Globo e Google no espelho, a capivara híbrida e… cadê o “smoking gun” contra Bolsonaro?, por Wilson Ferreira

Globo e Google apontam o dedo uma para o outra. Google faz nada mais do que a Globo já não tenha feito por décadas.

Globo e Google no espelho, a capivara híbrida e… cadê o “smoking gun” contra Bolsonaro?

por Wilson Roberto Vieira Ferreira

Desde a votação à presidência do Senado, a Globo não se mostrava tão ansiosa quanto na votação da PL das Fake News. Mais uma vez colocou seus “colonistas” dentro do Congresso para o corpo a corpo em defesa da PL e fez chilique quando o Google também começou a jogar pesado contra a aprovação. Globo e Google apontam o dedo uma para o outra. Google faz nada mais do que a Globo já não tenha feito por décadas. Globo quer também meter a mão no bolo publicitário das redes e plataformas para ganhar sobrevida, sob o álibi do “jornalismo profissional” como único remédio contra as fake news. Criadas pelo próprio jornalismo corporativo através do abuso do poder econômico do qual acusa o Google de fazer. Um olha para o outro no espelho. Atrás dessa espuma midiática, grande mídia volta ao modo jornalismo de guerra: o caso da “capivara filó” híbrida, relembrado caso parecido na guerra híbrida de 2013, e a psyOp dos escândalos semanais de Bolsonaro com modus operandi de sempre: timing, sincronismo…e sem “smoking gun”.

O saudoso jornalista Paulo Henrique Amorim costumava dizer: “A Globo vai morrer gorda”.

Não somente pela emissora monopolizar no país um modelo de negócios ultrapassado pelas mídias de convergência – trocar entretenimento por espaço publicitário. Mas principalmente pelo fato de, ao longo das décadas, ter aprimorado um modelo de produção antiquado. Inclusive abandonado por Hollywood desde os anos 1970: o “sistema de estúdios” – montou uma gigantesca estrutura de estúdios, cidades cenográficas e prédios administrativos para concentrar num único ponto produção, finalização, distribuição e promoção.

A ausência de regulação na área de radiodifusão (regida por uma lei caduca de 1962) e o monopólio do mercado publicitário (75%) permitiu à Globo manter essa estrutura de negócios e produção ultrapassada. 

Porém, desde que a então presidenta Dilma Rousseff deixou-se fotografar dentro de um carro autônomo do Google, em visita às Big Techs do Vale do Silício em 2015, foi acesa a luz vermelha para a emissora: era a mensagem de que a gigantes tecnológicas entrariam com tudo no País, mudando para sempre a estrutura de negócios que ameaçava deixar a Globo para trás.

Não é por menos que depois dessa provocação da presidenta, o processo do golpe foi acelerado, para um ano depois Dilma sofrer o impeachment.

A Globo conseguiu com isso um pequeno tempo de respiro, até o Google tornar-se a maior agência de publicidade do país, ajudando a pulverizar as verbas publicitárias até então monopolizadas pela emissora carioca.

Agora, a Globo busca desesperadamente algum tempo a mais de sobrevida – quem sabe para, nesse meio tempo, a família Marinho encontrar um comprador que adquira uma infraestrutura que virou um imenso elefante branco.

Desde a eleição para a presidência do Senado não se via tamanha ansiedade dos colonistas e apresentadores globais – naquela oportunidade, a votação era encarada como uma espécie de terceiro turno. Um pequeno estúdio foi montado dentro do Congresso para os “colonistas” fazerem o corpo a corpo. A ordem era torcer por Rogério Marinho para a oposição avançar mais algumas casas no cerco a Lula. Rodrigo Pacheco ganhou e a Globo teve que voltar à velha prancheta de conspirações.

 Entretanto, os dias que antecederam a votação da PL das Fake News no Congresso superou toda a escala de stress provocado pela ansiedade. Depois de duas eleições nas quais estruturas profissionais de produção e disseminação de desinformação foram naturalizadas pelo posicionamento editorial da emissora, agora parecia que a ficha tinha finalmente caído.

De repente, para a Globo, as redes passaram a ser a fonte de todos os males e desgraças nacionais: assassinatos nas escolas, prejuízos econômicos nos negócios, ameaças à democracia, terra de ninguém, corruptoras de crianças, destruidoras de reputações e assim por diante. Uma ficha corrida tão extensa de crimes que ficamos pensando: é incrível que só AGORA os seus “investigativos” tenham descoberto e denunciado tudo isso.

