Relembre entrevista a Gore Vidal: Raio X do Império Americano

Para Gore Vidal, a América está nas mãos das grandes companhias, daquele um por cento que tem 70 por cento da riqueza e que exerce sobre o povo um controle de pensamento, enquanto vai dando aos seus servos mais leais empregos como, por exemplo, Presidente dos Estados Unidos.

do blog de Gilberto Cruvinel, em post de 2015

TEXTO DO PÚBLICO A 05/08/1998

Entrevista a Gore Vidal: Raio X do Império Americano

por JOÃO CARLOS SILVA

do Público

Ronald Reagan combateu a União Soviética chamando-lhe o “Império do Mal”. Para Gore Vidal, o “Império do Mal” não desapareceu com a queda do comunismo: está bem e vive nos Estados Unidos da América, onde foi criado há 50 anos, no momento em que foi liquidada a velha e boa república. Mas claro que há-de ter o seu fim. Tudo tem o seu fim, como a raça humana, que pode muito bem ser uma coisa passageira sobre a terra. Uma conversa cheia de optimismo.

Na quarta-feira, na Gulbenkian, Gore Vidal traçou o pior cenário para uma Europa pós-moeda única: “Implica a cobrança de impostos comum, o que levará à constituição de uma força policial comum, e, finalmente, no longo prazo, a uma tirania.” Ontem, em entrevista ao PÚBLICO, o escritor norte-americano alongou-se sobre um país onde “a democracia não existe”, os Estados Unidos da América. Onde há meio século foi criado o verdadeiro, o autêntico “Império do Mal”.

Para Gore Vidal, 72 anos, ensaísta, romancista, dramaturgo, actor de cinema ocasional e ocasional candidato ao Congresso, a América está nas mãos das grandes companhias, daquele um por cento que tem 70 por cento da riqueza e que exerce sobre o povo um controlo de pensamento, enquanto vai dando aos seus servos mais leais empregos como, por exemplo, Presidente dos Estados Unidos.

1. O Império
PÚBLICO — Na sua descrição da História recente dos Estados Unidos, há dois períodos: a “boa república” e o “mau império”, que é aquele que existe hoje. É possível definir um “momento zero” em que se passa de um para o outro, ou há raízes?
Gore Vidal — Tudo tem antecedentes. Se quisermos definir a origem do Mal podemos recuar até ao Jardim do Éden e à serpente. Tecnicamente, foi tomada uma decisão, que foi a de [depois da Segunda Guerra] não desarmar, como nós, e os russos, tínhamos começado a fazer. Ao fim de algum tempo estávamos a rearmar os alemães e a criar uma nova Alemanha Ocidental. Fomos nós que dividimos a Alemanha, não foram os russos.
Em Potsdam [perto do fim da guerra], Harry Truman recebe a notícia de que a bomba atómica funciona e agora sabe que temos tal poder que não precisamos de Estaline, que não queremos que ele entre na guerra com o Japão. Assim, começamos a quebrar todos os acordos feitos em Ialta, embora mantenhamos uma boa fachada, mas de facto a divisão da Alemanha começa em Potsdam.
Resume-se tudo a isto: o telegrama chega a Potsdam e ele sabe que temos esta arma todo-poderosa e que o fim do Japão chegará muito rapidamente e que não precisamos da Rússia. Então começa a rearmar a Alemanha e as coisas começam a correr terrivelmente mal na guerra fria por causa da reacção russa às nossas acções.
Com a guerra fria chegou a decisão de que permaneceríamos para sempre armados, para que nenhum Pearl Harbour [o bombardeamento japonês de Dezembro de 1941] voltasse a acontecer-nos. E é claro que foram as pessoas que dirigiam a General Motors que tomaram estas decisões. Tinham chegado a Washington para ajudar no esforço de guerra e agora estavam tão entusiasmados com estes contratos governamentais que disseram: ‘Vamos continuar com isto’. Ora isto só podia ser feito aterrorizando o povo americano para gastar todo este dinheiro de impostos numa guerra, quando não havia guerra nenhuma. E com o recrutamento obrigatório, que não existia. E com juramentos de fidelidade. Tal como sob Adolfo Hitler, todos os funcionários tinham de jurar ser leais ao imperador.
E desde então que não temos nada parecido com uma república. Não teve tanto a ver com o engenho dos nossos imperadores, todos eles bastante fraquinhos, mas antes com as vastas quantias de dinheiro que normalmente seriam empregues a melhorar a vida das pessoas e que eram lançados na guerra. Dinheiro que devia ir para escolas, pontes, reparar cidades era sugado pela General Motors, pela General Electric, pela Lockheed… Elas ficavam com todo o dinheiro. E chegámos agora a uma dívida de cinco biliões de dólares.

