A longa ditadura brasileira, por Eduardo Rivas e Rodrigo Medeiros

Blog argentino analisa cenário brasileiro: 'golpe jurídico, parlamentar e midiático que depôs a Presidente Dilma revelou os sentimentos de revisionismo histórico em relação à ditadura'

Bolsonaro e Moro durante evento militar. Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

Do blog Príncipe del Manicomio

A longa ditadura brasileira

Em seu livro ‘À sombra das ditaduras: democracia na América Latina’, editado pelo Fundo de Cultura Econômica, em 2011, o cientista político francês Alain Rouquié resume os grandes dramas da região. No entanto, ele afirma que a república prevaleceu sobre a democracia desde o século XIX. A herança colonial da hierarquia e da segregação étnica não se dissipou em contato com os valores liberais.

O Brasil, apesar de sua colonização portuguesa, se assemelha com algum atraso à evolução republicana da América Latina. De acordo com Rouquié, “em um estado onde a escravidão não foi abolida até 1888, o negro está na base da escala social”, já que “a ideologia oficial da democracia racial camuflou por muito tempo um racismo”. cordial O caminho meritocrático continua sendo uma forma de ação. Em sua primeira experiência republicana (1889-1930), o coronel, o chefe político local, privatizou o poder público na ordem oligárquica marcada pela violência contra as minorias e a fraude eleitoral.

O “coronelismo” foi modernizado e urbanizado em meados do século XX. Até hoje a máxima é ouvida que a justiça é para os amigos, mas a lei é para os inimigos. O Brasil foi um caso de democracia oligárquica, com recaídas de ciclos autoritários ao longo do século XX. Suas instituições tendem a operar seletivamente. Rouquié afirma que “no Brasil, o presidente Goulart foi deposto, em abril de 1964, não tanto em virtude das tímidas reformas básicas para as quais ele esperava modernizar gradualmente a sociedade brasileira, mas também pelo fato de que esse ex-ministro do Trabalho era suspeito de colusão. com os sindicatos e as ligas camponesas nascentes. Não devemos esquecer que o mundo estava passando pelo período da Guerra Fria e o sucesso da revolução em Cuba (1959) acendeu o alerta em Washington, que não aceitaria mais mudanças de influência na América Latina.

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As classes conservadoras brasileiras acusaram o presidente de “subversão da ordem” no contexto de uma “guerra revolucionária comunista” e de procurar estabelecer uma “república sindicalista”, razões mais do que suficientes para as elites tentarem deslocar Goulart do governo. Não havia sido o bastante cortar seu poder implantando o parlamentarismo, o mal tinha que ser arrancado pela raíz, então após o retorno ao presidencialismo, o destino de Goulart foi lançado.

Em vinte e um anos a ditadura civil-militar brasileira censurou, exilou, matou e torturou cidadãos, brasileiros e sul-americanos, pois nos anos setenta era parte ativa do chamado Plano Condor que envolveu as ditaduras da Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai, Bolívia e Brasil, pela troca de informações, repressores e detentos. A longa vida da ditadura foi dada pelo apoio comercial de setores da classe média cooptados com bons empregos públicos e privados. A transição para a democracia seguiu o modelo espanhol do Pacto de Moncloa. Uma transição lenta e gradual, incluindo uma ampla e irrestrita anistia, que também incluía torturadores, fez com que a democracia voltasse gradualmente à vida cotidiana.

Segundo Rouquié, as novas democracias da América Latina são sempre herdeiras dos regimes anteriores, “às vezes seus prisioneiros”. Segundo as informações apresentadas em seu livro, no Brasil, em 21 anos de ditadura, 300 assassinatos políticos, 125 “desaparecidos”, foram revelados 1.843 casos de tortura. Na Argentina, com uma população cinco vezes menor, entre 1976 e 1983, 8.960 ‘desaparecidos’ foram contados nos campos de detenção clandestinos da ditadura segundo os registros da CONADEP. No Chile, depois de 11 de setembro de 1973, 3.014 pessoas foram executadas pelas forças de repressão e 27.000 foram torturadas durante o período do general Pinochet.

