Luiz Fux e o abuso discursivo de Bolsonaro, por Letícia Sallorenzo

O que Bolsonaro faz chama-se firehosing. Por mais incrível que pareça, tem fundamento científico.

Luiz Fux e o abuso discursivo de Bolsonaro

por Letícia Sallorenzo

Imagine um relacionamento abusivo. Num dia, o abusador bate na mulher, xinga, despreza, diz que ela não presta, que ele só está com ela por pena, porque ela é uma bosta em todos os sentidos. A mulher abusada se sente horrível. Amanhã, o abusador pede desculpas, diz que ama, diz que vai mudar, dá um beijo e diz que bate nela porque ela provoca (a culpa é dela, nunca dele). A mulher se sente melhor. No dia seguinte, ele volta a bater.

Esses sinais invertidos de amor e ódio deixam a mulher abusada confusa, sem entender o que está acontecendo. “Se ele não me ama, por que continua comigo? Não, ele disse que vai mudar! Ele me deu um beijo e disse que me ama! Será que eu estou ficando louca?” É justamente essa confusão de sinais emitidos pelo abusador que mantém a relação abusiva – e que o mantém no total controle da situação.

Por incrível que pareça, esses parágrafos ilustram perfeitamente o atual status do relacionamento entre os Poderes Executivo e Judiciário Federal. Tal qual um abusador, o animador de auditório do Cercadinho do Alvorada (prefiro chamá-lo de demônio, mas aqui no GGN manterei alguma compostura) agride e pede desculpas, num processo de avanço e recuo. Mas tem horas que ele avança um pouquinho mais e recua um pouquinho menos – na prática, vai avançando devagarinho até dominar tudo. Isso é um método, e tem constância.

Podemos pensar em como ele vem fazendo isso de junho pra cá, num claro confronto entre TSE/STF e Palácio do Planalto: xinga o Barroso, xinga mais, depois diz que não vai se exceder (sem reconhecer que se excedeu), reza com o Fux, daí volta a atacar o TSE, manda o Braga Neto atacar, e continua a atacar. Percebam: o motivo de todo esse destempero (a “ausência de um voto auditável”) nada mais é do que uma desculpa.

O objetivo de Bolsonaro é desacreditar o outro – no caso, o Poder Judiciário Federal – e causar confusão e discórdia entre os Poderes da República, de forma a conquistar uma parte do eleitorado a quem vende a ideia de que é um “outsider”, e que o sistema o prejudica.

O como ele faz isso é o processo abusivo descrito no primeiro parágrafo deste texto.

O que Bolsonaro faz chama-se firehosing. Por mais incrível que pareça, tem fundamento científico. Se bateu curiosidade em você, este artigo de 2016 publicado pelo think tank Rand Corporation explica tudo timtim por timtim. Se a curiosidade chegou junto com a preguiça, eu explico em linhas gerais: tal qual uma mangueira de incêndio, que espirra água em alto volume (quantidade d’água) e alta pressão, de forma constante, no firehosing uma mesma informação é enviada em alto volume (altas quantidades), por diferentes canais, de forma a cercar as pessoas, que acabam por se acostumar com a informação, e a absorvem sem grandes questionamentos ou debates.

É a mesma informação, entregue de formas diferentes, e se você está pensando em Goebbels (“Repita uma mentira até que ela se torne verdade”), está pensando certo. Eu poderia até completar com George Lakoff (“Quanto mais você repete um frame, mais ele se fixa na mente das pessoas, e não importa se este frame é falso ou verdadeiro, nem se as pessoas o reconhecem como falso ou verdadeiro”), mas o faço por puro capricho (mentira, faço porque sou fã de carteirinha do Lakoff).

Como combater, então, esse firehosing do Bolsonaro? Prefiro responder à pergunta sobre interromper o processo abusivo do marido abusador: prisão em flagrante, julgamento e cadeia. Para que o método do abusador funcione, é necessário que ele pratique uma série de crimes – e ele está pouco se lixando para isso, pois o objetivo dele é dominar, não importa como. E é na prática desses crimes que ele pode ser pego.

