Alberto Fernández chega ao final do seu mandato

Talvez, essa tenha sido uma de suas últimas entrevistas, antes do dia 10 de dezembro, quando Alberto passará o bastão

Joédson Alves – Agência Brasil

Entrevista Alberto Fernández

Alberto Fernández chega ao final do seu mandato: “Seria necessário que dentro do seu espaço não atirassem em você todas as manhãs”.

Maíra Vasconcelos, especial para Jornal GGN

Quando deixe a residência presidencial, Alberto irá morar em um apartamento em Puerto Madero (Buenos Aires), com sua família, Fabíola Yáñez e o filho Francisco, nascido em 2022; em 2024, poderá passar alguns meses na Espanha, onde dará aulas em universidades, contou o jornalista Sebastián Lacunza.

O jornalismo tem diversas responsabilidades sociais e o cumprimento de uma dessas obrigações pode ser vista em uma entrevista solicitada pela imprensa a um presidente ao final de seu mandato. Quer dizer, confrontado e criticado pelo entrevistador, este pode, então, fazer uma espécie de balanço do seu governo. E o lugar para explicar-se frente à sociedade, precisamente, são os meios de comunicação, que devem permitir e requerer que as autoridades públicas prestem as devidas contas à população, e, contudo, àqueles que foram seus eleitores. Muitas vezes, se supõe que essa função básica do jornalismo tem sido exercida, essas responsabilidades profissionais que determinam e fundamentam a atividade, mas que também dependem da cobrança e consciência social do direito à informação. Em um momento em que o jornalismo tem necessitado buscar espaço junto a ativistas digitais que lutam de igual para igual pela interpretação do mundo e dos acontecimentos cotidianos, também como porta-vozes de problemas sociais que, outrora, eram de conhecimento público apenas pela voz do jornalismo.

Neste caso, a informação aqui disponível é uma entrevista com o presidente, ainda em exercício, Alberto Fernández, que assumiu o mandato em 2019, realizada pelo jornalista argentino Sebastián Lacunza, para o jornal “El DiarioES” (da Espanha). Perguntado sobre uma das grandes questões da economia argentina, sobre a criação de um sistema tributário mais progressivo, Fernández respondeu que atravessou a pandemia, as consequências da guerra da Ucrânia e a maior seca da história do país, e isso tem sido repetido para apalear a morosidade de um governo deficiente em relação à melhoria dos índices econômicos. Alberto expôs suas diferenças, que atravessaram boa parte de seu mandato, com a vice-presidente Cristina Fernández de Kirchner, falou sobre os reféns argentinos mantidos, hoje, pelo Hamas, sobre as relações internas no peronismo e sua necessidade de transformação, após derrota histórica nas eleições do último dia 19 de novembro. Também explicou sua estratégia junto ao ministro da Economia, Sergio Massa, quando Alberto cedeu todo o protagonismo ao ex-candidato para a disputa presidencial.

Foi citado o episódio em que Massa expressou apoio ao governo de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, quando o governo, por meio do ministério de Relações Exteriores, emitiu um comunicado em repúdio aos ataques terroristas do Hamas, mas também solicitando que Israel respeitasse as leis humanitárias internacionais.

Alberto comentou sobre o encontro com o recém-eleito Javier Milei, logo após sua vitória, no dia 21 de novembro, na residência presidencial, no bairro de Olivos (Área Metropolitana de Buenos Aires). Apesar de “agradável”, como sustentou o presidente, Alberto mostrou suas diferenças e preocupações sobre a situação da democracia na Argentina. “Sua chanceler (a economista Diana Mondino) diz que um homossexual – eu tenho um filho gay – é como alguém que escolhe ter piolhos, então ela deve aceitar as consequências daqueles que a rejeitam. Não há esperança. Ele me disse: ‘Temos uma teoria de que todo mundo pode dizer o que quiser””, contou Alberto seu diálogo com Milei.

Talvez, essa tenha sido uma de suas últimas entrevistas, antes do dia 10 de dezembro, quando em cerimônia no Congresso da Nação, Alberto passará o bastão, junto com a faixa presidencial, a Milei, primeiro presidente de extrema-direita, após a redemocratização, e neste ano em que a Argentina  completa 40 anos de democracia.

