Joao Furtado
João Furtado, economista, especialista em temas ligados à indústria e às políticas para o desenvolvimento. Casado, 62 anos, tem 3 filhos.
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Como os 40 anos de retardo industrial podem conspirar contra a estabilidade, e como evitar

O debate econômico brasileiro é muito acirrado e ainda mais entrincheirado. Nem é preciso exemplificar, tão evidente é a proposição.

Como os 40 anos de retardo industrial (e produtivo) podem conspirar contra o crescimento com estabilidade (de preços, mas não só), e contra a própria estabilidade, e como evitar a armadilha

por João Furtado

O título longo anuncia o tema e dispensa a costumeira apresentação. Mas o texto procura construir uma ponte entre as políticas intervencionistas e aqueles que defendem políticas mais pautadas pela modéstia do que pela ambição, deixando ao mercado ou à iniciativa empresarial e capitalista o principal das decisões de ordem econômica, relegando o Estado e as políticas governamentais para funções tópicas e, em todos os casos, de corte horizontal e mais neutro (ou não-setorial). Espero que ao final o resultado não seja um misto de excomunhão e indiferença.

  1. Não é só a macroeconomia

O debate econômico brasileiro é muito acirrado e ainda mais entrincheirado. Nem é preciso exemplificar, tão evidente é a proposição. E as exceções à regra ainda não conseguiram construir as pontes, os fluxos e as hibridações de ideias e proposições.

O entrincheiramento abarca muitas dimensões fundamentais do funcionamento da economia e das políticas para manejá-la. Tenho afinidades com um certo campo de ideias, refratário (ou mesmo resistente) a várias outras. Mas reconheço que algumas das principais proposições que defendo dependem tanto da persuasão daqueles que pensam diferentemente quanto de algumas inflexões e ajustes dos que pensam de maneira aparentemente mais parecida. No meu próprio campo teórico, pequenas nuanças são também divisores. Os afastamentos e as barreiras aparecem em muitos temas, mas ficamos aqui em um grupo enfeixado na estabilidade e o crescimento.

O conjunto de políticas que podem ajudar o Brasil e sair do pântano em que se encontra paralisado, lutando contra aflições imediatas e sem conseguir enxergar minimamente o futuro, que dirá construí-lo, dependem de ações cujos resultados dependem de continuidades mais longas do que qualquer mandato presidencial, mesmo que renovado após 4 anos. Por isso, é fundamental construir alguns consensos, dentro do campo desenvolvimentista e com aqueles que pensam que o mercado deve liderar os processos, se não ter a exclusividade. Sem alguma concordância e assentimento teremos resultados econômicos modestos, ciclos políticos turbulentos e movimentos erráticos e descontínuos.

Talvez fosse útil voltar aos anos 1980 para estabelecer os elementos de interpretação do colapso do crescimento brasileiro e a transição para uma economia de baixo crescimento e descontinuidades pronunciadas. Mas para as finalidades deste texto breve não é necessário. Imprescindível é estabelecer que tantos anos de crescimento reduzido, com movimentos que vão do claudicante ao atolamento, produziram efeitos duradouros sobre o sistema econômico e as suas estruturas produtivas. Esta proposição não costuma receber a merecida e necessária atenção e isso não vai sem consequências, tanto em termos da apreciação de nossas dificuldades quanto em relação à formulação de políticas.

A consequência da derrocada do modelo brasileiro de crescimento acelerado desde o final dos anos 1970 foi o enraizamento de uma progressivamente forte aversão ao investimento, deflagrada pelo destino que tiveram alguns dos principais campeões[1] do II PND (1975-1979). Ela foi se implantando desde pelo menos as recessões de 1981 e 1983 e ganhou contornos mais fortes com a crise do Plano Cruzado (1986). Todos os grandes episódios dos anos 1990 (Plano Collor, Plano Real e desvalorização de 1999) reforçaram comportamentos justificadamente avessos ao investimento e manifestamente voltados para a rentabilização de ativos existentes com incrementos mínimos. Afinal, investimentos são alocações de riqueza (própria ou de terceiros) que terão ou não retornos ao longo de períodos 10 ou 20 anos; e rupturas ou descontinuidades fundamentais são traumáticas para as projeções de futuro. Não se trata de oscilações ou movimentos cíclicos típicos das economias de mercado capitalistas, porque o que a economia brasileira conheceu desde o final dos anos 1970 foi muito além dessa rotina dos mercados.

Quando esses eventos extraordinários se tornam recorrentes, as expectativas passam a ser mais conturbadas e portanto a contemplar o que podemos designar como prêmios de risco proporcionalmente mais elevados: só promessas de rentabilidade acrescidas podem vencer os temores e motivar decisões de investimento e raramente esses investimentos foram de monta. A exceção principal são os investimentos voltados para os mercados externos, quando a competitividade da empresa e o seu setor estão alicerçados em vantagens substanciais[2].

Foi essa a dinâmica que foi se instaurando e reforçando ao longo dos anos 1980 e 1990, tornando qualquer uma das tantas arrancadas prometidas pelos formuladores de políticas uma petição de ofício que logo seria desmentida. Nem os anos de crescimento entre meados do primeiro mandato do presidente Lula e os primeiros anos do primeiro mandato da presidente Dilma reverteram a aversão a esta conversão de recursos financeiros em capacidades de produção. Exceções como as indústrias extrativas minerais e a celulose são só isso; e seu caráter excepcional pode ser explicado pela combinação de uma competitividade bastante autônoma (relativamente insularizada) e uma inserção internacional preponderante (em mercados de demanda crescente).

Contrariando uma das teses mais entranhadas entre os economistas do campo heterodoxo e keynesiano, com o qual eu teria em princípio maiores afinidades, argumento que não basta dar vigor à demanda para encetar e manter um ciclo de expansão. Pelo menos, um ciclo de expansão que, não importa tanto onde venha a ser deflagrado, venha a ser irrigado por investimentos em volume suficiente e ritmo adequado para gerarem sustentação da dinâmica consumo-investimento e se transforme em investimento-consumo. O impulso inicial de demanda, sem a propulsão do investimento e seus efeitos, não apenas não seria suficiente como demandaria, para produzir resultados, esforços crescentes por parte das políticas públicas promotoras de demanda.

Existem impedimentos aos investimentos para além daqueles que decorrem da instabilidade ou das restrições da esfera macroeconômica. E são esses impedimentos que precisam ser identificados e removidos por políticas públicas e ações coordenadas entre a esfera pública e os setores empresariais. Nem os esforços de políticas públicas ousadas, nem as ações empresariais pulverizadas poderão enfrentar e vencer os desafios impeditivos do crescimento e mais ainda do desenvolvimento. Por quê?