“Colonistas” ao vivo dando chiliques no momento final da votação da PL das Fake News

Compreende-se tanta ansiedade e furor investigativo tardio: há um “jabuti” (jargão parlamentar para indicar um assunto que nada tem a ver comum projeto de lei) no meio dos artigos da PL 2360 que atende aos conhecidos interesses da grande mídia – no capítulo VII de um projeto de lei que pretende criar legislação para regular o setor e combater fake news, está lá o “jabuti da Globo”: 

Os conteúdos jornalísticos utilizados pelos provedores produzidos em quaisquer formatos, que inclua texto, vídeo, áudio ou imagem, ensejarão remuneração às empresas jornalísticas, na forma de regulamentação, que disporá sobre os critérios, forma para aferição dos valores, negociação, resolução de conflitos, transparência e valorização do jornalismo profissional nacional, regional, local e independente.

Além de considerar apenas como “jornalismo profissional” o jornalismo corporativo, nas entrelinhas está a arrogante pretensão de que só fortalecendo a grande mídia tradicional poderá haver informação de qualidade para fazer frente às fake news.

Esse humilde blogueiro nem vai entrar na questão anteriormente discutida de que fake news não estão no plano da informação, mas no da comunicação – é impossível combater desinformação com “informações de qualidade” já que as fake news são acontecimentos comunicacionais – sobre isso clique aqui.

Esse jabuti não só quer apagar a memória recente de que, antes das redes, foi o “jornalismo profissional” o primeiro a criar fake news na linha de frente do jornalismo de guerra iniciado com o mensalão, chegando ao golpe de 2016 – por exemplo, pinçar da internet falsificações grosseiras como a suposta ficha criminal do Dops de Dilma Rousseff, publicando na primeira página como fez a Folha.

Mas também quer apagar o fato de que nesse momento, como estratégia para emparedar o governo Lula 3, o “jornalismo profissional e de qualidade” está alimentando as redes com matéria-prima para fake news – clique aqui.  

Claro! É o álibi da Globo para tentar alguma sobrevida à espera do fim ou da troca de proprietário.

Porém, mais sintomático ainda foi o verdadeiro chilique da Globo (e seus sabujos instados pelo ponto eletrônico) ao acusar o Google de “abuso do poder econômico” quando editorializou sua página de busca colocando um link, logo abaixo da caixa de pesquisa, com artigo sobre os perigos da PL para a liberdade de opinião nas redes.

Em editoriais e colunas, o grupo Globo acusou o Google e Big Techs de deterem um poder quase sem limites e que esse jogo pesado contra a PL das Fake News ou qualquer tentativa para regulá-las comprovaria a própria urgência da regulação como condição para defesa da democracia.

Que as Big Techs são arrogantes e se acham acima dos Estados e das leis isso é sabido – basta lembrar a arrogância do bilionário dono do Twitter, Elon Musk, ao garantir o apoio a qualquer golpe de Estado, desde que garanta matérias-primas necessárias para suas empresas. No caso, o golpe na Bolívia contra Evo Morales para garantir o lítio, essencial para as baterias dos carros elétricos da Tesla.

“Jornalismo profissional de qualidade” inventou as fake news

Esse Cinegnose tenta imaginar o esforço dos “colonistas” em racionalizar para si próprios tamanha hipocrisia: o que Google e Big Techs fazem nada mais é do que principalmente a Globo fez desde o início no setor desregulamentado das mídias de massa no país – a Lei de 1962 nunca foi atualizada, o capítulo sobre a Comunicação Social da Constituição de 1988 jamais foi aplicado, a lei de imprensa, assim como o diploma de jornalismo, foi derrubada. Além do Grupo Globo fazer monopólio cruzado e explorar uma concessão pública para promover interesses econômicos e políticos privados. Derrubando governos e desestabilizando a democracia quando bem entendesse.

Toda vez que os governos petistas ensaiaram algum debate em torno da regulação das mídias, grande mídia se unia ao jornalismo do Globo para espumar de ódio contra um suposto projeto de poder totalitário de censura. Tanto chilique que fez, em 2013, o então ministro da Comunicação, Paulo Bernardo, desistir do debate sobre a Lei dos Meios e manter a Secom com sua orientação “técnica” e “republicana” de direcionamento de grossas verbas publicitárias aos monopólios midiáticos.