A entrevista é uma tradução livre do espanhol ao português, onde foram suprimidas apenas três perguntas que versavam sobre casos de espionagem interna, e que envolvem o uso governamental dos serviços de inteligência do Estado. Por ser uma notícia de cunho local, que, muitas vezes, não conta com repercussão na mídia internacional, os fatos careciam de maior explicação e informações prévias para seu entendimento e corriam o risco de ficarem “soltos” para a grande maioria dos leitores.

No jornal “El DiarioES”, a entrevista foi publicada com um “abre”, como chamamos no jornalismo aquele texto em que se resume e se expõe os principais assuntos da entrevista, que dizia, entre outras considerações: “Fernandez não parece estar pesaroso. Quando se trata de escolher uma palavra que reflita seu estado de espírito, ele diz que está “tranquilo”. Seu balanço reconhece dívidas, mas é positivo. Além de estar calmo, ele está ansioso para “confrontar”. Ele deixa isso claro. De fato, durante a entrevista, ele confronta. Com a vice-presidente Cristina Fernández de Kirchner, um pouco com o ex-candidato à presidência Sergio Massa, um pouco com o governador de Buenos Aires, Axel Kicillof, e com uma dose extra de acidez, com o deputado Máximo Kirchner”, escreveu Sebastián Lacunza.

Satisfação, frustração ou alívio. Alguma dessas palavras definem como você se sente?

-Não, nenhuma. Estou calmo. Terminamos um ciclo e tenho certeza de que demos tudo de nós nesses quatro anos muito difíceis, e com a tranquilidade de saber que muitas coisas deram certo. Lamento que algumas coisas não tenham saído como eu gostaria. Como fizemos tudo com honestidade e lealdade, saio com paz de espírito.

Em uma entrevista há alguns dias, o senhor disse que todo o governo e o peronismo deveriam rever os pontos em que não conseguiram sintonizar com a sociedade. Há algo específico em sua função como presidente que o senhor poderia ter feito diferente?

-Não sei se essas coisas sobre as quais você fala com o travesseiro devem ser públicas. Obviamente, você tem um momento para analisar seu próprio comportamento, mas não sei se isso deve se tornar um debate público. É verdade que você está em uma Argentina com inflação muito alta, onde é muito difícil os salários acompanharem os aumentos de preços, e os trabalhadores informais são os que mais sofrem. Tudo isso é tão verdadeiro quanto o fato de estarmos em uma Argentina com 30 meses consecutivos de aumento do consumo, 37 meses consecutivos de geração de empregos registrados, quase um milhão e meio de novos empregos. A atividade industrial ocupa 70% da capacidade instalada. Em quatro anos, foi realizada a maior quantidade de obras públicas da história da democracia. É um país em que os direitos foram ampliados, nasceu o documento não binário, foi instituída a cota de trabalho para transgêneros, foi implementada a lei de interrupção voluntária da gravidez, reduzindo pela metade as mortes maternas e a gravidez na adolescência praticamente desapareceu. Tudo isso também é objeto de mérito quando se trata de fazer um balanço. É por isso que, quando olho para todos esses dados, digo “bem, as coisas estão mais equilibradas”. Não é tão negativo como algumas pessoas retratam e mostram.

O senhor termina seu mandato com índices de popularidade muito baixos. Acha que o tempo permitirá uma leitura diferente de seu mandato presidencial?

-Tudo o que acabei de dizer é absolutamente verificável, não faz parte de uma história. São dados, um acúmulo de dados. Em épocas de grandes transformações como a que estamos vivendo, aqueles que as vivem nem sempre têm consciência do momento. Esta geração não está ciente de que a modernidade está sendo deixada para trás e que estamos entrando em uma era digital de transformação permanente. Quando o tempo passar e dermos um passo atrás, poderemos refletir sobre a dívida que nos pesa, a pandemia, a guerra e a seca.

Durante boa parte da campanha, Sergio Massa não resgatou praticamente nada desses anos e, quando perguntado sobre as críticas à sua administração, disse: “Eu não sou o presidente, meu mandato começa em 10 de dezembro”. Essa distância o incomodou?