A continuidade entre a ditadura brasileira e o regime democrático pode ser notada na polícia militar dos estados federados, que continuam como forças auxiliares das Forças Armadas. A polícia brasileira está entre as que mais matam no mundo. Em uma sociedade brutalmente desigual, onde a pobreza tem cor de pele, não leva muito tempo para entender quem são os que mais morrem no Brasil.

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Atualmente, muitos intelectuais brasileiros acreditam que a democracia está sob a tutela militar e jurídica. O golpe jurídico, parlamentar e midiático que depôs a Presidente Dilma Roussef em 2016 revelou os sentimentos de revisionismo histórico em relação à ditadura de 21 anos e, talvez, o exemplo mais claro é o atual presidente que, quando votou pela deposição de Dilma, na época como deputado federal, afirmou “perderam em 1964, perderam em 1946. Pela família, a inocência das crianças em sala de aula, que o PT nunca teve, contra o comunismo, pela nossa liberdade e contra o Forum São Paulo, pela memória de coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor da Rousseff, o exército de Caxias, as Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e Deus acima de todos, o meu voto é sim”.

Recorrentemente o atual presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, de extrema direita, elogia a ditadura e os notórios torturadores. Bolsonaro é o produto do sistema político brasileiro e da recessão econômica que começou no segundo trimestre de 2014. Não se deve esquecer que a operação Lava Jato, suprapartidistas, revelou esquemas de corrupção no período que coincide com a recessão, algo que enfatizou o humor popular contra a política e os políticos. O discurso populista não tardaria a emergir.

O clímax dessa ação aconteceu pelo porta-voz da Presidência, General Otávio Rego Barros, quando dias atrás disse que “o presidente não considera a março 1964 golpe militar de 31, mas a sociedade civil e os militares, percebendo o perigo o país vivia naquele tempo, se juntaram para reposicionar o curso” acrescentando que “sem isso teríamos um governo que não seria bom para ninguém”, assim informou a população que o presidente Bolsonaro “determinou o Ministério da Defesa para fazer as comemorações devidas em relação a 31 de março de 1964, incluindo uma agenda”. Mas não é só o presidente, a deputada Joice Hasselmann, que está auto-intitula no Twitter como “A MAIS VOTADA DA HISTÓRIA DA CÂMARA PARLAMENTAR”. Jornalista, biógrafo fazer Sergio Moro, criadora do maior canal de política do YouTube do Brasil, se manifestou na mesma linha afirmando que a proposta do presidente “é retomar a verdadeira narrativa nossa história. Orgulho brasileiro”.

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Após 55 anos do golpe civil-militar que implantou uma ditadura de 21 anos no Brasil, é possível refletir sobre como o passado está vivo no presente. No final, a retirada do Partido dos Trabalhadores (PT) do governo federal foi operada por políticos envolvidos em denúncias de corrupção, para os quais alguns estão respondendo à Justiça e outros foram presos nos últimos tempos. O PT errou ao aceitar dançar de acordo com as regras do jogo da política brasileira e não procurar aprofundar políticas progressistas no período de prosperidade econômica. Havia timidez por parte de seus líderes, como se o partido tivesse encontrado uma fórmula capaz de superar as eleições e implementar gradualmente as políticas sociais necessárias. Infelizmente, os enclaves autoritários permaneceram no processo de redemocratização dos anos 80, bem como na insensibilidade social histórica das elites brasileiras.

Ainda há muito a ser feito, pela democracia, pelo Brasil e, fundamentalmente, pelos brasileiros e brasileiros.

*Eduardo Rivas é cientista político argentino, autor do blog Príncipe del Manicomio e mestre em Integração Regional pela Universidade de Coruña.
*Rodrigo Medeiros é colunista do Jornal GGN

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1 comentário

  1. As pessoas precisam esperar um tempo até que se apure os processos espúrios da lava jato para ver quem, de fato, esteve envolvido na corrupção da Petrobrás. A meu ver, não são são suspeitos apenas os processos contra Lula.

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