Que o discurso de Luiz Fux foi incipiente e insuficiente todo mundo já sabe – ou, ao menos, desconfia. Ele agiu como a mulher abusada ao telefone com as amigas. Aos prantos, e com o olho roxo, ela diz: “Mas gente, ele disse que me ama e que vai parar com isso!”

Alexandre de Moraes (e, depois das 21h de ontem, Luis roberto Barroso e toda a cúpula do TSE) é aquela amiga que diz pra abusada: “Você é maravilhosa! O bosta dessa relação é ele!”, e tá doida pra desligar o telefone e chamar um delegado de polícia conhecido pra levar o canalha do abusador pra cadeia, de preferência com alguma autorização pra sentar a mão no desinfeliz, mas as outras não deixam.

É sempre bom lembrar que a mulher abusada só consegue sair do ciclo de abusos quando ela mesma diz basta, e reage de forma enérgica e irreversível ao abusador. Caso contrário, será morta por seu algoz.

Resta saber se, no relacionamento entre os Poderes da República, essa reação se dará por intermédio da Justiça agindo de forma enérgica, ou se precisaremos da irreversibilidade de uma praça Loreto.

Atualização das 21h: parece que no metafórico telefonema entre a mulher abusada e suas amigas, as amigas decidiram por unanimidade que o melhor mesmo é entregar o abusador à justiça, e deram todo o apoio à amiga abusada. Vamos acompanhar…

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2 comentários

  1. Ainda que seja verdade,a análise parte de um tempo recente. Deste ponto de vista,tudo bem.
    contudo,o tempo a ser analisado deve ser outro,talvez desde que o presidente Lula ganhou as eleições em 2002.
    Mas,para efeito de análise,vamos nos focar somente no pós 2013 e suas manifestações facebookianas.
    A partir daquele momento iniciou-se um processo de golpe de Estado com o Brasil e os brasileiros.
    Deste processo participaram ativamente as instituições,notadamente o sistema judiciário que legalizou cada passo deste golpe e,principalmente,do lawfare contrao presidente Lula que acabou culminando com sua prisão e impedimento de concorrer novamente à presidência da república em um momento que todas as pesquisas lhe davam a possibilidade concreta de vencer no primeiro turno.
    Realizadas as eleições e assumindo o sujeito que hoje ocupa a presidência da república,a situação não mudou em nada.
    Desde o primeiro momento,em diversos comentários nesse prestigioso espaço,venho alertando para as manobras puramente diversionistas desses golpistas enquanto,com dizia aquele integrante desta turba,vão passando a boiada.
    Assim se fez,antes,com o usurpador do Palácio do Planalto,com a chamada a reforma trabalhista,posteriormente,com o atual mandatário,com a chamada reforma da previdência,com o achatamento do salário minímo,destruição da cultura e de todos os demais avanços sociais conquistados à duras penas pelo povo brasileiro.
    Enquanto isso a concentração de renda foi aumentando cada vez mais e a bolsa de valores bombando a cada direito suprimido do povo brasileiro.
    Onde estavam as “abusadas” neste interim? Estavam onde sempre estiveram e onde sempre estarão:Do lado do capital. Essa gente pode apanhar a vida interia.Ser abusada. Isso não importa nem nuca importou para eles.
    Apanhar,para eles,não é feio. Feio é ter o povo desdentado tendo dentes,disputando a vaga nas faculdadea,nos aeroportos e nos supermercados.
    Que ninguém,novamente repito,se engane com os soluços dessa gente.Eles não foram educados.foram adestrados e,dentro deste adestramento,com dizem os milicos milicianos,um superior nunca erra,raramente se engana e,quando isso acontece,é única e exclusivamente por culpa de seus comandados.
    Segue o circo.Já sem lona,sem picadeiro e quase sem nada. Mas com um número cada vez maior de palhaços: O povo brasileiro.

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