2. Os imperadores
Diria então que Truman foi o primeiro e o pior dos imperadores?
Sim. Vamos lá a ver… tendências imperiais sempre fizeram parte da aventura americana (Jefferson também era um imperialista) mas esta foi a primeira vez em que foi elaborado um plano pormenorizado para militarizar a economia, o país, não dizer ao povo, aterrorizá-lo com histórias de papões como ‘o comunismo está prestes a tomar conta dos Estados Unidos’. Hoje há cerca de cinco mil membros do Partido Comunista, a maior parte deles absolutamente malucos, e em 1950 creio que havia sete mil, quatro mil dos quais eram membros do FBI infiltrados. E a certa altura um tipo do FBI quase foi eleito chefe do Partido Comunista e o Departamento da Justiça, que vigia o FBI, disse ‘Não pensamos que seja boa ideia ter um partido que quer derrubar o governo liderado por um membro do governo’. Houve muita comédia negra em tudo isto.

Diria que John Kennedy foi também um dos piores imperadores, no sentido em que criou um teatro de ilusões ainda maior?
Bom, ele acreditava nestes disparates. Truman e Eisenhower eram muito cínicos, sabiam que os russos não vinham aí. Aliás ninguém com experiência do mundo acreditava, não havia perigo para nós. Kennedy acreditava na retórica e também sabia que em guerra os Presidentes se tornam famosos. De certa forma, tinha lido demasiados livros de História.
Por isso, desde o princípio que andava a procura de uma guerra. A primeira coisa que faz é invadir Cuba e sabemos como isso acabou [com o desastre da Baía dos Porcos], depois há a crise dos mísseis com Krutschov, que é o herói dessa história. Krutschov, que era o idiota, quis trazer mísseis para Cuba, mas quando viu que isso podia levar a algo mais grave recuou e Kennedy disse uma série de mentiras sobre o que tinha acontecido. E depois começou a guerra no Vietname, enviando cerca de 30 mil soldados.
E depois, ao fim de mil dias, é morto. Veja, para mil dias é mais do que suficiente para ser um mau Presidente — embora os que gostem de guerra digam que eram as coisas certas a fazer. Mas tornou o mundo mais e mais inseguro, os Estados Unidos menos e menos livres e, a longo prazo, o Governo mais e mais pobre.

3. Empregados das empresas
Os políticos são prisioneiros de quê? Poder? Dinheiro? Empresas? Tudo?
Bom, agora é tudo empresarial, a menos que o político tenha dinheiro próprio. Para se ser senador da Califórnia, pelo menos há dez anos, tinha de se recolher dez mil dólares por semana — todas as semanas, durante os seis anos de mandato —, para se estar em condições de concorrer a um segundo mandato. Tinha de se passar o dia ao telefone a pedir dinheiro. E o principal dinheiro que se recolhe não vem do povo, vem das empresas, seja em segredo ou abertamente. Por isso, é claro que se representa as empresas.

Esse estado de coisas podia acabar com o fim do sistema bipartidário, de republicanos e democratas?
Mas nós não temos um sistema bipartidário. Temos um Partido da Propriedade, da Riqueza, das Corporações, chame-lhe o que quiser, que tem duas alas direitas, uma é republicana e a outra democrata. Servem os bancos, as companhias de seguros, o agronegócio, toda a gente excepto o povo em geral.
Ora isto é um resultado indirecto do Império do Mal, porque todo este dinheiro canalizado para as empresas significava que elas queriam sempre mais dinheiro, mais isenções de impostos. E a partir de certa altura foram elas que começaram a mandar para o Congresso pessoas que decidiam a concessão de fundos aos militares. Simultaneamente, também são donos dos media. As eleições são hoje a maior receita para as redes de tv, onde se compra tempo de antena. Assim, o dinheiro dos contribuintes anda em círculo. Vai para as empresas, para os candidatos, para comprarem tempo na tv, cada vez mais caro, e para as empresas. A General Electric faz por um lado armas atómicas, e por outro é dona da NBC. É o exemplo perfeito desta simbiose.

4. Controlo do pensamento
Isso explicaria o facto de os seus pontos de vista não se espalharem ou será que as pessoas não se importam, não ouvem?
Se chegarmos a elas, ouvem. Então porque não se expande? Não se expande para além de um certo ponto porque eu posso dar a explicação mais eloquente sobre o Estado imperial e não é retomada em lado nenhum. O “New York Times” nunca traz uma linha sobre um discurso meu ou de Noam Chomsky. A menos que fale de linguística e então enfiam-no na página de Ciência. Não conseguimos chegar à televisão em horário nobre. É, dizem, demasiado “ousado”, um “ousado” que traz audiências mas que é do tipo errado, porque põe em causa os fundamentos do sistema.