O resultado da recorrente e prolongada aversão ao investimento é o reforço de uma característica muito perversa: um sistema produtivo que agora reluta em investir não apenas por temer as descontinuidades da trajetória ou a instabilidade dos parâmetros fundamentais (como câmbio e juros), mas também em razão da atrofia das suas capacidades competitivas. Dito de outro modo, a indústria não investe agora porque no passado não investiu e o hiato de competitividade tornou-se um impedimento para a sustentabilidade e a viabilidade de novos projetos. Se foi a macroeconomia (instabilidade, inflação, câmbio, juros) que travou os investimentos, agora não será a macroeconomia que poderá relança-los, porque a insuficiência dos investimentos gerou efeitos estruturais nas empresas, nos padrões de competição e portanto nas capacidades empresariais de criarem bons projetos e investimentos vigorosos e sustentáveis. Investimentos pontuais, com desgargalamentos, atualizações de linhas de produtos, ampliações incrementais, lançamentos de novos produtos – isso é o máximo que fazem as empresas industriais da maioria dos setores. Muitas vezes o fazem a contragosto, pois teriam preferido as alternativas preponderantes da fuga de capitais para os mercados financeiros e as atividades protegidas da concorrência externa. Mas precisam fazê-lo porque a conservação de suas posições competitivas depende de algum esforço, mesmo que ele seja apenas muito modesto.

Quando é a macroeconomia (demanda, juros, câmbio, expectativas) o determinante do travamento ou da letargia dos investimentos, os instrumentos macroeconômicos podem propiciar a sua superação. Instrumentos como os que o governo do presidente Lula utilizou em seus mandatos anteriores podem ser necessários, úteis e valiosos. O Programa Bolsa-Família, o aumento do salário mínimo, o crédito consignado, os investimentos públicos somaram-se ao crescimento das exportações de commodities (sobretudo para a China) para dar um alento à economia e propiciar vários anos de taxas de crescimento mais elevadas do que a média anterior (desde os anos 1980) e uma redução da taxa de juros pode contribuir para alguma restauração conjuntural (como se espera que ocorra, por exemplo, a partir de 2024). Mas não houve, mesmo naquele período de alívio, um espraiamento substancial dos estímulos tornando-os capazes de transformar aumentos de demanda em decisões de aumento de capacidade produtiva. Se isso ocorreu, outros fatores impediram que ocorresse um fluxo de investimentos vigoroso.

Em muitos setores, sobretudo na indústria de transformação, os estímulos da demanda converteram-se no máximo em investimentos pontuais, desgargalamentos, modernizações parciais; e várias empresas preferiram recorrer a importações para suprirem os aumentos de demanda, evitando os compromissos longos (e mais arriscados) do investimento. Mantiveram os seus mercados, mas não assumiram os custos e os riscos dessa decisão tão sensível que é apostar contra as incertezas pronunciadas do futuro. Isso é compreensível, em termos privados, mas destrutivo em seus resultados coletivos, agregados. Porque o aumento da demanda só se prolonga com os estímulos dos investimentos. São eles o grande impulso para a sustentação da demanda[3], como são também o elemento que eleva a produtividade e a competitividade de empresas, setores, cadeias e do sistema econômico em seu conjunto. Seja por razões estritamente macroeconômicas, seja pela natureza dos processos competitivos que enseja, é o investimento a variável-chave que rompe o ciclo rotineiro e lança a economia em um outro movimento. Mas enquanto as razões macroeconômicas são vistas e debatidas em todos os campos interpretativos, as razões de natureza estrutural, relacionadas ao funcionamento das empresas e do sistema econômico, permanecem uma variável dependente, que irá responder de forma mais ou menos automática aos estímulos de demanda.

O fenômeno do não-investimento da economia brasileira neste século não é novo, mas intensificou-se. Ele foi amplamente reconhecido durante o período de crescimento dos dois decênios anteriores, quando a expansão da demanda, alimentada por políticas públicas expansionistas e o crescimento das exportações, traduziu-se mais em crescimento das importações do que em aumento da produção brasileira. Após os anos recentes de instabilidade e múltiplas descontinuidades, a situação ter-se-á agravado. Esperar investimentos substanciais do setor privado é, a nosso juízo, ingênuo; e acreditar que a política macroeconômica poderá relançá-los por meio dos seus efeitos indutores só irá acrescenta frustração. A aversão aos investimentos é, em geral, para um grande número de setores, sobretudo da indústria, fortemente enraizada. E a crença em movimento diferente já custou caro ao Brasil em termos econômicos e políticos.

Qual é a consequência dessa situação para a estabilidade econômica? A mais grave é a profusão de comportamentos imediatistas e fortemente oportunistas. Se as empresas não pretendem realizar investimentos substanciais para suprir os aumentos de demanda (e com isso fazerem involuntariamente crescer a própria demanda), preferirão aproveitar as circunstâncias que se oferecem momentaneamente para obterem lucros ocasionais. Podem fazê-lo recorrendo a fontes de suprimento de produção externas (terceirização da produção, importações), ou por meio de ajustes de preços sem qualquer aumento de oferta. Em ambos os casos terão esterilizado os estímulos do aumento da demanda tirando o máximo proveito financeiro das condições que acreditam serem efêmeras. Desgraçadamente, se muitas empresas agem com base na crença de que as condições são fortuitas, assim serão elas, porque o resultado agregado é fortemente condicionado por essas ações empresariais com peso agregado substancial.  

Nesta situação, o resultado para a economia pode ser exatamente o inverso daquele que se verifica em um ciclo mais normal, em que se produzem efeitos encadeados entre demanda agregada e o investimento e entre investimento e demanda agregada. Em um ciclo típico, sem atolamento das empresas e travamento dos investimentos, os desajustes momentâneos entre demanda (crescente) e oferta (limitada) podem ensejar aumentos de preços, mas também alimentam investimentos, portanto aumentos de oferta, e consequentemente reduções subsequentes desses mesmos preços. Quando uma empresa cogita um investimento, mesmo que ele esteja principalmente motivado inicialmente por considerações de natureza keynesiana, (ou seja, em razão de aumentos efetivos de demanda ou aumentos de demanda esperada), ela imediatamente cogita lastrear esse investimento em considerações de natureza industrial capazes de conferir à nova produção e à própria empresa vantagens adicionais. Pode ser um produto melhorado, pode ser uma linha de produtos inteiramente nova, pode ser uma forma de produzir modificada (pontual ou substancialmente) – a nova capacidade de produção será também uma produção transformada. Este elemento adiciona ao investimento um elemento novo: o acicate da competição. Se uma empresa investe para aumentar a capacidade de produção, ela fortaleceu as suas armas competitivas, mas se ela aumentou a sua capacidade produtiva em bases renovadas ou novas termos de tecnologias, então ela estará provocando necessariamente respostas análogas das demais empresas. Rivais poderão eventualmente esperar para ver se aumentos de oferta foram de fato justificados, mas os riscos de esperar para ver os efeitos de um acréscimo de produção renovada ou transformada e de produtos novos é simplesmente elevado demais para não suscitarem respostas equivalente e tempestivas. Por isso, o investimento motivado e desencadeado pelas considerações keynesianas (ou seja, “dadas as condições de produção”) desloca-se rapidamente para uma situação de motivações também de natureza técnica e produtiva, quer dizer, schumpeterianas. E isso contribui para que o feixe mimético de investimentos induzidos pela conjugação de efeitos de demanda e de mudança produtiva contribua para intensificar a competição e produzir ajustes de preços para baixo.

