A América Latina e a Onda Laranja
por André Moreira Cunha
“Do descobrimento aos nossos dias, tudo sempre se transformou em capital europeu ou, mais tarde, norte-americano, e como tal se acumulou e se acumula nos distantes centros do poder. Tudo: a terra, seus frutos e suas profundezas ricas em minerais, os homens e sua capacidade de trabalho e de consumo, os recursos naturais e os recursos humanos” (Veias Abertas da América Latina – Eduardo Galeano)
A Onda Rosa e o Cinza Social
O boom das commodities nos anos 2000 permitiu com que os países produtores e exportadores de recursos naturais da América Latina (ALC), particularmente na América do Sul, acelerassem seus ritmos de crescimento econômico, com espraiamentos positivos sobre os governos locais. Com mais receitas públicas foi possível implementar políticas que fortaleceram as redes de proteção social. Por um breve período do tempo, a expansão na renda veio acompanhada de redução da pobreza e de melhor distribuição de renda, sem comprometer os resultados orçamentários ou as contas externas.
Os “anos dourados” emergiram após duas décadas de semiestagnação. Entre 2003 e 2014, a renda per capita latino-americana, medida em dólares internacionais em paridade poder de compra (PPC a preços constantes de 2021), teve um crescimento acumulado de 29%. Naquele último ano, atingia US$ 18,3 mil, acima da média global (US$ 17,5 mil), e, também, 43% superior à média dos países emergentes e em desenvolvimento da região mais dinâmica do planeta, o Leste Asiático: US$ 12,8 mil.
Nos anos de fartura, a política regional teve uma proclividade à esquerda/centro-esquerda, marcando o que se convencionou chamar de “onda rosa”. Antecipados pela Venezuela de Hugo Chavez (1999-2013), foram marcantes os governos que chegaram ao poder com fortes críticas às políticas neoliberais e aos desgastes gerados pelos impactos assimétricos das reformas estruturais dos anos 1990. Exemplos nesse sentido foram as gestões Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e Dilma Roussef (2011-2014) no Brasil, Néstor e Cristina Kirchner na Argentina (2003-2010), Evo Morales na Bolívia (2006-2019), Rafael Correa (2007-2017) no Equador, Tabaré Vázquez (2005 – 2010) e Pepe Mujica (2010-2015) no Uruguai, e Michelle Bachelet (2006-2010) no Chile.
O fim do “milagre” recolocou o horizonte de baixo dinamismo. Entre 2014 e 2024, a expansão acumulada da renda per capita da ALC foi de apenas 4%. Isso equivaleu a 1/5 do desempenho médio global (22%) ou 1/15 do crescimento das economias emergentes e em desenvolvimento do Leste Asiático (60%). Se, em 1990, o PIB por habitante na América Latina (US$ 12,3 mil em dólares internacionais PPP a preços de 2021) era cinco vezes maior do que o do Leste Asiático (US$ 2,5 mil); em 2024, cada asiático do leste tinha, em média, uma renda de US$ 20,4 mil, 8% acima dos US$ 18,9 mil de um típico latino-americano.
Na ALC, o baixo crescimento se associa à persistência das múltiplas formas de desigualdade e à fragilidade nos mecanismos que produzem coesão social. O “World Inequality Report – 2026” indica que a região apresenta as maiores distâncias entre o topo e a base da pirâmide distributiva, onde os 10% mais ricos concentram 57% da renda e os 50% mais pobres possuem apenas 8%. Em termos de diferenças de rendas médias, a diferença entre esses dois grupos é de 72 vezes, antes das políticas redistributivas, e de 50 vezes, depois destas.
