O que você precisa saber para acompanhar o 2º turno das eleições na Argentina

Renato Santana
Renato Santana é jornalista e escreve para o Jornal GGN desde maio de 2023. Tem passagem pelos portais Infoamazônia, Observatório da Mineração, Le Monde Diplomatique, Brasil de Fato, A Tribuna, além do jornal Porantim, sobre a questão indígena, entre outros. Em 2010, ganhou prêmio Vladimir Herzog por série de reportagens que investigou a atuação de grupos de extermínio em 2006, após ataques do PCC a postos policiais em São Paulo.
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No próximo domingo (19) será realizado o segundo turno das eleições na Argentina em quadro semelhante ao vivido pelo Brasil em 2022

Primarias Abertas Simultâneas e Obrigatórias [Divulgação/PASO]

No próximo domingo (19) será realizado o segundo turno das eleições presidenciais na Argentina, onde a população irá decidir qual será o novo presidente para os próximos quatro anos: o peronista Sergio Massa, da coligação União pela Pátria, ou o candidato da extrema direita Javier Milei, da coligação A Liberdade Avança. 

Os candidatos chegaram a esta fase porque foram os dois mais votados e nenhum obteve mais de 45% dos votos necessários ou mais de 40% com uma diferença de 10% sobre o segundo para se eleger logo no primeiro turno das eleições, realizado no último dia 22 de outubro.

Na ocasião, o candidato Sergio Massa obteve 36,7% dos votos, contra 30% de Javier Milei e 23,8% de Patricia Bullrich, da coligação Todos pelo Câmbio, que foi a terceira mais votada. 

Conforme a Câmara Nacional Eleitoral informou, 77,65% dos eleitores argentinos foram às urnas no primeiro turno, superando os 69% das primárias em agosto, que tiveram um alto índice de absenteísmo. 

A porcentagem ficou acima do recorde negativo anterior: 76,2% em 2007, quando a ex-presidente Cristina Kirchner venceu pela 1ª vez. Historicamente, a participação eleitoral tende a aumentar 5% entre o Paso (Primárias, Abertas, Simultâneas e Obrigatórias) e o 1º turno.

O segundo turno

Para o segundo turno, os mais de 20% de eleitores que não foram votar na primeira volta podem ser decisivos no resultado final. Justamente por isso, Massa e Milei se esforçam para atraí-los. As pesquisas eleitorais das duas últimas semanas se dividem entre mostrar a liderança de um ou outro entre o eleitorado, mas todas apontam porcentagens muito pequenas de distância entre ambos.

Os institutos têm dito que se trata de um empate técnico. No primeiro turno, deram vantagem para Milei de forma quase unânime, mas acabaram surpreendidos pela vitória de Massa por quase sete pontos percentuais de vantagem. De qualquer maneira, a vitória de um ou outro tenderá a ser apertada.

Na Argentina, as eleições presidenciais são realizadas a cada quatro anos. No primeiro turno, houve também a eleição legislativa. A Câmara elege a cada dois anos metade dos deputados (130 ou 127, alternadamente a cada eleição, de 257 cadeiras) para mandatos de quatro anos. Já os senadores têm mandatos de seis anos. Cada eleição legislativa escolhe 1/3 da Casa Alta, que tem 72 assentos.

O país tem, atualmente, 35,8 milhões de eleitores, sendo que 449 mil moram no exterior. A população total é de 46,2 milhões.

Lula se pronuncia

Nesta terça-feira (14), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu declarações sobre as eleições do país vizinho reiterando a “vontade soberana do povo argentino”, mas reforçando que deseja que seja eleito o presidente que defende a democracia, a unidade com países do Mercosul e o desenvolvimento regional. 

A mensagem é um ataque direto ao candidato Javier Milei, que constantemente ataca Lula, afirma que romperá relações econômicas com o Brasil e que não sabe se manterá a Argentina no Mercosul, tendo propostas econômicas que afetam diretamente a América do Sul. 

Por outro lado, Milei é candidatura que no Brasil esteve personificada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 e 2022. Negacionismos variados, pauta econômica ultraliberal, arroubos histriônicos e doidivanas, fake news, encarnação do fascismo, militância fanática e centralizada pelo discurso de ódio.

Elementos que aproximam Milei e Bolsonaro, fazendo com que Massa seja a única saída para a Argentina não mergulhar em desgraça, tal como Lula foi para o Brasil em 2022, mas com o diferencial de que por aqui o petista precisa recuperar o país dos quatro anos bolsonaristas de completo caos.

Das Paso até aqui 

Desde as Primárias, Abertas, Simultâneas e Obrigatórias, as Paso, que aconteceram no dia 13 de agosto, e definiram os candidatos que concorreram às eleições presidenciais, Massa e Milei, com Bullrich tendo boas chances, eram os favoritos a substituir o atual presidente, Alberto Fernández.

Sergio Massa é um político de direita que no âmbito do peronismo, nos últimos anos, se deslocou ao centro, mas afastado do kirchnerismo – uma feição mais atual do peronismo. É o atual ministro da Economia, responsável pelas renegociações dos empréstimos feitos pelo ex-presidente Maurício Macri junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI), o que tem sido fundamental para o governo conter o aumento da inflação.  

Javier Milei é um economista ultraliberal, que se autointitula anarcocapitalista libertário, e chegou ao meio político há poucos anos, trazido pela onda de extrema direita que assola a América Latina e o mundo. Pretende dolarizar a economia argentina, acabar com o Banco Central e romper relações com o Brasil, a China e o Vaticano por “não negociar com comunistas”. Macri o apoia neste segundo turno, assim como outros neoliberais argentinos.  

A Constituição da Argentina

A Constituição da Argentina estabelece nos artigos 97 e 98 que para vencer o segundo turno, o candidato precisa obter mais votos que seu rival, independentemente dos percentuais ou da diferença que um tenha do outro, pois com apenas um voto pode vencer neste tipo de eleição.

O voto é obrigatório para quem consta nos cadernos eleitorais e tem entre 18 e 70 anos. Contudo, para os jovens de 16 e 17 anos, bem como para os adultos com mais de 70 anos, o voto é facultativo.

Caso o eleitor não tenha participado das eleições do dia 22 de outubro, poderá votar no segundo turno, pois é um direito e obrigação. No entanto, terá de justificar a sua ausência nas eleições de 22 de outubro antes de 21 de dezembro.

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Renato Santana

Renato Santana é jornalista e escreve para o Jornal GGN desde maio de 2023. Tem passagem pelos portais Infoamazônia, Observatório da Mineração, Le Monde Diplomatique, Brasil de Fato, A Tribuna, além do jornal Porantim, sobre a questão indígena, entre outros. Em 2010, ganhou prêmio Vladimir Herzog por série de reportagens que investigou a atuação de grupos de extermínio em 2006, após ataques do PCC a postos policiais em São Paulo.

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