No ciclo com investimentos limitados (insuficientes), ao contrário, os aumentos de preços podem propagar-se e intensificar-se, tanto pelos desequilíbrios entre oferta e demanda quanto pelos comportamentos oportunistas. Por isso, se a política econômica e as decisões empresariais de investimento não se harmonizam para desencadearem uma onda robusta de investimentos, o mais provável é que o surto de crescimento seja breve e interrompido por decisões privadas de um grande número de empresas de diferentes setores ou pela política econômica temerosa dos sinais inflacionários. Há aqui uma abordagem dos movimentos conjunturais que pode ter relevância para a política macroeconômica e em especial para a interpretação das ameaças inflacionárias. Crescimento limitado ou claudicante pode ser mais inflacionário do que o crescimento vigoroso e sustentado em investimentos, porque aquele induz o oportunismo que este simplesmente inviabiliza ou impede. Pode ser contraintuitivo, pode ser também difícil de receber demonstração empírica, mas deixar de considerar essa hipótese pode ter custos mais elevados do que cogitá-la e apreciar as suas possíveis consequências.

O argumento anterior sugere que os estímulos macroeconômicos não serão suficientes para propiciar um ciclo expansivo mais vigoroso e duradouro. Mesmo que os estímulos de demanda sejam necessários para recompor as condições de normalidade (também) na economia, e são, eles são insuficientes, porque perdem vigor com a ruptura entre aumentos de demanda e decisões de investimento. É esta a divergência principal que este argumento estabelece com relação à visão keynesiana pura: os estímulos de demanda não bastam. Colocando o argumento nos termos da visão keynesiana, podemos dizer que o retorno esperado do investimento compara-se desfavoravelmente com a taxa de juros; mas não basta reduzir a taxa de juros, porque o retorno esperado dos novos investimentos é insuficiente por razões intrínsecas às empresas, aos setores e a muitas cadeias produtivas. E muitas delas, como também muitos dos seus clientes, preferirão recorrer a fontes externas de produção e não a aumentos de capacidade produtiva.

A tentação de uma das correntes (keynesiana) que se apoia nos estímulos de demanda para o revigoramento da economia e o crescimento sustentado é recorrer ao câmbio para estimular a competitividade, a rentabilidade e os investimentos. A desvalorização do real pode de fato ter efeitos relevantes sobre a rentabilidade dos setores mais expostos aos preços internacionais, elevando a capacidade de fixar preços acima dos custos, mas também provoca dois efeitos adversos: aumento de preços, do custo de vida e da inflação; e aumento ainda maior da rentabilidade dos setores exportadores de commodities, reforçando os estímulos à reprimarização. Por que os capitais insistiriam nas adversidades das atividades industriais expostas à concorrência internacional e às pressões competitivas dos polos industriais dominantes e emergentes se possuem um verdadeiro oceano de oportunidades no setor primário (agropecuária e extrativa mineral) ou oportunidades protegidas nos setores de serviços (energia, infraestrutura, distribuição, varejo), que as privatizações vão em ciclos regulares renovando?

A desindustrialização brasileira é mais do que um movimento de perda de importância relativa da indústria e não pode ser entendida sem o registro de que existe uma importante fuga de capitais em direção ao setor primário[4]. E essa fuga de capitais da indústria para o setor primário resulta da combinação de fatores de expulsão (da indústria), de um lado, e de atração (para outras atividades), do outro. O setor primário tornou-se- mais atraente (e rentável) pela demanda crescente das novas economias em ascensão, que deslocaram os preços para cima. O crescimento motivou investimentos, os investimentos contribuíram para o aumento da eficiência, da produtividade e da rentabilidade. Os suportes públicos do crédito muito favorecido e garantido e o provimento de infraestruturas somaram mais um degrau na escala de rentabilidade. A rentabilidade “fora da porteira” vai compensando as perdas de rentabilidade que vêm ocorrendo “dentro da porteira”, em razão do esgotamento dos pacotes tecnológicos exóticos e cujos problemas de tropicalização para as condições brasileiras vão se tornando mais e mais sérios. Os capitais fugiram e continuam a fugir da indústria porque a distância relativa com relação à fronteira elevou-se, seja pela aceleração do progresso tecnológico em um grande número de setores industriais no mundo todo, seja pelo travamento das decisões de investimento e o consequente atolamento da indústria brasileira.  

Como é que se restabelecem as condições para que o fluxo de investimentos tenha consistência, em termos de amplitude e volume? Sem o recurso à transformação produtiva que permita construir, dentro das empresas, nas cadeias produtivas, nos diferentes segmentos econômicos e sobretudo industriais, as condições de competitividade, não poderá haver um ciclo expansivo com leque amplo de investimentos. À tarefa de viabilizar a superação do travamento dos investimentos e do atolamento do sistema industrial deveria dedicar-se a política econômica, com um rol de instrumentos que vão muito além daqueles que habitualmente manejam a Fazenda e o Banco Central. Para anunciar de forma breve a sugestão, a política econômica precisa de um revigoramento do sistema produtivo, pois só a ampliação do leque de oportunidades de investimento poderá romper as barreiras que o travam e impedem o crescimento.

  • O arcabouço do relançamento

O caminho exclusivamente macroeconômico para a retomada dos investimentos baseia-se em modificações deliberadas em dois parâmetros principais – câmbio e juros – e no impulsionamento da demanda por meio de gastos públicos, sejam eles investimentos ou gastos correntes. A modificação da taxa de câmbio deveria promover o aumento das exportações e a redução das importações, com a reconquista pelas empresas que produzem localmente de fatias de mercado perdidas (para produtos importados).