Parece querer dizer que há um controlo do pensamento…
… claro que há…

… uma conspiração…
É preciso ter muito cuidado. Quando se fala de ‘conspiração’, as pessoas dizem imediatamente ‘ah, pois, conspiração…’. Bom, mas há inúmeras conspirações, num mesmo momento. O que é um partido político, a não ser uma conspiração para ocupar o poder? Há todos os tipos de conspiração… Vejamos o sistema de saúde. Os americanos querem-no. Todos os países civilizados o têm. Os Estados Unidos não podem tê-lo. Porquê? Um terço de tudo o que os americanos gastam em cuidados de saúde vai para as companhias de seguros, que nada fazem. É uma vaca de dar dinheiro para as grandes empresas, as grandes seguradoras. Se houvesse sistema de saúde, ficavam sem um terço das suas receitas, e isto põe-as loucas.
David Hume perguntava: ‘Como é que podem uns poucos, que são poucos, controlar os muitos, que são muitos?’ E respondia: ‘Só através da opinião, que é a sala de aula, e o púlpito…’ e, mais uma coisa, talvez a multidão… Apenas através da opinião…
Ora, para os nossos poucos, é muito importante que os americanos não descubram duas coisas: uma é que temos um império (e não uma democracia amante da paz), e a segunda é que temos uma classe dirigente. Este é o mais escuro dos segredos escuros. Por isso, a cada nível de educação, mas especificamente no liceu, se diz que isto não existe. Ora nós temos uma classe dirigente, e eu sou capaz de dizer os seus nomes, e como vivem e como agem.

E exerce o seu poder através de intermediários, os políticos?
Claro que não o exerce pessoalmente. Um por cento da população é dono de qualquer coisa como 70 por cento do país, e há 20 por cento que vivem muitíssimo bem porque trabalham para esse um por cento. Podem conseguir empregos como Presidentes dos Estados Unidos, arranjam lugares no Congresso, juízes e… dois terços dos advogados que existem sobre a Terra são americanos e trabalham para esse um por cento. É por isso que temos tantas leis, o que nos deixa tanto sem leis.
É um navio bem dirigido, controlado por fundações, por bolsas, e também pelo orçamento do Pentágono.

Alguns desses pontos de vista lembram o manifesto do Unabomber, no sentido em que ele descreve as pessoas quase como animais domesticados…
Não penso que ele esteja totalmente errado, mas penso que as pessoas não são assim tão estúpidas. Que não são animais estúpidos. Que são constantemente distraídos pela tv, pelo consumismo… Ele teve um lampejo do que está a acontecer, mas (…) apresentou-o de uma maneira muito infantil.
Haverá muitos mais como ele, a atacar o governo, muitos mais atentados como o de Oklahoma. Ora com um Governo que tem tanta gente assim a odiá-lo, não é de suspeitar de alguma coisa errada?

5. O fim do Império
Se há um momento em que um império começa, também não há um momento em que acaba? Consegue antever esse momento com o império americano?
Quem me dera, quem me dera. O fim ideal seria eliminar a NATO, dizer aos Estados Unidos para saírem da Europa e fazer com que a moeda única europeia funcionasse, embora deva dizer que estou pessoalmente aterrorizado com tantas coisas que podem correr mal. Mas esse seria o fim do império americano. Ficaríamos entregues às nossas enormes dívidas e à nossa enorme quantidade de armas. Acabaríamos numa trapalhada mais sofisticada do que os russos. E talvez recuperássemos a república.

Um império pode tentar perpetuar-se encontrando um novo inimigo externo…
A China já foi escolhida.

Então e os gestos de aproximação entre Washington e Pequim?
Bom, isto já não se passa como nos velhos tempos de Adolfo Hitler, em que se dizia ‘Bom, vou deitar a mão à Polónia, ou à Checoslováquia’. Isto já não são coisas de loucos, são coisas de empresas, com conselhos de administração, montes de pessoas a consultar. Talvez um diga que é o momento de gastar dinheiro em armas para combater a China, e outro responda que ainda não, que primeiro é preciso fazer algum dinheiro. As coisas já não são simples. A maneira mais simples de perceber que uma coisa dessas está para acontecer é quando um indivíduo começa a ser demonizado, e isso ainda não aconteceu em relação à China. Aconteceu nos Balcãs, ou com Saddam [Hussein, do Iraque], ou com Noriega [do Panamá], quando a imprensa descobre que alguém é homossexual, mas tem cinco amantes, um exemplar do ‘Mein Kampf’ à cabeceira e cocaína guardada por baixo da cama…
Os Estados Unidos ignoram o Tribunal Internacional de Haia, que fundaram. Se isso não é comportamento imperial, então não sei o que possa ser. Estamos acima de qualquer lei, e toda a gente deve obedecer às nossas leis (veja-se Cuba)… Isto não é imperial?

Um instrumento como a internet pode ser um inimigo do império?
Não percebo muito bem como funciona a internet, mas quer-me parecer, pelos esforços do governo americano e outros, para a controlar, que pode.

6. “Happy end”
Com este discurso, pessimista ou realista, pensa que a humanidade está a aprender alguma coisa, a avançar?
Penso que a humanidade anda mais aos ziguezagues, com momentos bons e momentos maus, e talvez o melhor de todos tenha sido no século II antes de Cristo. Talvez a raça humana seja apenas uma coisa passageira e desapareça ao fim de algum tempo… Isto para acabar com uma nota feliz.

4 comentários

  1. Gore Vidal, parte da american nobility. Primo de Al Gore, grande ensaista
    Apesar dos anos a entrevista ainda é ultra-atual e pega no âmago da sociedade estadunidense

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