Globo, Google e Big Techs se olham no espelho e apontam o dedo um para o outro.  “Eles que são brancos que se entendam!”, parafraseando o 12º rei do Brasil, Dom Luís… Sabemos para quem vai sobrar essa luta de titãs midiáticos: a mídia progressista e independente – como o projeto de lei prevê que a negociação sobre os recursos a serem recebidos se dará diretamente entre as partes, para bom entendedor essas palavras bastam: sem contar com departamento jurídico e batalhões de advogados, certamente a mídia independente correrá o risco de desaparecer.

Quando surgiu, a world wide web prometia uma internet utópica: uma gigantesca biblioteca do conhecimento universal livre para todos. 

Esse jabuti escondido na PL das Fake News só comprova a atualidade de Karl Marx: o capitalismo é capaz de liberar forças produtivas inimagináveis. Porém, são limitadas pelas relações sociais de produção, funcionando como tampa de uma panela de pressão.

A capivara híbrida

Em postagem anterior este Cinegnose discutia como o jornalismo corporativo parece estar voltado ao modo jornalismo de guerra, com o ensaio da estratégia etnográfica do golpe ensaiado por matéria de primeira capa da Folha de São Paulo – clique aqui.

Pois parece que o jornalismo de guerra 2.0 está fiel ao modus operandi do auge da guerra híbrida entre 2013-2016. Como evidencia o caso da capivara “Filó”, o roedor criado por um influencer chamado Agenor Tupinambá – um fazendeiro que mora em Autazes, interior do Amazonas, a 111 km de Manaus. influencer e tiktoker que reúne milhões de seguidores, incluindo políticos e outras personalidades.

Agenor Tupinambá viralizou nas redes sociais, ao mostrar a rotina com a capivara Filomena, chamada pela família de “Filó”. O influencer foi multado pelo Ibama em mais de R$ 17 mil por suspeita de abuso, maus-tratos e exploração animal. 

Agenor usou as redes sociais para expor as multas. O órgão deu prazo de seis dias para a entrega da capivara aos fiscais de Manaus. O caso repercutiu a chegou a políticos tanto do Amazonas como de outros estados do país.

Depois de bate-bocas entre políticos na Assembleia Legislativa do Estado, uma decisão judicial devolveu a capivara ao influencer. 

Hummmmmm! Um fazendeiro do Amazonas participante de eventos ligados ao Agro em um acontecimento envolvendo o Ibama, repercutidos nas mídias em todo o país, judicializado e politizado… HOW CONVEEEEEENIENT!!!! (Apud “Church Lady” In: Saturday Night Live).

Em nota o Ibama afirmou que a decisão judicial que devolveu a capivara ao influencer prejudica o trabalho do Instituto. Isso deve soar como música aos opositores do órgão, principalmente o agronegócio e garimpeiros ilegais.

Tudo isso ecoa a “bomba semiótica do resgate dos cães de laboratório”, em 2013, de grande repercussão midiática como estratégia da guerra híbrida para o desgasta cotidiano do governo federal.

Em outubro daquele ano, ativistas (com direito a ajuda de black blocs) resgataram 178 cães de um instituto de pesquisas farmacêuticas em São Roque (SP). Com quebra-quebra, depredação e incêndio, a pauta foi elevada para o noticiário nacional: JN e Fantástico.

No “Fantástico” de 20/10, uma longa matéria onde finalmente a emissora apontou o culpado: o CONCEA (Conselho Nacional de Controle da Experimentação Animal do Ministério da Ciência e Tecnologia) – clique aqui

Em tempos normais, o episódio seria relegado à pauta jornalística local. Mas a ordem era sustentar o script de que desde as grandes manifestações de rua de junho daquele ano, o País se encontrava em estado de pré-insurgência civil, imerso no caos porque o governo era fraco e corrupto.

A repercussão nacional do “Caso Filó” pode ser um ensaio de mais uma guerra híbrida sem fronteiras: qualquer notícia vale para dar pernas e subir para o noticiário nacional. No caso, o desgaste de um órgão federal como o Ibama – instituto non grato para a malta do Exército Psíquico de Reserva (EPR), sempre à espera do próximo apito de cachorro.

Continue lendo no Cinegnose.

Wilson Ferreira

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