O recurso ao câmbio para promover o restabelecimento da competitividade industrial é uma tentação que remete a um dos principais eventos que transformaram o modelo brasileiro – o Plano Real e o barateamento dos produtos importados no mercado brasileiro. A derrocada da indústria não começou nesse período, mas a mudança muito forte dos preços relativos dos produtos brasileiros com relação aos importados teve um forte impacto em todas as empresas de todos os setores industriais. Se nem todas sofreram o impacto com idêntica intensidade e se esses impactos foram diferentes em termos de seus efeitos paralisantes ou destrutivos, isso se deve a vários fatores, incluindo a margem de proteção representada pelos custos de internação dos produtos importados e o poder de mercado de algumas empresas e segmentos[5].

Se foi o câmbio (artificialmente apreciado) que teve o maior impacto negativo sobre a competitividade do setor industrial, não será o câmbio que poderá restabelecer essa posição competitiva. O leite derramado não volta para a garrafa. Depois de muitos anos de real apreciado, a indústria moveu-se para outra posição. Para a maior parte dos setores que reagiram de maneira estruturada e ativa, houve uma redução (variável, mas geralmente forte) da gama de produtos e de atividades realizadas internamente. Mas a maior parte dos segmentos industriais e a esmagadora maioria das empresas sofreu o impacto da redução de seu nível relativo de competitividade de forma passiva e foi recuando para posições inferiores em termos de produtos e atividades. Não será o câmbio que vai restaurar a posição anterior. Isso demandaria esforços de outra natureza.

Uma desvalorização do real para aumentar a competitividade dos setores mais atingidos pela valorização de 1994 (e a sua persistência por muitos anos) teria pelo menos dois efeitos secundários indesejados – aumento da rentabilidade do setor primário-exportador (na forma de um ganho caído do céu) e elevação dos preços de produtos importados e exportáveis (com efeitos na inflação, no custo de vida e no poder de compra). Como se reequilibra a rentabilidade relativa entre a indústria (muito voltada para o mercado interno) e as atividades de exportação (onde prepondera a produção primária e minimamente transformada) aumentando substancialmente a rentabilidade da exportação? Não parece razoável. Afigura-se pouco plausível aumentar a rentabilidade do agronegócio e da extrativa mineral, com mercados alimentados pela demanda da China e do restante da Ásia em crescimento, e pretender estancar a migração de capitais industriais para essas atividades. Mesmo que a desvalorização do câmbio eleve a rentabilidade da indústria, é duvidoso que os capitais estejam dispostos a correr os riscos da atividade industrial e da competição por mercados disputados acirradamente quando existe um imenso mercado de commodities em crescimento e no qual a posição brasileira tem avançado, até aqui, sem maiores dificuldades ou tensões. Uma desvalorização cambial tem efeitos negativos sobre o poder de compra e a última tentativa de promover um aumento da competitividade por meio da relação câmbio-salários (Delfim Netto, em 1979), desencadeou uma espiral de preços x salários que só foi contida, a custo extremamente elevado, 15 anos depois.

A taxa de juros elevada é um peso que desestrutura o funcionamento da economia e as contas públicas. Mas é provável que para a maioria das empresas nem mesmo uma redução de monta da taxa básica de juros represente um alívio substancial. A maior parte das empresas sequer tem acesso ao crédito bancário e, se tivessem, dado o nível das taxas de juros, isso seria o caminho mais rápido para a sua insolvência. Elas podem, quando muito, recorrer a linhas de financiamento para finalidades específicas (como a compra de máquinas por meio das linhas de crédito incentivadas que os bancos comerciais operam a partir de recursos do BNDES)[6] ou momentaneamente para complemento do giro ou antecipação de recebíveis. Não mais.

Quer isso dizer que uma taxa de juros reduzida tem pouco ou nenhum efeito na economia? Não, ela tem um grande efeito, mas não modifica a vida das pequenas e médias empresas. Uma taxa de juros com razoabilidade afeta sobretudo os grandes fluxos de capital e os capitais que têm migrado sistematicamente das empresas, via lucros e dividendos, para os detentores do controle das grandes empresas. Esse não é o caso das pequenas e médias empresas. Muitos dos detentores desses estoques de recursos financeiros, inclusive aqueles oriundos da vendas das suas empresas para concorrentes internacionais desejosos de participarem do mercado brasileiro sem os custos de uma entrada gradual a partir de um investimento completamente novo, têm preferido manter-se em aplicações, mas durante o curto período de taxas de juros básicas muito reduzidas eles migraram para diversas atividades, incluindo duas tão distintas como a construção civil residencial e empresas e fundos de empresas de base tecnológica (as chamadas start-ups). Mas não voltaram para a indústria. É evidente que um ciclo expansivo da construção civil afeta em consequência muitas outras atividades, tanto pelos efeitos de compras de materiais quanto pelo pagamento de salários e serviços (pessoais e empresariais). Então, indiretamente, como efeito de segunda ordem, a redução dos juros é muito importante para animar a condição da economia e de um grande número de pequenas e médias empresas. Contudo, isso não invalida a proposição de que a redução das taxas básicas de juros da economia brasileira alcança muito tenuemente as empresas de menor porte. Mais uma vez, aqui também, há uma agenda importante para viabilizar as transformações estruturais que a economia brasileira e as empresas de pequeno porte necessitam urgentemente.

  • Vetores para relançar o crescimento

O impulsionamento da demanda por meio de grandes projetos públicos (estatais) ou de investimentos (privados) direcionados pelas políticas públicas é tentador, porque o Estado possui a capacidade de definir investimentos com graus de liberdade que os investidores privados não possuem, como possui também a capacidade de oferecer aos privados compensações redutoras de riscos ou promotoras de rentabilidade. Pode o Estado, para começar, aceitar uma taxa de retorno inferior àquelas que os acionistas privados exigiriam. Pode – e na verdade, deve – incorporar à avaliação dos seus investimentos as externalidades positivas que seus investimentos são capazes de criar, um método que não encontra paralelo na lógica de avaliação das empresas privadas. Pode, também, vislumbrar horizontes temporais que são estranhos à lógica privada, mesmo de empresas de muito grandes dimensões. O projeto aeronáutico brasileiro, desde os anos 1930, ou o pré-sal, nos anos 2000, são exemplos deste alargamento dos horizontes temporais dos investimentos estatais com relação aos privados. Mas quando o investidor privado está carente de “coragem” para enfrentar os riscos ou a rentabilidade lhe parece insuficiente, o Estado também pode oferecer compensações ou garantias que permitam superar as insuficiências[7].

