5 de junho de 2026

Raul Castells assume incentivo a saques na Argentina em meio a eleições, Brics e FMI

“Somos nós que estamos a incentivar porque o governo retirou o fornecimento de alimentos de 11 milhões de crianças”, disse Castells
Casa Rosada, sede do governo da Argentina. Foto: Wikipedia

A Argentina está vivendo uma onda de saques a supermercados e lojas principalmente em cidades da região metropolitana de Buenos Aires. Pelo menos 200 pessoas foram presas. Os saques ocorrem desde o último dia 18 chegando à noite desta quarta-feira (23). 

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Em meio ao processo eleitoral, com o primeiro turno marcado para o dia 22 de outubro, em que o extremista de direita Javier Milei concorre como vencedor das prévias, o governo lida com a inflação descontrolada: o IPC, principal índice de preços, passa de 110% nos últimos 12 meses. 

Até agora, apenas uma pessoa assumiu a responsabilidade pela organização dos saques, conforme o jornal Pagina 12: Raúl Castells, de 70 anos, um ativista político argentino, que já coordenou a ocupação de um restaurante da franquia McDonald’s pedindo 50 mil combos para crianças carentes. 

“Somos nós que estamos a incentivar (os saques) porque o governo retirou o fornecimento de alimentos de 11 milhões de crianças”, disse Castells, 70 anos, em entrevista ao canal 7 de Mendoza. Castells já está formalmente acusado criminalmente por instigar a violência. 

Castells tem uma tendência a promover atos políticos com alcance midiático e que associam problemas reais do país, como a desigualdade, por exemplo, a ações controversas capazes de mobilizar pessoas sem âncoras ideológicas. Na Argentina, é visto como um político pitoresco, sem ideias esmerilhadas.

De acordo com relatórios oficiais divulgados pelo governo em coletivas de imprensa, foram 150 tentativas de saques e 94 pessoas detidas em bairros da periferia da capital. Na cidade de Mendoza, 66 foram presas durante os atos e em Córdoba, 23, conforme a promotoria local.     

Poder Público 

O jornal Pagina 12 informa que o ministro da Economia Sérgio Massa anunciou que haverá indenização aos comerciantes que sofreram roubos. “Instruímos o Ministério da Indústria para que cada um dos comerciantes afetados nas províncias sejam ressarcidos”, disse. 

Massa também explicou que haverá injeção financeira de pelo menos 7 milhões de pesos para que o comércio recupere o capital de giro perdido, além de outras medidas econômicas para o país enfrentar a inflação. “O Estado tem que dar capacidade de resposta e proteção aos trabalhadores vítimas de um crime”, disse. 

“Falsas denúncias e falsas imagens”, assim qualificou uma parte da onda de saques o governador de Buenos Aires, Axel Kicillof. Ele esteve em uma reunião com prefeitos e informou que muitos comerciantes estão fechando mais cedo e outros passam o dia todo “com as persianas fechadas”.

Kicillof informou que os excessos relatados foram cometidos por “grupos bastante marginais” e “movimentos espontâneos, caseiros”, tendo por base a informação dos demais prefeitos. O governador entende mais como um efeito de contágio, um clima rarefeito que acabou incentivando os atos de violência.

Patricia Bullrich, candidata às eleições de outubro, aproveitando a oportunidade, saiu para pedir diretamente o estado de sítio. Bullrich, por sinal, estava no governo em 2001, no chamado corralito, quando o desastre das políticas econômicas neoliberais levaram a um estado de sítio na Argentina. 

Milei, o candidato mais votado nas primárias de 13 de agosto (30% dos votos), “é trágico ver novamente depois de 20 anos as mesmas imagens de saques que vimos em 2001. Pobreza e saques são duas faces da mesma moeda”, compartilhou nas redes sociais.

Boatos e pânico

Mensagens circularam em diversos pontos do país relatando saques que até agora não existiram. Pelo WhatsApp, o pânico foi espalhado por todo o país, aumentando ainda mais os efeitos dos saques que de fato ocorreram. Até mesmo anúncios prévios de ações criminosas fizeram comércios fecharem ampliando o prejuízo econômico.  

A jornalista argentina Karina Micheletto relata em sua coluna que nas redes sociais imagens falsas passaram a ser compartilhadas, mesmo com imagens antigas ou de outros países, fazendo a população tomá-las como recentes. 

Em Córdoba e em Buenos Aires, nas áreas de Avellaneda e Once, homens passavam anunciando que saques iriam começar. Em La Plata e Moreno, os próprios policiais disseram aos comerciantes que não poderiam garantir a segurança deles e o melhor era que baixassem as portas. 

“Coquetel denso que remete aos tempos sombrios do país marca esses dias pré-eleitorais, com a ajuda da mídia. Comerciantes e prefeitos permanecem em alerta e há destacamentos policiais especiais devido ao medo de que à noite os atos de violência se repitam”, escreve Micheletto.

Profecia autorrealizável 

Ao contrário do que foi levantado pelo governo federal através da porta-voz presidencial, Gabriela Cerruti, que culpou diretamente La Libertad Avanza como instigadora dos crimes, o governador de Buenos Aires não fala em motivação política partidária. 

No entanto, avisou sobre uma série de “circunstâncias marcantes” reveladas: a sincronização dos acontecimentos ao entardecer, os disparos permanentes desde cedo com falsas denúncias, a gestão de redes, falsas cadeias de WhatsApp, com mensagens bem armadas, alarmes disparados em sincronia.

Ao Pagina 12, disse: “Não temos provas para acusar. Mas é a profecia autorrealizável: você fica o dia todo alimentando que vai haver um quilombo, e isso acaba acontecendo”, analisa. 

Kicillof se questiona a quem beneficia o sentimento de caos semeado após a PASO, no dia em que a Argentina receberá o desembolso do Fundo Monetário Internacional (FMI), que trará alívio econômico. “Você chega às causas (respondendo às perguntas), ou pelo menos aos instigadores”, concluiu.

Segurança Nacional

Na mesma linha, o ministro da Segurança Nacional, Aníbal Fernández, garantiu que os incidentes “não são espontâneos”, embora tenha esclarecido que o governo federal não dispõe de “dados fiáveis” sobre quem os instigou. 

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Renato Santana

Renato Santana é jornalista e escreve para o Jornal GGN desde maio de 2023. Tem passagem pelos portais Infoamazônia, Observatório da Mineração, Le Monde Diplomatique, Brasil de Fato, A Tribuna, além do jornal Porantim, sobre a questão indígena, entre outros. Em 2010, ganhou prêmio Vladimir Herzog por série de reportagens que investigou a atuação de grupos de extermínio em 2006, após ataques do PCC a postos policiais em São Paulo.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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