Por sua vez, o Banco Mundial estima que 53% da população latino-americana não conta com plena proteção social (transferências de renda, seguridade, aposentadoria, seguro desemprego etc.), indicador que está acima da média observada no conjunto dos países de renda baixa e média – 48%. Já a base de dados das Nações Unidas sobre violência mostra que a taxa de homicídios por 100 mil habitantes na ALC é de 19,3, a maior do mundo – quatro vezes acima da média global de 5,1. A segunda região mais violenta do planeta é a África Subsaariana, com uma taxa de 11,7. De cada três pessoas assassinadas no mundo, uma mora na ALC[1].
O Fantasma da Onda Laranja
Em 2025 e 2026, as candidaturas de direita colheram, com particular sucesso, os frutos da insatisfação popular com a semiestagnação econômica e com o esgarçamento do tecido social. Em abril de 2025, Daniel Noboa foi reeleito presidente do Equador com um discurso centrado na repressão ao crime organizado. Em outubro foi a vez da Bolívia, com Rodrigo Paz decretando o fim da hegemonia do “Movimiento al Socialismo” (MAS). No mês seguinte, Honduras elegia Nasry Asfura, investidor do ramo imobiliário e aliado de Donald Trump. O ano encerrou com a vitória de José Antonio Kast no Chile, com uma plataforma de combate à imigração e demais pautas conservadoras. Em fevereiro de 2026, Laura Fernández convenceu os costa-riquenhos de que o melhor caminho para o país era replicar o modelo Bukele. Em junho, a Colômbia elegeu Abelardo de la Espriella, defensor do armamento da população civil; e o Peru garantiu Keiko Fujimori no poder, também com uma agenda de combate ao crime organizado e de militarização da fronteira do país.
Os novos sete entrantes no rol do populismo de direita somam forças aos já consagrados Javier Milei e Nayib Bukele. Enquanto o primeiro oscila entre arroubos reformistas e escândalos de corrupção, nos marcos de uma economia que segue em deterioração, o segundo colhe os louros da guerra contra o crime e busca um terceiro mandato. Para a revista “The Economist”: “Nenhuma ‘onda’ política anterior avançou com tamanha velocidade, abrangência ou uniformidade. Também não se trata de um retorno à centro-direita, mas sim a uma política mais dura, que emula Trump. Isso acontece porque os eleitores estão fartos, e as prioridades do Sr. Trump — gangues criminosas e imigração ilegal — também são temas que preocupam muitos latino-americanos”.
A “onda laranja” é uma ameaça para as instituições democráticas da região e expressa, localmente, o fenômeno mais geral de expansão do autoritarismo ou de “recessão democrática”. De acordo com “Democracy Report 2026 – Unraveling The Democratic Era?” para “… o cidadão global médio, a democracia retornou agora aos níveis de 1978. Na prática, quase todas as conquistas democráticas da ‘terceira onda de democratização’ — iniciada com a Revolução dos Cravos em Portugal, em 1974 — foram apagadas.” (p.7). Três aspectos parecem convergir no movimento em curso: (i) democracias liberais aparentemente consolidadas, como no caso dos EUA, mostram sinais claros de fragilização das instituições democráticas; (ii) países que experimentaram processos de democratização no último quartel do século XX e começos do século XXI, experimentam tensões crescentes; e (iii) países já caracterizados como autoritários passaram a conviver com o endurecimento de seus regimes.
Onda ou Ressaca?
O conceito de ondas de democratização remonta ao trabalho de Samuel P. Huntington, publicado em 1991. Para ele, a primeira grande onda de democratização, entre os anos 1820 e 1920, foi interrompida pela ascensão dos regimes fascistas e as guerras da primeira metade do século XX. Após a Segunda Guerra Mundial e o começo dos anos 1960, viveu-se uma nova expansão dos regimes democráticos, com um recuo nesse processo por mais de uma década, sob os ventos da Guerra Fria. Já ao escrever no início dos anos 1990, Huntington se questionava se a emergente terceira onda democrática, inaugurada em países como Portugal e Espanha, ainda nos anos 1970, seria longa ou não.
