10 de junho de 2026

Viola na rua a cantar, por Felipe Bueno

Porque o preconceito tem vários pais e mães, mas um deles certamente é a ignorância.
Mestre Vitalino

do Observatório de Geopolítica

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Viola na rua a cantar

por Felipe Bueno

Você pode gostar ou não, ou mesmo nem saber quem é o ex-presidente do Equador Rafael Correa. Em visita ao Brasil, o político abordou um tema de interesse a um amplo espectro de cidadãos e cidadãs progressistas. Tema nem um pouco novo, que já rendeu tanto piadas internas em mesas de bar quanto ironias de campos opostos, mas vai cada vez mais se tornando objeto de urgente e séria discussão: as velhas e novas divisões da esquerda.

Podemos iniciar esta conversa, aliás, refletindo se a classificação esquerda, mais de duzentos anos após a Revolução Francesa, tem alguma serventia além de consolidar a parte progressista da sociedade como alvo do desprezo e da agressão – física, inclusive – de outras partes. E como a arena é majoritariamente ocupada por gladiadores, não por filósofos, perde-se muito tempo e energia tentando “explicar” quem é e quem não é comunista, satanista, pedófilo… todo um luxo de classificações sem argumentos.

Independentemente disso é necessário admitir que o termo, de fato, envelheceu, e talvez não sirva mais para acomodar todas as posições e reivindicações que supostamente representa.

Substituindo pautas de esquerda por progressistas, exercício que pessoalmente tenho feito há algum tempo, nos encontramos com outro problema, cujas raízes são antigas, mas que torna-se essencial resolver em tempos de radicalização de discurso: as identidades.

O ponto provocador – no sentido positivo – das palavras de Correa é revisitar com simplicidade e precisão o antigo dilema das divisões da esquerda em termos 2.0: “Nem sequer resolvemos os problemas do século XVIII, as grandes contradições, a pobreza generalizada, a desigualdade, a exploração. E nos metemos a tentar resolver e ser vanguarda do mundo de problemas da última geração. Alguns estão na fronteira da questão moral, são polêmicos”, disse o ex-presidente do Equador ao jornal Folha de S. Paulo, reconhecendo ser pessoalmente conservador em temas que o universo reacionário – e a imprensa, de carona – costuma tratar como “pauta de costumes”.

Ora, se o discurso identitário desperta ressalvas em um experiente político identificado com a esquerda, líder de uma nação por dez anos, imagine nas ruas e avenidas de nossa inculta América Latina.

Nas ruas e avenidas de todo o planeta, na verdade.

Se quisermos pensar em exemplos locais, fiquemos com a última eleição presidencial no Brasil. Mas há vários casos no restante da América Latina, nos Estados Unidos, na Europa, dito berço da civilização ocidental, e assim vai.

Porque o preconceito tem vários pais e mães, mas um deles certamente é a ignorância.

Que fique claro: esta reflexão não é uma sugestão de silenciamento de vozes, de omissão de pautas pelas quais parte da humanidade luta há décadas, séculos até, em busca de um mundo mais civilizado.

Porém é preciso sempre, aproveitando sábias palavras de Ferreira Gullar, buscar o equilíbrio entre ter razão e ser feliz.

A intensidade dos discursos identitários nas batalhas progressistas é uma questão aberta, que, insisto, deve ser debatida considerando-se todos os aspectos envolvidos, se é que se pode enfrentar tal desafio.

Mas ignorar é muito pior: é falar apenas e eternamente para nós mesmos e esperar, talvez numa mesa de bar, a chegada da roda-viva levando a viola para lá.

Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. A publicação do artigo dependerá de aprovação da redação GGN.

Observatorio de Geopolitica

O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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