-Não. Tomei duas decisões que considero importantes para que eu seja competitivo até o final do governo. A primeira foi não ser candidato, sabendo que minha candidatura poderia levar alguém a encontrar uma justificativa para quebrar o espaço. Se quebrássemos o espaço, não teríamos sequer a chance de competir seriamente. A segunda decisão foi dar ao Sergio um papel de liderança. Isso me custou o fato de que durante muito tempo as pessoas perguntaram “onde está o Alberto”. Eu fiz o que disse no dia em que decidi não ser candidato. Em termos políticos, dei todo o destaque ao Sergio. Portanto, não, não posso me sentir ofendido. Fazia parte de uma estratégia com a qual nós dois concordamos e tudo bem.

Um episódio específico foi quando o Ministério das Relações Exteriores reiterou seu repúdio ao ataque terrorista do Hamas, no dia 7 de outubro, mas pediu a Israel que respeitasse a lei humanitária internacional pelos massacres realizados em Gaza. Uma postura histórica do peronismo. Massa lamentou essa declaração e expressou seu total apoio ao governo de Benjamin Netanyahu. O que você achou desse episódio?

-A verdade é que eu lhe disse que achava lamentável e que sua opinião estava errada e, além disso, era arriscada, porque enquanto isso acontecia, estávamos mantendo mais de 20 argentinos como reféns do Hamas. Portanto, quando se negocia com sequestradores que também são terroristas fundamentalistas como os membros desse grupo, é preciso ser tão prudente quanto o caso exige. Tenho certeza de que disse tudo isso às famílias dos reféns e elas entenderam perfeitamente. Acho que Massa também interpretou mal o comunicado, pois a primeira coisa que ele dizia era que rejeitávamos o que o Hamas havia feito e que reconhecíamos o direito de Israel de se defender, mas que deveria fazê-lo respeitando as regras internacionais. O Estado de Israel ficou grato por esse reconhecimento.

O que Massa respondeu?

-Ele me ouviu. Hoje, por exemplo (sexta-feira, 24 de novembro), é um dia de alegria porque tivemos a libertação de dois reféns que são parentes de argentinos.

Estão em negociações com o Emirado do Catar?

-Estamos seguindo as recomendações que nos foram dadas por Israel, que era continuar conversando com o Catar, o Egito e a Turquia. Com o Catar, mantivemos conversas constantes, duas ou três vezes por semana, e tive três comunicações com o presidente israelense (Isaac Herzog) após os acontecimentos. Todas essas coisas precisam ser feitas com muito cuidado. Há mais de 20 pessoas que estão nas mãos dessas pessoas e nem sequer sabemos onde elas estão.

Um de seus objetivos era acabar com o que você define como “personalismo” no peronismo. Uma leitura da vitória de Javier Milei é que Cristina Fernández de Kirchner, que, segundo o senhor, exerce uma liderança personalista, poderia voltar ao centro do palco.

-Meu argumento é que somos peronistas porque tivemos um líder único e irrepetível chamado Juan Perón (1895-1974). O problema que nós peronistas temos é que, desde a morte de Perón, parece que a política está procurando um substituto para Perón e paramos de discutir o que somos ideológicamente e o que queremos representar. E assim aconteceram coisas trágicas. Éramos conservadores com (Italo Argentino) Luder (no início dos anos 80), liberais com (Carlos) Menem (nos anos 90), conservadores populares com (Eduardo) Duhalde (no início do século) e progressistas com Kirchner e comigo. Eu quis criar um peronismo progressista e fiz isso o máximo que pude.

Você não acha que a vitória de um ultradireitista como Milei poderia dar outra possibilidade política a Cristina, que não pode ser candidata,?

-Ela poderia ter sido candidata. Em todo caso, pode não ter querido.

Me refiro a que Cristina Kirchner provavelmente pensou que não poderia ganhar agora ou em 2019, porque a maioria votaria contra ela, mas dada a desorientação do peronismo e a aliança entre Milei e Macri, ela poderia se destacar novamente.

