Venezuela, por Angelita Matos Souza

A integração é o caminho para o fortalecimento da América do Sul.

do Observatório de Geopolítica

Venezuela

por Angelita Matos Souza

Aos cinquenta dias de governo Lula, escrevi neste espaço sobre a política externa brasileira, texto no qual defendi o posicionamento do presidente Lula, recém-eleito, diante da deposição de Pedro Castillo no Peru. Argumentei que devido ao cenário político de apreensão em torno da possibilidade de atos golpistas da parte do bolsonarismo (que ocorreram em 8 de janeiro), era acertado condenar a tentativa de Castillo de fechar o Congresso. Entendia que se tratava, acima de tudo, de se posicionar em defesa da preservação do regime liberal-democrático no Brasil.

Com relação à democracia brasileira, o cenário de fragilidade, para mim, permanece igual. Por isso, não vejo sentido no tratamento dado ao presidente da Venezuela pelo presidente Lula. Absolutamente desnecessário, deu balas aos inimigos e desconsiderou a “narrativa” de que o país viraria uma Venezuela se Bolsonaro fosse reeleito. Não parece boa ideia, implicitamente, dizer que era apenas uma “narrativa” para se ganhar a eleição, não condizente com a realidade no país vizinho.

Infelizmente, o contexto exige do governo brasileiro a condenação de toda e qualquer autocracia na região e fora dela, incluídos países sobre os quais há controvérsia se o regime é ou não democrático. Para mim, a suspeita já é suficiente para não se defender o governo, ou ao menos para não se tocar no assunto. Também não parece boa ideia ficar cutucando os EUA, honrando seus inimigos, afinal o Império desestimulou golpismos por aqui. Basicamente, seria mais oportuno não cutucar a onça com vara curta, sobretudo quando o Brasil não tem nada a ganhar com isso.

Afora essa confusão envolvendo o presidente da Venezuela, que produziu reações dos presidentes do Uruguai e Chile, tudo o que o presidente Lula disse e propôs acerca da integração regional foi correto. A integração é o caminho para o fortalecimento da América do Sul.

Obviamente que o governo está de olho no mercado sul-americano para produtos industriais brasileiros, a integração entra neste pacote, é meio, não fim. Mesmo assim, ou por isso mesmo, é defensável. Neste sentido, estou entre os que acham mais interessante focar no fortalecimento do Mercosul, ampliando o número de países membros, do que dispersar energias com a Unasul.

Por fim, conquistar/reconquistar mercados na região, para a indústria brasileira, em consonância com o “projeto de neoindustrialização”, implicaria em competir com a China. Algo difícil, mas quem sabe os EUA possam ajudar, usando o Brasil para diminuir a expansão da influência chinesa no “seu quintal”. Não estou defendendo o alinhamento acrítico com os EUA, e sim o pragmatismo, ser/parecer amigo, porém “negócios à parte”.  E aí não há por que renunciar a parcerias com a China, muito pelo contrário.

Voltando à Venezuela, todo barulho causado ainda trouxe à tona a dívida que o vizinho tem com o Brasil, mas o presidente Maduro prometeu retomar os pagamentos. Se isso ocorrer, será ótimo, poderemos construir outra “narrativa”: a de que o presidente Lula foi muito sagaz.


Angelita Matos Souza – Docente no IGCE-UNESP e pesquisadora no IPPRI-UNESP.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. A publicação do artigo dependerá de aprovação da redação GGN.

Observatorio de Geopolitica

1 Comentário

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  1. Nassif, com todo o apreço que tenho por você e seu trabalho, penso que esse artigo não mereceria publicação aqui. Penso que nossa “midia alternativa” tem de ser bem rigorosa quanto a (craseado) qualidade do que publica, pois seu papel na formação de uma “massa critica” (acento agudo no primeiro “i”) tem sido – e deve continuar sendo – fundamental para a evolução politica (acentuar “politica”, por favor) dos brasileiros. Contamos com muita gente boa que não tem voz, então, por que razão…? E sobre a Venezuela melhor seria ouvir o Igor Fuser… Do muito que haveria a dizer, lembro apenas que Lula dispõe de um excelente consultor para assuntos internacionais… E que, por outro lado, a atitude dos presidentes de Uruguai e Chile foi diplomaticamente arqui-equivocada! (Desculpe, computador sonegando acentos).

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