Os investimentos públicos são decisivos em todos os países, por diferentes razões, e no caso do Brasil essa proposição foi reforçada pelo atraso do projeto nacional e pela ambição que ele tinha. Historicamente, foram esses investimentos públicos que orientaram e deram apoio aos investimentos privados, frequentemente em articulações de complementaridade, sim, mas com liderança e primazia pelo Estado. A siderurgia, o petróleo, a energia elétrica e a petroquímica são exemplos dessa complementaridade entre público e privados, com antecipação e liderança do público (estatal). O binômio energia e transporte, que emergiu nos anos 1940 e ganhou intensidade nas duas décadas seguintes, proveu às empresas privadas as condições para a sua atuação em atividades produtivas sem necessidade de investimentos complementares em infraestruturas de uso compartilhado (pela economia e a sociedade toda). A siderurgia e a petroquímica desbravaram o terreno para investimentos da metalomecânica e de transformadores de plásticos, bem como em setores industriais que utilizam combinações de partes e peças oriundos de ambos. Além disso, esses investimentos públicos praticaram, em operação, preços que incentivaram a produção dos setores usuários (a jusante). Por ambas as razões eles são decisivos. Os investimentos públicos, por suas dimensões, conseguem estimular (por efeitos diretos e indiretos) a expansão da produção e os investimentos de muitos outros setores, mas esse encadeamento deixou de ser automático e perdeu muito de sua potência quando muitos setores foram tendo as suas capacidades de investimento reduzidas pelos déficits competitivos decorrentes de longos períodos de paralisia e recuo. Isso quer dizer que as complementaridades deixaram de verificar-se na prática e que a liderança do investimento público pode não desencadear os investimentos derivados por parte dos privados.

Retomando a fórmula empregada anteriormente, podemos dizer que muitas empresas não podem investir hoje porque não investiram no passado. E se a razão para esse não investimento no passado foi, e pode de fato ter sido, de natureza macroeconômica (instabilidade, câmbio, juros, mercados retraídos), passaram a prevalecer, depois de transcorrido um certo período de subinvestimento, razões de natureza microeconômica (plantas e estruturas empresariais) e mesoeconômica (cadeias e sistemas industriais). Depois de muitos anos sem investimentos robustos e vigorosos, prevalecem plantas com equipamentos antigos e métodos atrasados, linhas de produtos envelhecidas, relações frouxas, quando existentes, com fontes de conhecimento, tecnologia e competências para o desenvolvimento de inovações para além do incremental e muito débil em termos de efeitos concorrenciais e capacidades disruptivas. É por isso que os impulsos macroeconômicos são insuficientes e demandariam, para funcionar com alguma potência, a superação dos entraves internos às empresas.

Abertura e competitividade: a reiteração da miragem

Há receituários variados para renovar e revigorar a estrutura produtiva e o mais difundido, inclusive entre um bom número de empresários industriais e sobretudo entre ex-industriais, é o reforço da abertura comercial. Não custa recordar que esse processo iniciou-se ainda no governo do presidente Sarney, ganhou força no governo Collor, quando se tornou a bandeira principal da modernização econômica, e foi potencializado nos governos dos presidentes Franco e Cardoso, com a apreciação da moeda brasileira e o barateamento muito pronunciado das importações. Se havia resultados a serem alcançados com o recurso a esse instrumento em termos de modernização produtiva eles deveriam já estar visíveis, mas transcorridos mais de 30 anos desse processo não estão. Abertura comercial é um ingrediente importante, mas não parece entregar todos os resultados que lhe são atribuídos.

Há duas razões principais para que a abertura não entregue mais do que uma parte dos resultados que dela se espera. No caso das grandes empresas, e sobretudo aquelas de origem externa, a sua capacidade de adaptação a qualquer cenário é tão elevada que podem ajustar o mix de produtos locais e importados e as etapas de produção realizadas interna e externamente sem maiores dificuldades. O resultado da abertura tem sido no caso dessas empresas uma redução muito intensa do conteúdo nacional dos seus produtos e a elevação substancial das importações, um processo que pode ser agravado pela especialização local em produtos de gama inferior e a importação complementar de produtos-prêmio[8]. A experiência mostra que é mais fácil as grandes empresas que lideram oligopólios internacionalmente e no Brasil adaptarem-se a qualquer condição do que terem que se submeter aos desígnios de uma política voltada para lhes impor determinada orientação. Esta, quando muito, poderá ser construída de modo colaborativo, em soluções ganha-ganha.

No caso das empresas menores, ou da grande massa de empresas menores, que não possuem posições de liderança e lutam pela sobrevivência sem contarem com o arsenal de recursos e instrumentos que possuem as maiores, a intensificação da abertura sem o apoio concomitante de programas de apoio ao seu desenvolvimento significa recuo, enfraquecimento, perda de conteúdo industrial, talvez mesmo a migração para áreas obscuras em busca de oportunidades alternativas aos instrumentos competitivos legítimos, que definitivamente estão além de seus horizontes, definidos pela sobrevivência. O caminho da abertura, por importante que seja, é insuficiente; e pode ser, a depender do modo de uso e do poder de resposta do “paciente”, contraproducente. Isso vale para os segmentos de empresas poderosas tanto quanto vale para o segmento de empresas mais débeis. Em ambos os casos verifica-se uma redução do conteúdo industrial, mas no primeiro, das empresas com poder de mercado, somam-se ônus aos consumidores (finais ou intermediários) e no segundo o peso é mais social, ambiental e tributário.

Competitividade pela indústria verde

Uma das proposições que ocupa atualmente a atenção dos formuladores de políticas para a promoção do desenvolvimento é a transição verde e há muitos argumentos em prol dessa iniciativa. É sem dúvida muito importante. Mas ela possui muitas abordagens possíveis e vamos aqui, de maneira mais didática e simplificada, explorar o que parece ser a inclinação predominante. O que tem sido veiculado pela imprensa e em algumas declarações públicas revelam uma inclinação por políticas de transição energética com graus mais elevados de ousadia, incluindo o hidrogênio verde.

A transição energética da economia brasileira e sobretudo da sua indústria pode ter um grande impacto na competitividade internacional de vários importantes segmentos. Afinal, a redução da pegada de carbono pode tornar-se um fator de escolha de fornecedores por parte de muitas empresas em muitos países. O fundamento dessa proposição é que o Brasil possui importantes vantagens em termos da produção de energias renováveis e pode, por isso, limpar a sua matriz produtiva e tornar-se mais competitivo na exportação de produtos derivados. Não está totalmente claro que o Brasil possua vantagens indiscutíveis ou apenas superiores a outros países, seja na energia eólica, seja – menos ainda – na energia fotovoltaica. E os biocombustíveis, em que o Brasil construiu vantagens ao longo de quase meio século, dificilmente poderão vencer barreiras – legítimas ou não – que resultam do fato de competirem por terras e terem portanto impactos sobre a produção de alimentos. Gostemos ou não, no Brasil, o mundo todo rejeita esse caminho, que tem de fato impactos relevantes para o uso da terra. E enquanto o desmatamento no Brasil não for equacionado, quer dizer, reduzido a resquícios inexpressivos em termos de impacto, a associação entre biocombustíveis e uso inadequado da terra continuará a tolher o espaço dos biocombustíveis e a promover as alternativas.

