A aposta no futuro, com teimosia e esperança!, por Ana Laura Prates

A obra de Adriana Varejão realiza em ato a aposta do filósofo e epistemólogo da imagem Georges Didi-Huberman em seu último livro “Imaginar, recomeçar”.

A aposta no futuro, com teimosia e esperança!

por Ana Laura Prates

Escrevo ainda sob o impacto da exposição retrospectiva de Adriana Varejão, “Suturas, Fissuras, Ruínas” na Pinacoteca do Estado de São Paulo. O conjunto de sua obra reescreve de modo contundente a história da construção do Brasil enquanto nação, ao mesmo tempo em que esboça a radicalidade de uma saída que inclua o furo na imagem plana e linear que temos de nós. Em um momento tão terrivelmente dramático de nossa história, o encontro com essa fenda renova nossa aposta no futuro. Como ela mesma diz em uma entrevista: “Minha ferida serve para profanar a história contada pelos vencedores, que têm o estatuto da verdade, para revelar uma história que leva em conta outra narrativas, sob a superfície e à margem da história oficial […] A própria ferida exposta e sua sutura nos levam para essa dimensão de uma história rasurada que esconde outras histórias, reais ou imaginadas”. Eis uma perspectiva de memória muito próxima àquela de Walter Benjamin, para quem a verdadeira tarefa do historiador seria a criação de “arquivos sucata”, feitos de restos, dejetos e trapos da história oficial.

Um exemplo contundente deste ato ético e estético de desconstrução e reconstrução da imagem aplainada pela narrativa bidimensional é sua releitura da obra “Tiradentes esquartejado” de Pedro Américo (1893). Com podemos acompanhar pela curadoria da exposição: “Varjão se valia da ideia de espelhamento de uma imagem ausente, que precisava ser recomposta pela memória do observador”. Nessa fragmentação corporal e anti-especular do corpo de Tiradentes, é nossa própria história de colonizações, traições e golpes que vemos estilhaçada, nos impondo o ato ético num olhar de reconstrução que inclua o vazio e a ausência radical de representação. Algo semelhante ocorre em suas obras que impõem a ferida e a sutura nas clássicas cenas de nossa iconografia colonial e racista que constituem nosso imaginário de nação.

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A obra de Adriana Varejão realiza em ato a aposta do filósofo e epistemólogo da imagem Georges Didi-Huberman em seu último livro “Imaginar, recomeçar”. Em entrevista à revista Marianne , ele diz que a esperança procede de um desejo em direção ao futuro, ao qual, entretanto, é necessária uma memória: “a esperança não se desenvolve verdadeiramente sem um fundo de um saber histórico”. Citando o incrível trabalho de Ernest Bloch “O princípio esperança” , Didi Huberman aponta para a ética do recomeço em momentos radicais de desespero, “pelas crianças, pelos outros”. Eu diria: uma aposta radical na humanidade.
Bloch eleva a esperança à dignidade do ato. Sua tese é a de que a esperança afoga a angústia na medida em que ela “não cede a última palavra ao fracasso”. Bloch propõe o teatro – mas poderíamos incluir aí a literatura, as artes plásticas e a música – como paradigma do que chama de “decisão tomada”. E ele acrescenta: “O ciúme de Otelo não vacila e não pode ser pensado de outro modo em todas as suas consequências e situações uma após a outra; tampouco o vacilam a ‘piedade’ matriarcalmente herdada e mantida de Antígona, a ‘razão de Estado’ de Creonte, que se tornou socialmente dominante. Nestes casos, os conflitos são inevitáveis. E apontando o anacronismo da base da comoção trágica sustentada no medo e na compaixão, ele propõe tratá-los com teimosia e esperança, “afetos trágicos na relação revolucionária, e eles não capitulam, frente ao chamado do destino”.

Nesse momento de nosso país, que estejamos, assim como Adriana Varejão, à altura da chamada do nosso destino enquanto nação: uma aposta radical no futuro, com teimosia e esperança, mas não sem a memória da fenda!

Ana Laura Prates é dona de casa, psicanalista, escritora, editora e ativista. Membro do Campo Lacaniano e Pesquisadora da UNICAMP.

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1 Comentário

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Angélica de Moraes

- 2022-07-25 12:27:46

Aplaudo de pé o comentário de Ana Laura Prates sobre a obra de Adriana Varejão. Competente e exata. Como é raro os veiculos digitais da esquerda analisarem a produção de artes visuais do país... Este é o primeiro que vejo o no Jornalggn. Parabéns à autora e ao editor. Será que a esquerda finalmente está perdendo o ranço de achar as artes visuais "elitistas e decorativas"? Essa é uma imensa falha de percepção em um pais que dispõe de nomes de grande relevância internacional exatamente fazendo arte de conteúdo de critica politica. Não confundir com obras panfletárias, que estas de um modo ou outro, ainda sensibiliza os movimentos progressistas e antifascistas. Falta letramento visual, gente!

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