-Acho que não. Se somos peronistas, temos de voltar a algumas das coisas que aprendemos. Perón, quando percebeu que ia morrer, disse algo que era muito mais do que uma frase: “A organização vence o tempo. Temos que garantir que isso continue com vida, mesmo que o tempo esteja se esgotando para mim”. A história nos dá um personagem como Perón uma vez a cada século. Ele era um homem capaz de conter posições internas conflitantes. Como você substitui isso? Com organização. O que é organização? Uma democratização séria do partido. E se acontecer de surgir um ultra, precisamos de mais democratização, clareza e debate interno. Não precisamos de um messias para confrontar outro messias. Não é disso que precisamos. Quando o messias desaparece ou sua estrela se apaga, todos nós nos sentimos órfãos novamente. Há dois anos, em um comício na Plaza de Mayo, após as primárias, falei sobre a necessidade de os próximos candidatos surgirem de um debate e das (eleições) primárias, que não devemos construir lideranças porque alguém as escreve em um pedaço de papel. Fui muito criticado. Fico feliz que agora Axel (Kicillof – reeleito governador da Província de Buenos Aires) esteja dizendo algo semelhante. De forma mais tênue, com sua maneira e seu cuidado, ele diz “bem, temos que tocar uma música diferente”. Entendo que ele está indo na mesma direção do que estou dizendo. Um dos motivos que obviamente nos fizeram fracassar foi o fato de não termos conseguido nos sintonizar com parte da sociedade. A orquestra está desafinada e temos de afiná-la.

Um provável líder num futuro imediato, o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, um peronista de esquerda, foi reeleito de forma acachapante. Você argumenta que o Estado nacional transferiu recursos para uma província que era muito difícil de governar.

-Sim, a província recebeu recursos que nenhum presidente da democracia jamais lhe deu. De fato.

Nessa divisão de águas, Kicillof concordou com a posição de Cristina e praticamente não fez menção a essas transferências do governo nacional. Essa posição deixa um gosto amargo em sua boca?

Não. Na verdade, ele é quem deve ter um gosto amargo por negar o óbvio.

De onde o senhor acha que virá a briga pela liderança do peronismo e a oposição a Milei? Kicillof, Massa, Cristina?

-Ou outro. Todos nós estamos em uma situação de dor, desconforto e amargura como resultado da derrota. Estou conversando com todos. Esta manhã, tomei café da manhã com cinco importantes sindicalistas da Confederação Geral do Trabalho. (Angela) Merkel me perguntou uma vez por que a Argentina era tão diferente dos outros países latino-americanos, e minha resposta foi: por causa do estado de bem-estar social que Perón criou. Veio Néstor, Cristina, depois eu, e todos nós ampliamos os direitos. Todos fizeram sua parte para ampliar os direitos. Infelizmente, os salários não se recuperaram durante minha gestão como eu gostaria, mas saio com a tranquilidade de não ter impedido nenhuma negociação entre empresas e sindicatos. Quando alguém fala desde esse lugar, neste momento, certamente diz coisas que não deveriam ser ditas e, portanto, eu disse coisas nos últimos dias que pareciam óbvias para mim, mas que não tinham a intenção de ofender ou chatear ninguém. Por exemplo, Cristina disse que não faz parte do governo porque não foi ouvida. Não, Cristina foi ouvida em tudo; de algum modo, ela não foi obedecida.

Veremos durante o início do mandato de Milei uma parte do peronismo em uma postura colaborativa, como os governadores, senadores e deputados que ajudaram Macri a aprovar quase todos os seus projetos em 2016, inclusive a dívida?

-Não vou ser colaborador de um governo. Não quero colocar obstáculos nem ser um colaborador. Nenhuma das duas coisas. O que eu quero é confrontar e deixar claro o que somos. Aqueles que se sentem peronistas terão dificuldade em participar disso (do governo de Milei). Embora eu deva admitir que há uma parte do peronismo liberal de Menem que Milei quer aplicar. O déficit tem de ser reduzido, e como vamos reduzi-lo? Na base do porrete e, se isso não for suficiente, vendemos as jóias de nossa avó, as empresas públicas. É a mesma lógica. Nós que somos peronistas sabemos que essa experiência terminou com 18% de desemprego e foi o prefácio da crise de 2001.

O senhor disse várias vezes que priorizou a unidade durante seu governo, apesar das diferenças programáticas e pessoais com Cristina. A vitória de um candidato de extrema direita acompanhado por Macri é o cenário mais distópico que o senhor poderia ter imaginado quando iniciou seu mandato. Essa realidade não demonstra um déficit de sua parte na construção de um governo poderoso e coordenado, com uma rede de funcionários que o defenderiam e que seriam meticulosos na implementação de políticas?