Mas admitindo que o Brasil possa ter ou constituir vantagens importantes com relação à produção de energias mais limpas e com isso promover a competitividade de alguns segmentos industriais relevantes, é preciso avaliar se isso será suficiente para restabelecer a competitividade da indústria e do sistema industrial, quer dizer, de um conjunto suficientemente amplo e diversificado de atividades integradas, com capacidade e potência para promoverem o crescimento. A resposta que damos a essa proposição é negativa. E o fundamento da resposta foi estabelecido na seção inicial: são muitos anos de subinvestimento e eles não vão sem consequências. A estrutura industrial está muito aquém do que precisaria para poder aproveitar o impulso das vantagens advindas da energia mais limpa, com possíveis exceções em uma outra etapa produtiva a montante das principais cadeias industriais.

Por isso, sem prejuízo do apoio que a política de transição energética requer para alcançar bons resultados, é necessário reiterar que o desafio principal não é o das soluções de fronteira, mas é muito mais o da difusão de equipamentos, métodos e procedimentos que permitam a milhões de pequenas empresas de todos os setores utilizar de maneira mais racional e eficaz a energia que precisam e as soluções complementares ou alternativas que já existem.

Manufatura avançada ou indústria 4.0

Um dos caminhos promissores para o revigoramento das estruturas econômicas que por tanto tempo sofreram com investimentos insuficientes e pressões competitivas (externas) que não conseguiram ripostar tem sido apresentado como a chamada indústria 4.0 ou manufatura avançada (aproximadamente, o equivalente nos EUA ao termo alemão). É uma aposta ousada, que pretende colocar a indústria em um patamar superior – muito superior – de desempenho tecnológico e industrial, com uso de um conjunto amplo de tecnologias avançadas, ligadas à robótica e à inteligência artificial, para ficar nos dois símbolos mais facilmente reconhecidos. A indústria 4.0 é uma etapa avançada de um processo de desenvolvimento industrial que no Brasil não ocorreu ou ocorreu em uma dimensão muito limitada (em abrangência) e superficial (com relação à intensidade). Por isso, muito poucas empresas estão razoavelmente preparadas para um impulso da envergadura do requerido por este estágio do desenvolvimento industrial e essa aposta, sem uma sequência bem elaborada de etapas intermediárias, estará a nosso juízo fadada a resultados frustrantes. Também aqui o caminho preparatório é indispensável antes que se possa pensar, com realismo, em uma adesão vigorosa ao modelo 4.0 ou manufatura avançada.

Uma eventual concentração de esforços nessa iniciativa acarretaria um descolamento de algumas poucas centenas de empresas com relação à base industrial de centenas de milhares de empresas de todos os tamanhos e condições. A economia brasileira, e a indústria, possuem já grandes assimetrias de desempenho e poder econômico entre os segmentos concentrados e os pulverizados; e o avanço de algumas empresas em direção aos modelos 4.0 ou manufatura avançada promoveria uma ampliação das distâncias e um reforço das assimetrias de poder. Por isso, se o vértice superior das empresas (maiores e dos principais setores) pretende fazer um movimento vigoroso em direção à fronteira, é melhor que isso ocorra sem o patrocínio de políticas públicas. Estas deveriam concentrar-se na criação de condições para o desenvolvimento de competências das centenas de milhares de empresas com acesso muito limitado a recursos para a sua transformação. É desse esforço, a ser promovido por políticas públicas, que poderá resultar, em um segundo tempo, uma estrutura apta e motivada para o avanço que hoje poucas seriam capazes de conseguir. 

Este documento argumenta que a formulação de políticas para o desenvolvimento brasileiro – crescimento com mudanças estruturais – deve concentrar-se na promoção de melhorias, avanços e transformações no maior número possível de empresas, de todos os setores. Grandes empresas, e sobretudo aquelas que ocupam posições de comando ou liderança de setores oligopolizados, possuem recursos próprios que podem mobilizar para fazerem os seus movimentos em direção aos novos paradigmas – sejam eles a produção mais limpa ou a manufatura avançada (ou indústria 4.0), mesmo que em casos de natureza experimental o poder público possa energizar a decisão privada com estímulos adicionais aos que o mercado produz. Centenas de milhares de empresas na indústria e na construção civil, assim como milhões de estabelecimentos na agricultura e nas atividades extrativas vegetais, e ainda milhões de empresas nos setores de comércio e serviços possuem acesso limitado ou nulo aos instrumentos públicos de apoio ao seu desenvolvimento – e é para elas que os esforços devem dirigir-se.

Há quem pense e sustente que as pequenas e médias empresas não são mais do que projetos fracassados de empresas (que não cresceram). A evidência internacional, incluindo a de países industrializados avançados (como a Alemanha, por exemplo), não cansa de nos mostrar a importância decisiva das empresas de pequeno e médio porte para o dinamismo e a consistência do sistema econômico e a competitividade da indústria. Haverá também quem argumente que a proposição da concentração do apoio ao desenvolvimento nas empresas de pequeno porte resvala no paternalismo, o que não corresponde à realidade que o mundo nos apresenta. O extensionismo é uma prática difundida em muitos países e é praticado de modo muito ativo e com grande número de profissionais técnicos na agricultura dos países mais populosos – a China e a Índia – sem que sejam desmerecidos ou recebam acusações de paternalismo. 

Mas não é por senso de justiça ou atração pelas empresas de pequeno e médio porte que a proposição está voltada para elas. É fato que elas possuem papeis relevantes no sistema econômico. O crescimento pode esbarrar em suas dificuldades de expandirem de maneira harmoniosa (e não inflacionária) a sua oferta de produtos e serviços. Por isso, para assegurar que o crescimento, quando ele se apresentar, não esbarra em ameaças à estabilidade, é fundamental preparar o terreno e criar as condições para que as respostas sejam tempestivas e adequadas.

Na seção seguinte este argumento é desenvolvido e são apresentadas proposições concretas.

  • Revigorar o sistema econômico e industrial

A indústria cumpriu ao longo da história um papel decisivo no desenvolvimento brasileiro, mas perdeu progressivamente vigor ao longo dos últimos 40 anos. A restauração do papel central da indústria brasileira no desenvolvimento pode beneficiar-se de uma política macroeconômica adequada e dos estímulos ao investimento do BNDES, mas ambos, mesmo que possam funcionar a contento, são insuficientes.

A indústria não pode esperar a bóia de salvação da macroeconomia, porque ela própria tem outras demandas, e algumas são conflitivas com aquelas que contribuiriam para a reindustrialização. Não é portanto pelo câmbio, nem pelos juros, nem mesmo por apoios temporários e transitórios – é transformacional, de dentro das empresas, modificando substancialmente as suas condições de produção.

