Maira Vasconcelos
Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN. Escreve crônicas para o GGN, desde 2014.
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Por que a Argentina de 2023 pariu o fenômeno Milei?, por Maíra Vasconcelos

Hoje e, principalmente após a pandemia, as demandas sociais são outras e Milei e o movimento "libertário" souberam captar essa insatisfação

Por que a Argentina de 2023 pariu o fenômeno Milei?

por Maíra Vasconcelos

Por que a Argentina de 2023 pariu o fenômeno Milei? Essa pergunta tem gerado uma infinidade de tentativas de entendimento da sociedade argentina. É o que se lê em diversos meios de comunicação locais: uma tentativa de encontrar respostas para a ascensão da extrema direita, dos discursos pró-mercado, anti-casta e anti-Estado e, como já se viu em outros países da América Latina, como no Brasil dos anos Bolsonaro, um discurso de ódio. O plano de governo do minarquista Javier Milei é o que eles chamam também de “plano motosserra”, devido às propostas de ajuste e recorte extremos da estrutura estatal. E não se pode negar que seja uma boa construção de metáfora. Se hoje é o Estado que está no centro do debate público, juntamente com as discussões sobre a validade e utilidade ou não dos planos sociais, os subsídios que são entregues às populações em situação de vulnerabilidade, e, consequentemente, tudo o que envolve as condições de trabalho. E, para completar essa lista de demandas e reclamações sociais, a inflação e o câmbio, a brutal desvalorização do peso argentino, nos últimos anos, em relação ao dólar, que vale ao redor de $1.000 pesos, no câmbio paralelo. A sociedade argentina, hoje, como se tem dito em diferentes artigos e materiais de jornal, está atenta a essas questões. Principalmente, os jovens que têm lidado com a realidade abjeta dos trabalhos precarizados. Pois, se, há vinte anos, as questões relacionadas aos direitos humanos, julgamento dos repressores envolvidos diretamente no desaparecimento e morte de pessoas durante a ditadura cívico-militar argentina (1976-1983), contribuíram para a ascensão do movimento kirchnerista, hoje as demandas e descontentamentos são outros.

Javier Milei e o movimento libertário, através da aliança “La Libertad Avanza”, que se apresenta como favorito para as eleições de amanhã, 22 de outubro, souberam captar esses ruídos que se voltam, agora, na voz de uma multidão que canta fervorosamente canções de futebol passadas em letras políticas, em uma arena de show repleta, ambientada ao estilo rock and roll, como foi o encerramento de campanha do libertário, na última quarta-feira, 18 de outubro. Neste dia, pela primeira vez, o candidato leu seu discurso, que durou ao redor de uma hora, e foi visto com óculos de leitura. Milei atuou como presidente, mas no caso de um segundo turno, prefere que seja com o atual ministro da Economia, Sergio Massa, da aliança peronista “Unión por la Pátria”. Essa predileção é também uma amostra da maior crise do peronismo, dos últimos vinte anos. Já que 70% do eleitorado, nas eleições Primárias de 13 agosto, votou contra o atual governo.

E seguindo as tentativas de leitura sobre o fenômeno libertário, Milei interpreta não somente a “escuridão dos homens ressentidos com o feminismo”, mas, além disso, tem conseguido canalizar um desejo de mudança que passa da frustração à esperança, ao menos para uma parte da população, escreveram Pablo Semán e Nicolás Welschinger, no ensaio “11 teses sobre Milei”, publicado na revista Anfibia. Uma das propostas de Milei é fechar o atual ministério da Mulher, Gênero e Diversidade e destinar esses recursos ao ministério de Segurança e Defesa, que ficaria a cargo da candidata a vice-presidente Victoria Villarruel, que defende uma releitura sobre a repressão e genocídio perpetrado pela ditadura argentina, segundo a teoria dos dois demônios, que equipara as ações das guerrilhas armadas de esquerda contra o regime ditatorial com a estrutura estatal de desaparecimento sistemático e morte de pessoas.

Outro fator que explicaria a popularidade avassaladora de Milei é que o “libertário” soube aproveitar melhor que qualquer outro candidato aquilo que vinha sendo gestado durante a pandemia, “a rejeição da crise econômica e a ausência de perspectivas”, ideia ventilada na mídia argentina pelo editor do Le Monde Diplomatique, José Natanson, na edição de outubro, “La ilusión de vivir sin Estado”. “Com promessas simples e facilmente decodificáveis, muito aptas a viralização nas redes sociais e os vídeos de Tik Tok, o libertário conseguiu capitalizar o descontentamento geral e encarnar as ânsias sociais de um recomeço profundo, um desejo de choque”, escreveu Natanson.

Sobre os discursos de campanha de Javier Milei, e estratégias de campanha, chama a atenção o fato de o candidato ter ignorado, de certa forma, a principal representante do peronismo, a vice-presidente Cristina Kirchner, pois não a criticou e não a confrontou publicamente, diretamente, em nenhum momento, ao menos, até as vésperas do pleito. Agora, todas as demais conclusões sobre o fenômeno que representa Milei, quando o candidato parece estar presente onde haja um wifi, já que sua campanha e popularidade podem ser, em boa parte, explicadas pelas comunidades de redes sociais, tudo o que possa ser avaliado e analisado sobre a ascensão da ultradireita “libertária”, ficará para após a votação deste domingo. 

Maíra Vasconcelos – jornalista e poeta, mora em Buenos Aires, publica artigos sobre política argentina no Jornal GGN e cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. 

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Maira Vasconcelos

Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN. Escreve crônicas para o GGN, desde 2014.

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