10 de junho de 2026

As razões do fracasso da contraofensiva de Zelensky, por Valdir Bezerra

O atual conflito no Leste Europeu assumiu características de uma autêntica "guerra de atrito", em que o fator tempo favorece os russos.
Presidência da Ucrânia - Divulgação

do Observatório de Geopolítica

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Da esperança à ilusão: as razões do fracasso da contraofensiva de Zelensky na Ucrânia

por Valdir da Silva Bezerra

Em vez de reconsiderar sua política intensamente hostil em relação à Rússia, o Ocidente há algum tempo abraçou a perspectiva de que o desfecho do conflito na Ucrânia seria a derrota russa no cenário militar. No entanto, diante do fracasso da contraofensiva em Kiev, a suposta vitória proclamada por Zelensky revelou-se nada além de uma narrativa fictícia.

Assim, os planos que Washington e a União Europeia adotaram no ano passado para derrotar a Rússia por meios militares mostraram-se uma desconexão significativa com a realidade. Enquanto isso, as populações de vários países ocidentais já estão exaustas de arcar com as consequências do ativismo atlanticista incorporado a essa luta sem propósito contra Moscou. A contraofensiva da Ucrânia, iniciada durante o verão europeu, enfrentou inúmeros desafios e obstáculos que contribuíram para seu claro insucesso.

Em primeiro lugar, o atual conflito no Leste Europeu assumiu características de uma autêntica “guerra de atrito”, em que o fator tempo favorece os russos. Isso se deve ao fato de a Rússia, com uma população três vezes maior que a da Ucrânia e uma economia dez vezes mais robusta, dispor de recursos internos suficientes para manter a defesa de seus novos territórios por um período indeterminado. Além disso, as sanções impostas a Moscou não surtiram efeito na queda da economia do país. Putin saiu mais fortalecido e sua popularidade aumentou desde fevereiro de 2022.

Em segundo lugar, a Ucrânia encontra-se completamente à mercê de assistência estrangeira, principalmente dos Estados Unidos, tanto financeira quanto militarmente. Sem esse apoio, o governo em Kiev não dispõe dos recursos necessários para sustentar suas operações no território. Tornar-se, assim, um protetorado dos Estados Unidos no Leste Europeu não representa uma saída particularmente honrosa para um país que inicialmente buscava libertar-se do “domínio opressivo de Moscou”.

Em terceiro lugar, o desencadeamento do conflito entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza teve um impacto emocional muito mais significativo para as principais potências ocidentais. Nos Estados Unidos, em particular, pareceu que o foco no conflito na Ucrânia foi completamente deslocado da agenda principal, o que é claramente desfavorável para Zelensky. Mesmo que haja uma resolução rápida para o conflito em Gaza – o que é improvável – os ucranianos continuam presos em um impasse militar, incapazes de conquistar avanços territoriais significativos.

Mesmo assim, a busca por um acordo para interromper as hostilidades não tem sido considerada como opção por Zelensky, que persiste na insistência de vencer os russos no campo de batalha, independentemente dos custos envolvidos. Como resultado, a Ucrânia enfrenta um aumento no ônus econômico e nas perdas humanas. Além disso, surgem vozes políticas nos Estados Unidos questionando desvios de recursos enviados a Kiev nos últimos meses. Desde o ano passado, a capital ucraniana tem lidado com desafios significativos relacionados à corrupção, má gestão e ineficiência na utilização dos vultosos montantes em dólares recebidos do Ocidente. Essas questões prejudicam a imagem da elite governante e militar do país e sobretudo do senhor Zelensky.

Resumidamente, pode-se afirmar que o conflito se encontra em uma fase de estagnação, e a única solução viável é uma negociação política entre russos e ucranianos para encerrar as hostilidades. Para a Ucrânia, à medida que o impasse persiste e as baixas militares aumentam diariamente, a imagem de Zelensky como ‘defensor das democracias’ e ‘herói do Ocidente’ vai perdendo o seu ar da graça. A verdade é que se tornou evidente a futilidade dessa guerra por procuração que o Ocidente iniciou contra a Rússia a partir de fevereiro do ano passado, uma esperança virou ilusão.

Valdir da Silva Bezerra é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estatal de São Petersburgo, na Rússia. Membro do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais sobre Ásia da Universidade de São Paulo (NUPRI-GEASIA). Pesquisador do Grupo de Estudos Sobre os BRICS da Faculdade de Direito da USP (GEBRICS-USP). Colaborador do Grupo de Estudos sobre a Rússia (PRORUS) da Universidade Federal de Santa Catarina. O autor também é colunista oficial da Sputnik Brasil. Desde o ano passado, Valdir Bezerra vem atuando em paralelo como comentarista político convidado para os canais Jovem Pan, Band News e Record News. Algumas de suas matérias e opiniões podem ser encontradas em publicações como: Folha de São Paulo, Valor Econômico, O Antagonista, Crusoé e Jornal GGN, no qual também escreve como colunista convidado.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Observatorio de Geopolitica

O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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