As empresas industriais possuem atrasos com relação à fronteira internacional, muitas pequenas e médias empresas possuem grandes insuficiências e deficiências e raramente possuem acesso a elementos de apoio que lhes permitam superar as dificuldades da sua condição. Produto de muitas adversidades prolongadas, as insuficiências e deficiências não podem ser resolvidas “de fora para dentro”.

O programa delineado neste breve documento destina-se a resgatar o vigor da indústria brasileira (e a sua capacidade de estimular outras atividades) com um esforço próprio de elevação da produtividade. Para isso, lança mão de instrumentos capazes de modificar com rapidez as condições internas de funcionamento das empresas.

Encadeamentos

A taxa de investimento no Brasil é baixa, e na indústria de transformação é ainda mais reduzida. A macroeconomia hostil explica uma parte, mas o legado é uma aversão ao investimento: hoje, as empresas investem pouco porque a sua rentabilidade tornou-se insuficiente. E mesmo que a macroeconomia se torne mais benigna, há receios consolidados. Por isso, quando há ciclos de expansão, as vendas crescem mais do que a produção (importações suprem). Por isso, sem investimento, os ciclos de expansão são sempre curtos e não se sustentam. É o investimento que dinamiza de modo prolongado o crescimento. Sem as decisões empresariais de avançar em novas capacidades, sem os encadeamentos que a competição desencadeia, o crescimento é sempre entrecortado e não se sustenta.

A retomada do investimento exige o soerguimento da base da indústria, com eficiência, qualidade e produtividade. Poderá haver investimentos industriais disseminados (mas de pequena monta) quando houver saúde econômica e financeira nas empresas, mas isso depende em grande medida da produtividade. Só depois que as empresas, em sua generalidade (há exceções), restabelecerem as suas bases produtivas em patamares superiores é que haverá investimentos industriais disseminados e de maior monta.

Nenhuma macroeconomia benigna substitui este esforço produtivo, embora possa ajudá-lo.

Antecedentes – breve histórico

Inspirada pela observação de programas de melhoria contínua desenvolvidos por grandes empresas, que buscavam permanentemente formas de elevar sua produtividade, a Confederação Nacional da Indústria criou em 2014 o projeto-piloto Indústria+Produtiva. Seu objetivo era adaptar a lógica dos programas de aumento de produtividade das grandes empresas à realidade de PMEs e estabelecer uma metodologia que pudesse ser escalada para um grande número de empresas.

Os resultados do piloto foram significativos e os recursos limitados aportados (custo médio de R$ 18.000,00, financiados parcialmente pela CNI) promoveram aumentos de produtividade médios de 42% e efeitos positivos em todas as empresas engajadas.

A experiência-piloto bem sucedida do Indústria+Produtiva levou o MDIC a lançar,  em 2016, o Programa Brasil Mais Produtivo (B+P), executado pelo Senai, com apoio da Apex e da ABDI. Em cerca de 2 anos, com um orçamento de R$ 50 milhões, o B+P atendeu 3.000 empresas industriais de quatro setores  (alimentos e bebidas, metalmecânico, móveis e vestuário e calçados) em todos os estados do Brasil.

Em 2019, o Ministério da Economia avaliava positivamente o B+P, mas alegava que era muito modesto por atender apenas 3.000 empresas. Diante disso, declarou a intenção de atender entre 100.000 e 200.000 empresas. As dificuldades operacionais e financeiras para viabilizar um programa destas dimensões fizeram com que, entre o fim do B+P, em 2018, e o lançamento do seu sucessor, o “Brasil Mais”, a indústria brasileira ficasse quase dois anos sem um programa de apoio ao aumento da produtividade. Adicionalmente, na tentativa de compatibilizar um número de atendimentos extremamente ambicioso com um orçamento reduzido, a metodologia foi alterada, reduzindo drasticamente a quantidade de horas e eliminando aspectos que haviam sido fundamentais para o sucesso do I+P e do B+P.

Na concepção inicial, testada pelo piloto, existe um conceito fundamental que não poderia nunca ser perdido ou deturpado: o envolvimento efetivo dos trabalhadores, do chamado chão da fábrica, com participação ativa em termos de capacitação e desenvolvimento contínuo de habilidades e competências. É fácil perceber que isso só pode ser assegurado com a melhoria progressiva das relações laborais. Também é fácil constatar que as relações laborais melhoradas ajudam a criar ambientes mais colaborativos e propícios para o surgimento de ideias novas e melhorias contínuas horizontalmente e de baixo para cima.

Linhas gerais do Programa

O Programa reúne ações dirigidas às pequenas e médias empresas para elevação da produtividade. Pretende retirar as PMEs do abandono em que se encontram em termos de apoios públicos ativos, levando-lhes informação e conhecimento técnico, criando vínculos com profissionais e instituições capazes de promover o seu desenvolvimento.

O leque de instituições de ensino e pesquisa criadas no plano federal e dos estados neste século elevaram substancialmente a capacidade de formação de recursos humanos. As Escolas Técnicas dos estados e os Institutos Federais elevaram substancialmente as capacidades das universidades federais e estaduais. É um imenso potencial, sem dúvida, mas é preciso dar-lhe missões complementares, que não apenas não conflitam com a missão básica como a reforçam e enriquecem: a criação de vínculos duplos, de ida e volta, entre o potencial científico e tecnológico e os mundos da produção e das atividades sociais, comunitárias e governamentais. Além das ações promovidas a partir das instituições públicas, o programa deve incluir profissionais e instituições credenciadas.

Tal como vem sendo feito pelos pilotos ou etapas anteriores de programas assemelhados, é importante pensar em subvenção parcial, além de um esforço de divulgação dirigido, a partir dos organismos oficiais do governo federal.

Uma estimativa preliminar do alcance do programa atinge 50 mil empresas em 4 anos (5, 10, 15, 20), com evolução progressiva. O custo total (4 anos, 50 mil empresas) seria de R$ 500 milhões, a maior parte dos quais mobilizáveis a partir de programas existentes.

Ações típicas, em larga escala

As ações características que precisam ser implementadas nas empresas desdobram-se em seis eixos principais:

Produção enxuta: a chamada produção enxuta (“lean manufacturing”) oriunda do modelo nipônico de produção apresenta ganhos de eficiência e produtividade e prepara as empresas para avanços encadeados (por exemplo, manufatura avançada);

Eficiência energética: ganhos imediatos para as empresas, por redução de custos. Troca de equipamentos com retorno curto. Aumento da disponibilidade de energia. Redução de demandas por projetos novos de geração;

Remoção de gargalos: aumentos de capacidade de produção com investimentos módicos;

Renovação de linhas de produtos: oportunidades para a melhoria de produtos e o desenvolvimento de produtos inovadores;

Certificações: implantar selos que permitam criar diferenciações capazes de conferir visibilidade aos esforços;

Inovações: desenvolvimento de novos produtos e processos, em especial aqueles que possam gerar novas dinâmicas competitivas.

