e mesmo aqueles que acreditam e apoiam as políticas de direitos humanos, justificaram seu voto por estarem contra o candidato oficialista, Sergio Massa, e não necessariamente a favor de Milei. “Sei lá, não sei bem sobre os direitos humanos. Por exemplo, acho que para Milei direitos humanos é uma coisa e para os kirchneristas é outra”, afirmou Cintia Herrera, 44 anos, da província de Buenos Aires.

Enquanto vendia alguns apetrechos dos libertários, como chaveiros e pequenos bonecos, Alejandro Zarate, 38 anos, disse ser contra a política negacionista, e que seu voto foi um voto contra Sergio Massa, “não votei a favor de Javier Milei”. “Estou completamente contra o negacionismo e também pela maneira como o expressam. Apesar de ter votado no Milei, esse não é um ponto que compartilhe. Por causa da maneira carregada de bastante violência com que se expressa, tocam em um tema que é bastante sensível, independentemente daquilo que você pense, é muito sensível para a fibra argentina”, defendeu Zarate.

Desde o aparecimento do fenômeno Milei, até a sua assunção como presidente, neste último domingo, esse tipo de discurso negacionista passou a ganhar espaço como, talvez, ainda não tinha acontecido no país, ao menos desde a implantação das políticas reparatórias aos familiares de desaparecidos, por exemplo; e a agenda pública do país também tem sofrido um revés ultrarreacionário. A Argentina, considerada um exemplo no mundo por ter levado a cabo o julgamento e condenação,  por crimes contra a humanidade, de genocidas, torturadores e envolvidos com o desaparecimento e mortes durante a ditadura militar (1976-1983), ingressa em uma etapa política talvez inédita em relação aos ataques aos direitos humanos, como também aos direitos das mulheres, da diversidade sexual e dos direitos trabalhistas.  

“Todos os excessos do Estado são equivocados, mas também é real que os 30 mil que eles dizem que estão, não estão. Não são 30 mil. De nenhuma maneira se justifica a intromissão do Estado da forma como aconteceu. Mas não eram santos, a maioria”, disse a portenha Lucila Perez, de 51 anos. Também o cordobês, da província de Córdoba, Gastón López, 39 anos, nega que tenham sido 30 mil desaparecidos, e discorda que se diga “negacionismo”, ao que ele chama uma “outra mirada”.

“Não vejo como um negacionismo, vejo que ela (a vice-presidenta Victoria Villarruel) coloca foco nas vítimas do terrorismo. O foco, até agora, sempre esteve posto de um só lado. Ao meu entender, ela busca um equilíbrio. Houve uma contraparte que também matou inocentes. É outra mirada. Não vejo como negacionismo”, defendeu López. Na Argentina, todo 24 de março é feriado, data em que foi dado o golpe militar, em 1976, e comemora-se o “Dia da Memória, pela Verdade e Justiça”. Todos os anos, é realizada uma marcha que vai do Congresso em sentido à Praça de Maio, organizada pelos diversos organismos de direitos humanos.

A Argentina, a partir de agora, poderá entrar em uma nova etapa política, como vem sendo analisado por diferentes especialistas na mídia local. A etapa mileista, que está por começar, parece trazer à tona fantasmas que se considerava estarem adormecidos, mas que, agora, poderiam encontrar a hora certa para despertar. No entanto, é necessário ressaltar também a capacidade de mobilização da sociedade argentina. Nesse sentido, entre os países da América Latina, a Argentina talvez seja o país que mais tradição tem de ocupar as ruas como meio de reivindicação de seus direitos. Por isso, o cenário de ajuste, protesto e repressão é um velho conhecido dos argentinos e argentinas.  

Maíra Vasconcelos – jornalista e escritora, mora em Buenos Aires, publica artigos sobre política argentina no Jornal GGN e cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina.

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Maira Vasconcelos

Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN. Escreve crônicas para o GGN, desde 2014.

1 Comentário

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  1. No início do governo Milei as coisas vão piorar, mas a médio prazo vão continuar pioraando, no entanto, a longo prazo, a piora vai se acentuar. O Alívio da crise não acontecerá, pois aí, se os hermanos aguentarem, terminará o mandato do presidente sob orientação extra terreste canina.

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