Trinta e cinco anos após seu artigo seminal, não parece mais haver dúvidas de que a “recessão democrática”, nos termos de Larry Diamond, veio para ficar e, possivelmente, pode estar parindo uma terceira onda autoritária. Para cientistas políticos como Staffan I. Lindberg[2], um dos organizadores do “Democracy Report 2026” e diretor do V-Dem Institute (Varieties of Democracy), a relação entre democratização e o seu reverso, por meio de ondas sucessivas, como orginalmente sugerido por Huntington, não necessariamente é uma regra universal ou imutável. Ondas autoritárias podem se formar em meio a processos de democratização, de tal sorte que não há garantias a priori de que os regimes democráticos prevalecerão.
No contexto latino-americano, as pressões contrárias à consolidação democrática vêm desde dentro e, também, de fora. As elites locais sempre se valeram do controle estrito do aparelho estatal para maximizar sua capacidade de auferir rendas, evadir tributos e perpetuar privilégios. Para os “donos do poder”, o fortalecimento das instituições republicanas, a impessoalidade na gestão pública e as políticas redistributivas são percebidas como ameaças ao status quo.
Desde fora, a administração Trump já deixou claro que o assim-chamado “Hemisfério Ocidental” está no topo das prioridades de sua política de segurança nacional. Se é difícil conter a ascensão da China à condição de potência global, tenta-se, ao menos, limitar sua projeção externa de poder, bem como manter, sob estrito controle do complexo Washington-Wall Street, as zonas de influência estadunidense. O “Corolário de Trump” da Doutrina Monroe prescreve a importância de governos locais domesticados para conter pressões migratórias, garantir acesso a insumos estratégicos e mercados consumidores e reduzir a presença de potência concorrentes[3].
Se o desempenho passado de governos de direita e de extrema-direita serve de parâmetro para projetar as perspectivas futuras da ALC, não será uma surpresa que seus eleitores fiquem, uma vez mais, frustrados com a distância entre realidade e promessas. Dificilmente as agendas de desmonte das políticas públicas e das instituições democráticas resultarão em crescimento econômico robusto e sustentável, amplas oportunidades para melhorar de vida ou padrões decentes de coesão social.
Os governos de esquerda foram, na melhor das hipóteses, incapazes de produzir mudanças suficientemente robustas para alterar a perspectiva da maioria das pessoas sobre a qualidade de suas vidas. Não à toa, as urnas decretaram o fim da “onda rosa”. Todavia, se o avanço autoritário em curso se consolidar, talvez elas não estejam lá quando as populações decidirem que é hora de mudar de rumo.
[1] Como sintetiza a Cepal na última edição do Panorama Social da América Latina e Caribe: “A maioria dos países da América Latina e do Caribe enfrenta três armadilhas no desenvolvimento que limitam a melhoria do bem-estar de sua população: baixa capacidade para crescer; alta desigualdade, baixa mobilidade social e débil coesão social; e baixas capacidades institucionais e governos pouco efetivos.” (p. 11).
[2] “Reexamining Huntington’s wave concept, the article argues that, unlike natural waves, his framework wrongly assumed that democratic and reverse waves were mutually exclusive. In reality, as in physics, waves overlap: one may rise while another builds beneath it.” (‘Fifty years of the third wave(s): from democratization to autocratization’, Democratization, 33(3), 2026, 676-694)
[3] “We want to ensure that the Western Hemisphere remains reasonably stable and well-governed enough to prevent and discourage mass migration to the United States; we want a Hemisphere whose governments cooperate with us against narco-terrorists, cartels, and other transnational criminal organizations; we want a Hemisphere that remains free of hostile foreignv incursion or ownership of key assets, and that supports critical supply chains; and we want to ensure our continued access to key strategic locations. In other words, we will assert and enforce a “Trump Corollary” to the Monroe Doctrine”. (National Security Strategy of the United States of America – November 2025, p.5)
André Moreira Cunha – Docente do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFRGS.
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