Entidades envolvidas – alargamento com foco

Todas as ações propostas podem ser endereçadas a partir de instituições e instrumentos existentes e metodologias testadas e verificadas.

Evidentemente, a coordenação (mas não a execução) cabe ao MDIC. A Secretaria de Comunicação deveria protagonizar o papel de divulgação, para assegurar a adesão das empresas.

Os ministérios e demais instituições mencionadas podem agregar-se progressivamente ao programa e os exemplos mencionados aqui são mais ilustrativos do que demonstrativos.

O Ministério da Educação, por meio dos Institutos Federais de Tecnologia, ocupa um lugar central no programa, por meio de estágios, imersões e laboratórios abertos. É comum que se pense no conhecimento aprisionado nas instituições de ensino e pesquisa, mas nem sempre se reconhece que esse conhecimento nem sempre está pronto para o “mundo”. as conexões em sentido duplo entre as instituições e as unidades de produção e serviços (incluindo públicos) é uma forma de adensar as comunicações e criar uma dinâmica nova entre elas. Ao lado dos IFTs, há uma vasta rede de Escolas Técnicas nas UFs, bem como universidades estaduais e federais. O Ministério do Trabalho poderá ser mobilizado para produzir o arcabouço jurídico das relações de trabalho entre os estudantes e profissionais e as empresas & instituições conveniadas no processo. Estes esforços ampliam substancialmente o que as entidades da indústria (como o SENAI) pode fazer sozinho ou isoladamente.

O Ministério da Fazenda, por meio da Secretaria da Receita Federal, possui um programa de apoio às micro e pequenas empresas para temas ligados à tributação que mobiliza centenas de núcleos em universidades do Brasil todo. Estes núcleos podem alargar a sua atuação para temas de gestão (cursos de administração) e de produtividade (cursos de engenharia).

Ainda no âmbito da Fazenda, pode ser valioso que o BB e a CEF promovam a incorporação da adesão ao programa em suas  avaliações de risco. isso não seria uma concessão gratuita e condescendente, seria um critério efetivo de ganha-ganha, pois o programa é de fato redutor de riscos.

Os instrumentos para apoiar este programa existem em diferentes instituições e podem ser mobilizados. Bolsas da CAPES e do CNPq, no plano federal, nas FAPs, nas UFs, podem direcionar a formação de pessoas e o enriquecimento das instituições e das empresas com problemas novos e soluções adaptadas. Os Fundos Setoriais, dos quais a Finep é a Secretaria Executiva, igualmente podem mobilizar recursos cativos para apoiar o programa, em completa aderência a suas missões precípuas. O mesmo vale para o Funtel (o único que não é gerenciado operacionalmente pela Finep). Agências como a ANEEL e a ANP podem, com recursos existentes e de origem compulsória, reforçar o programa integrando os seus recursos e ações.

Diversos outros ministérios e agências podem aderir com vantagens recíprocas ao programa. Nas cidades, os temas do urbanismo, da habitação e do saneamento podem ganhar efetividade com o apoio de ações promotoras de produtividade, seja nas atividades construtivas, seja em materiais e equipamentos. O mesmo vale para a fabricação de equipamentos e soluções para a agricultura de pequenos produtores, sob a alçada do MDA, onde os fabricantes podem beneficiar-se de elevações de produtividade.

Todos estes organismos podem colaborar para a amplitude e a intensidade do programa, mas nenhum deles possui um papel destacado. A adesão pode ser progressiva. O orçamento também pode ser encorpado ao longo do tempo.

Há muito que as políticas de outras esferas possam fazer pela indústria. O orçamento da saúde pode revigorar diversos segmentos industriais, como o Ministério das Cidades, dos Transportes e da Energia podem também. Uma taxa de câmbio adequada e acesso ágil ao crédito também podem contribuir para o desenvolvimento da indústria. Mas a indústria tem que fazer esforços consistentes e permanentes para se alçar a novo patamar de desempenho e responder aos impulsos de uma economia revigorada com aumentos de produção e de produtividade, fonte de prosperidade compartilhada. É a esse propósito que este documento se dirige.


[1] Os grupos empresariais que seriam os grandes alicerces do II PND, Bardella, Vidigal e Villares, soçobraram mergulhados nas dificuldades que a derrocada do projeto lhes impôs.

[2] Isso explicaria investimentos substanciais como os da mineração ou da celulose produzida por florestas plantadas.

[3] Tratar aqui do efeito acelerador.

[4] Esse movimento iniciou-se ainda no final dos anos 1970, com a derrocada do II PND, e ganhou intensidade sobretudo nos anos 1990. O boom de commoditiees deste século deu grande vigor e amplitude à migração e capitais. O nascimento da grande campanha institucional de consagração do agronegócio na sede da federação dos industriais de São Paulo é um indicador de que o capital industrial encontrou refúgio e talvez isso nos autorize a pensar que muitos industriais desistiram da indústria.

[5] Um só exemplo: aproximadamente 14 mil empresas de transformação de plásticos dependem de uma única empresa para o fornecimento da sua principal (ou única) matéria-prima.

[6] Os bancos comerciais, incluindo os dois grandes bancos públicos, utilizam esses recursos especiais de forma relutante, porque deixam para isso de utilizar (e rentabilizar) os seus próprios recursos. Mas não o fazem sem custos para as empresas, pois impõem-lhes contrapartidas de fidelização e cobram-lhes margens (spreads) elevadas, além de vender-lhes produtos e serviços complementares. Um dos melhores produtos para empresas de pequeno porte foi criado pelo BNDES, mas os bancos comerciais que estabeleceram parceria com o banco público e oferecem o produto – o chamado Cartão BNDES – aos seus clientes o fazem de forma muito relutante.

[7] Um tronco ferroviário pode acumular demanda em velocidade mais lenta do que aquela que seria necessária para alcançar o ponto de equilíbrio financeiro, caso em que o poder público pode induzir que o investimento seja realizado garantindo antecipadamente a receita mínima equivalente àquela demanda.

[8] O exemplo mais emblemático é o da indústria de automóveis.

João Furtado, economista, especialista em temas ligados à indústria e às políticas para o desenvolvimento. Casado, 62 anos, tem 3 filhos.

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Joao Furtado

João Furtado, economista, especialista em temas ligados à indústria e às políticas para o desenvolvimento. Casado, 62 anos, tem 3 filhos.

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