Os fantasmas dos Libertadores da América, por Felipe Bueno

Com esperança e remorso, San Martín e Bolívar analisavam as consequências da declaração de Maduro sobre a posse do Território Essequibo.

Os fantasmas dos libertadores da América

por Felipe Bueno

         San Martín e Bolívar, curtindo um eterno repouso no plano astral, não estavam nem aí para o que acontecia no Maracanã dias atrás. Suas atenções voltavam-se mais para o norte. Num misto de esperança e remorso, analisavam, um pouco sem acreditar, as consequências da declaração de Nicolás Maduro sobre a busca pela posse do Território Essequibo.

         A Venezuela anunciou recentemente que irá fazer em dezembro um referendo consultivo cujo objeto é a anexação de uma terra que considera sua, ainda que em litígio, mas que a Guiana entende fazer parte de seus domínios.

         A área em questão fica entre o país de Maduro e os vizinhos a leste. É um território de aproximadamente 160 mil quilômetros quadrados, hoje pertencente à ex-possessão britânica, mas reivindicado há tempos pela Venezuela.

         Uma das razões pela disputa é velha conhecida de quem estuda a geopolítica: o petróleo.

         Como bônus, uma população de cerca de 120 mil habitantes.

         O debate sobre a posse do território se insere no contexto de descolonização da América Latina. Estamos no século XIX, as coroas Espanhola e Holandesa se retiram pela porta dos fundos, o Império Britânico, já tão atuante nas sombras, assume o protagonismo dos que verdadeiramente mandam e pagam as contas. A época é de muitas mudanças, idas e vindas, desenhos e redesenhos territoriais, acertos e desacertos entre homens de gabinete, encontros e desencontros entre os poderosos e os sem poder.

         A arbitragem britânica das fronteiras nacionais não satisfaz o lado venezuelano. Seguem-se a norte-americana e a italiana. Continua o desacordo. Já estamos no século XX, duas guerras mundiais passadas e o território continua sendo um pedaço hachurado no mapa da América Latina. A palavra final cabe agora às Nações Unidas, que, em procedimento conhecido, conserva a pendência em alguma gaveta por décadas. O tema hiberna, despertando de tempos em tempos por algum levante popular ou por algum incômodo diplomático que dura dois ou três dias no noticiário.

         Pois estamos em 2023, quase 2024, e a Venezuela, sossegada da vida, sem problemas urgentes para resolver, vai buscar em acordos contestados e ignorados mais um motivo para ser desprezada por seus costumeiros detratores – talvez até consiga novos.

         San Martín e Bolívar, que permanecem observando perplexos, olham para o lado e veem passar uma triste e apequenada figura de farda. Era Leopoldo Fortunato (!) Galtieri, o homem que perpetrou a Guerra das Malvinas. A figura se vai, mas a substância de que é feita segue assombrando o ar. Lá e aqui.

Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.

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Observatorio de Geopolitica

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