-Essa é a sua análise. Além de preservar a unidade, eram necessárias várias coisas. A unidade em abstrato é de pouca utilidade. Era necessário que, dentro do seu espaço, você não estivesse sendo alvejado todas as manhãs. Isso aconteceu até certo ponto. A verdade é que não sei se este é o momento certo para analisar isso, porque se eu analisar agora, provavelmente estarei errado. Não acho que o problema tenha sido o fato de eu não ter criado uma força de contra-ataque. Entendo que a coalizão era um espaço único e que tínhamos de cuidar e preservar uns aos outros.

Quando percebeu que, como disse, estava sendo alvejado todas as manhãs, não era hora de mudar sua estratégia?

-Durante um ano e meio, tentei dizer “vamos nos acalmar”. O mais importante é preservar a unidade. Muitas vezes me perguntam “por que você não aceitou a renúncia deles na época” (em setembro de 2021, após a derrota categórica nas Primárias, todos os funcionários que respondiam à vice-presidenta ameaçaram renunciar). Isso é contrafactual. Um dos riscos era que rompêssemos a unidade do espaço e eu teria mais dois anos de governo. E como eu governaria? Com qual força?

Um dos problemas dos últimos quinze anos, que veio à tona em seu governo, é que não há nenhum projeto redistributivo que possa resistir à desordem macroeconômica. A questão fiscal saiu do controle por razões compreensíveis em 2020, o ano da pandemia, com o nó no pescoço por causa da dívida deixada por Macri. Agora, há uma montanha de subsídios para serviços públicos, promoções de viagens, créditos de tarifas subsidiadas, combustível, passagens aéreas, zonas frias para pagar menos pelo gás. Tudo isso beneficia a todos, inclusive milhões de famílias com alto poder aquisitivo.

-Uma das coisas que me preocupa com o que está acontecendo dentro do espaço é que alguém acredita que o déficit fiscal não é prejudicial (Cristina disse isso em várias apresentações). O déficit fiscal é prejudicial. Ponto final. Enfrentamos a pandemia com uma Argentina inadimplente, sem crédito. A única possibilidade que o país tinha de enfrentar a pandemia era basicamente emitindo dinheiro, e toda essa emissão acabou repercutindo na forma de inflação e déficits, como aconteceu em todo o mundo. Quando chegamos, tínhamos 54% de inflação e uma economia infinitamente mais fraca. Depois disso, começamos a cuidar do déficit. Se você observar, mesmo no ano passado ele estava abaixo das metas que havíamos estabelecido com o Fundo Monetário Internacional. Não posso dizer que você está certo em algumas coisas, mas mesmo sem essas ferramentas, teríamos desacelerado muito a economia. Empréstimos a taxas subsidiadas ou a taxas zero durante a pandemia para PMEs são bons. Quanto às tarifas, foi uma luta interna que travamos para garantir que os subsídios beneficiassem aqueles que precisavam deles e os implementamos mais tarde do que gostaríamos. Você está certo.

O senhor não vê isso como uma questão de ajuste fino para distribuir benefícios de forma inteligente que deveriam ter sido implementados pelos funcionários responsáveis, mas não foram? O problema é que a soma dos programas e dos preços regulados dos combustíveis forma uma montanha incontrolável de gastos e abusos.

-Francamente, não concordo com essa parte. Os setores cultural, de entretenimento, hoteleiro e de alimentação foram destruídos. Nós os sustentamos com o pagamento de salários e depois com o Previaje, que colocou dinheiro no bolso das pessoas para que elas pudessem se divertir e isso geraria mais consumo e mais receita tributária. Nem sempre é possível fazer uma distinção de preços no meio de uma pandemia. A pandemia acabou e veio a guerra. O preço da energia subiu e gastei 5 bilhões de dólares a mais para pagar pelas importações. O debate foi: “Pagamos o preço da energia ou paramos o setor? Passamos por isso e tivemos a seca. Conceitualmente, concordo com o que você diz. Como dizem os sociólogos, todo evento deve ser analisado em um determinado momento e em uma determinada sociedade. Então você diz: “Alberto, você não tem a sensação de que deveria ter criado um sistema tributário mais progressivo? A resposta é sim. Mas, irmão, me deram um país falido com uma dívida impagável, 54% de inflação, tive de suportar uma pandemia, uma guerra, a maior seca dos últimos 100 anos, que me priva de 25% da minha renda. Quando você quer que eu faça essa reforma?

Você conversou com Javier Milei sobre seus planos de usar a motosserra assim que começar a governar, quando o visitou nesta residência na terça-feira, 21 de novembro?

