JN, o IDH muito alto e uma notinha locutor xexelenta
por Letícia Sallorenzo
Vamos a uma rápida aulinha de telejornalismo aqui pra gente entender o que aconteceu ontem.
Pedindo as bênçãos pro professor Luís Bittencourt, porque isso tudo tá no livro dele “Manual de Telejornalismo”, esgotado e disputado a tapa hoje em dia (E eu tenho a primeira edição do bixim. Velha é a mãe!)
No telejornalismo, existem três formatos de apresentação de uma notícia:
– VT Completo: o repórter foi ao local do acontecimento, apurou tudo in loco, fez uma reportagem, às vezes fez uma série de reportagens. Traz personagens, contextualização, exemplos, números e o escambau. O repórter aparece na tela da TV falando, o âncora do telejornal lê a introdução da matéria. É o formato mais completo de notícia num telejornal.
– Nota coberta: o âncora lê a notícia e, na tela, aparecem imagens do fato. Geralmente é material internacional, com imagens e informações de agências internacionais de notícias, por exemplo, ou então são VTs que a parte do repórter não ficou muito boa, ou ficou enrolada, enfim. Também é um formato completo, mas não tão completo como o VT.
– Nota locutor: é o formato menos completo. O âncora lê a notícia. Só a cara dele aparece, mais nada. O conteúdo dessas notas locutor costumam ser notícias que acabaram de chegar e ainda não tem imagem, OU NOTÍCIAS DE POUCA IMPORTÂNCIA QUE NÃO TIVERAM NEM A PRODUÇÃO DE IMAGENS PARA SERES ANUNCIADAS.
Guardem essa informação.
Ponto parágrafo.
Ontem, no início do dia, a ONU anunciou que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil subiu bastante em alguns níveis, atingindo a marca de 0,805 no IDH. Lembrou do dia 14 de setembro de 2014, quando a ONU anunciou que, pela primeira vez, o Brasil saía do mapa da fome.
O IDH foi criado para mostrar que o crescimento econômico só faz sentido se trouxer bem-estar real, saúde e conhecimento para as pessoas.
O IDH varia de 0 a 1. quanto mais próximo de 1, mais desenvolvido é o local. Os níveis são divididos em:
Muito Alto: entre 0,800 e 1,000
Alto: entre 0,700 e 0,799
Médio: entre 0,550 e 0,699
Baixo: abaixo de 0,550
Não precisa ser jornalista para saber que essa notícia é uma das notícias mais importantes do dia. É uma notícia que afeta toda a população, independente de faixa de renda ou escolaridade. A informação que perpassa essa notícia é: a população brasileira tem mais qualidade de vida. o país está próximo de apresentar índices de países desenvolvidos. E esse fato acontece pela primeira vez na história do Brasil.
Como o principal telejornal do país, que até outro dia se gabava de ser a única fonte de informação do cidadão brasileiro, deu essa informação? Primeiro, volte lá em cima para ver os formatos de notícia no telejornal, e responda como você daria essa notícia?
Se você disse que é caso pra uma série de reportagens, parabéns, você está pronto para ser um bom ou uma boa jornalista.
Mas veja por outro lado: o formato de notícia escolhido pelo editor chefe de um telejornal é, também, uma escolha política e ideológica. Então, transformar uma notícia enorme dessas em reles nota locutor de 38 segundos, e apresentando ressalvas em quase metade do tempo destinado a ela, é uma escolha ideológica para um cacete.
É uma escolha política até a medula.
Não apresentar uma reportagem estabelecendo uma relação de causa e consequência de políticas públicas consistentes que se refletem nesse IDH muito alto é uma escolha ideológica.
Não apresentar explicações do que mudou no país para que esse índice fosse atingido é uma escolha deliberada.
E tudo isso, sob o ponto de vista empresarial, deixa claro de que lado a GLobo está.
Mas, do ponto de vista jornalístico, também deixa claro que a Globo abriu mão de fazer jornalismo de qualidade para fazer proselitismo político.
Do ponto de vista jornalístico, mostra que a Globo jogou às favas a maior ferramenta de trabalho do jornalismo, a credibilidade.
Do ponto de vista jornalístico, mostrou que o registro histórico desse feito inédito não deve merece a relevância adequada. Uma notinha locutor xexelenta de menos de 40 segundos é mais que suficiente.
Perdem, com essa decisão política e ideológica, a sociedade brasileira e o país.
E perde, também, uma empresa jornalística que não honra seu compromisso, sua missão e sua responsabilidade social para com a sociedade e com o país.
E não foi a primeira vez que isso aconteceu. Naquele 14 de setembro de 2014, o JN também noticiou a saída do mapa da fome com outra nota locutor irrelevante e xexelenta. Mas, ao menos naquela noite, a nota locutor apresentou números ao lado do locutor – e a cara do Bonner é mais bonita que a cara do Tralli.
Letícia Sallorenzo é Mestra (2018) e doutoranda (2024) em Linguística pela Universidade de Brasília. Estuda e analisa processos cognitivos e discursivos de manipulação, o que inclui processos de disseminação de fake news.
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Aurélio Medina Dubois
27 de maio de 2026 12:24 pmEssa moça é demais.
Paulo Dantas
27 de maio de 2026 6:34 pmSou fã da senhora.
Me “ensinou” a ler jornal.
AMBAR
28 de maio de 2026 3:18 pmAssim não vale ou assina um vale?
Letícia, acredite, é melhor deixar barato.
Veja que se o feioso do “Tralhi” resolve “explicar” que o país saiu do mapa da fome porque o governo paga vale gás,
bolsa família, BPC, criança feliz, minha casa minha vida e outros 10 modos de redistribuição de renda, ilustrando a matéria com o maravilhoso depoimento do notável Luciano Huck, a voz da oposição se enche de poder e o povo irado poderá destruir sua própria sobrevivência.
francisco lacerda alencar e silva
30 de maio de 2026 3:58 amMas tb pouca gente hoje assiste o jornal nacional
Vi essa notícia nas mídias sociais .
Se Lula gravasse um tik tok , mas o governo insiste e tem feitiche da Globo um dia se derramar de amores pelo o governo numa noite memorável de um telejornal que perdeu relevância …
Conheço milhares de pessoas que não assistem e se a notícia tivesse sido veiculada só por lá teria sido inútil