Foi um encontro bem-humorado e agradável, sem dificuldades. Em um determinado momento, quando ele estava me explicando teoricamente como tudo funcionaria, ele parou de falar e eu lhe disse: “Você sabe qual é o melhor país do mundo?”. “Qual?”. “Nateoria”, porque na teoria tudo funciona bem, mas a realidade é diferente”. Ele riu.

A reforma de Massa durante a campanha eleitoral para eliminar totalmente o imposto de renda para todos os assalariados, inclusive a elite trabalhista, foi uma das medidas tributárias mais regressivas e injustas em muito tempo.

-Preste atenção ao fato de que são duas leituras. Macri venceu as eleições de 2015 dizendo que eliminaria o imposto de renda para os assalariados e fomos nós que o fizemos. É um imposto destinado aos mais ricos e estava afetando todos os argentinos. Então podemos discutir onde fazer o corte.

-Agora que o imposto praticamente deixou de existir, o sistema tributário é mais parecido com o de um país desigual da América Central do que com o da França ou da Alemanha, onde a maioria da população paga imposto de renda.

-Para mim, o salário é a remuneração pelo trabalho.

Em declarações recentes, o senhor restringiu o discurso negacionista e a reivindicação da ditadura militar à vice-presidente eleita Victoria Villarruel, que tem vínculos históricos com os repressores condenados por crimes contra a humanidade. O senhor teme a institucionalização do negacionismo?

Tentei argumentar que, como vice-presidente da República, ela entenderá que o negacionismo é praticamente impraticável na Argentina. Posso entender que, por ser parente de militares, ela perceba as coisas da maneira que vê, mas a sociedade argentina tem clareza sobre como as coisas têm sido, sobre o que tem sido o terrorismo de Estado. Espero que ela não seja uma expressão desse negacionismo.

Qual foi a reação de Milei quando o senhor advertiu sobre as ameaças à saúde da democracia?

-Ele me ouviu, prestou atenção e acho que até disse: “Estou tomando nota do que você está dizendo”. Eu disse a ele claramente. Eu lhe disse que se uma pessoa que vai ser sua chanceler (a economista Diana Mondino) diz que um homossexual – eu tenho um filho gay – é como alguém que escolhe ter piolhos, então ela deve aceitar as consequências daqueles que a rejeitam. Não há esperança. Ele me disse: ‘Temos uma teoria de que todo mundo pode dizer o que quiser”. Não é assim. E se você disser que alguém pode fazer sexo com alguém do mesmo sexo ou com um hipopótamo, isso é desrespeitoso. Meu convite para conversar com Milei no dia seguinte à eleição tinha a intenção de dar um sinal de convivência com a diversidade, mantendo nossas diferenças. Está claro para mim que estou conversando com alguém que está em desacordo comigo. Eu o respeito. Ele é a pessoa que os argentinos elegeram.

Com Patricia Bullrich no Ministério da Segurança e Macri como aliado do governo, a promoção do crime de “gatilho fácil” (expressão usada para se referir a execuções extrajudiciais realizadas por policiais) e a repressão aos protestos, como eles mesmos se encarregaram de promover na campanha, podem ser institucionalizadas. Mais uma vez, existe uma preocupação real ou isso pode continuar sendo retórica e a democracia afirmará suas garantias?

-Uma das coisas de que também me orgulho é o fato de não ter recebido uma única queixa de espionagem interna e de estar saindo sem uma única queixa de violência institucional. Ironicamente, tive de passar por tudo o que passei, pelo contexto em que tive de governar, e estou saindo com o menor nível de conflito social que a democracia já viu. Isso se deve ao fato de eu ter garantido que os mais necessitados recebessem ajuda do Estado. Certifiquei-me de que aqueles que se manifestaram não fossem submetidos a uma repressão brutal. Os atos de repressão excessiva não foram realizados pelas forças federais, mas pelas forças da Cidade de Buenos Aires. Essa é, sem dúvida, uma das coisas que mais me preocupam.

*A entrevista em espanhol.  https://www.eldiario.es/internacional/alberto-fernandez-confrontar-claro-peronismo_128_10718289.html

Maíra Vasconcelos – jornalista e escritora, mora em Buenos Aires, publica artigos sobre política argentina no Jornal GGN e cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. 

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Maira Vasconcelos

Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN. Escreve crônicas para o GGN, desde 2014.

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