A aristocracia do Grande Capital, por Andre Motta Araujo

Através de EMPRESAS DE INTERESSE NACIONAL liquidamos um grande movimento de projeção do Brasil em nome de um moralismo tosco de porta de igreja que trouxe prejuízos incalculáveis ao País como potência.

A aristocracia do Grande Capital

por Andre Motta Araujo

Nestes tempos de teorias conspiratórias é interessante uma crônica sobre a aristocracia do grande capital produtivo que nasce no Século XIX e chega até nossos dias. São dinastias enraizadas no apogeu do capitalismo industrial, a nobreza do capitalismo pela sua categoria social e resiliência histórica.

Como são uma aristocracia experiente de guerras e crises econômicas, passam por gerações atrás das cortinas da História para não ser foco de ataque, a eterna discrição e o cuidado em não ostentar a riqueza vulgar dos novos ricos do capitalismo arrivista sem classe e tradição.

KRUPP

A dinastia dos canhões nasce em 1811, em Essen, coração do Rhur industrial, tornou-se a maior produtora de aço da Alemanha, fabricante de artilharia, depois locomotivas e guindastes de portos, mais conhecida pelos grandes canhões da Grande Guerra de 1914, incluindo o canhão ferroviário Betha, o maior da História até então. A dinastia Krupp von Bohlen und Halbach chegou à Segunda Guerra em pleno apogeu, com 87 fabricas em 1940, mais o controle de 142 empresas por toda a Europa ocupada pelo Terceiro Reich, com cerca de 210 mil empregados, incluindo prisioneiros de guerra.

Com o fim da Guerra, o chefe da firma e da família, Alfried Krupp, foi julgado e considerado culpado pelo Tribunal de Nuremberg, mas a família manteve o controle do grupo, agora concentrado em aço e maquinaria industrial. O único filho e herdeiro de Alfried Krupp era seu filho Arndt, que faleceu em 1986 no Brasil, onde vivia há muitos anos no Rio de Janeiro, passando o controle do grupo para uma fundação.

A Krupp fundiu-se em 1999 com a Thyssen, outra dinastia industrial alemã, surgindo a THYSSENKRUPP A.G., maior empresa alemã de aço e máquinas de grande porte. No Brasil a Thyssenkrupp é a principal fabricante de elevadores.

Na fábrica Krupp de Campo Limpo, na região de Campinas, a avenida da fábrica tem o nome de Alfried Krupp.

O Brasil tornou-se, na década de 30, o maior cliente da Krupp com a compra de 1.180 canhões pelo Exército brasileiro.

Na onda de industrialização dos anos JK, a Krupp instalou uma subsidiária no Brasil, a METALÚRGICA CAMPO LIMPO, produzindo material ferroviário.

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THYSSEN

Outro grupo símbolo da indústria alemã, com uma saga interligada à própria História do País, fundada no começo do Século XIX, tornou-se importante fabricante de aço. O titular Fritz Thyssen foi o primeiro grande financiador de Hitler e do Partido Nazista ainda nos anos 20, depois rompeu com Hitler em 1938 por discordar da perseguição aos judeus. Foi preso no campo de concentração de Dachau, depois da guerra foi processado em tribunais alemães, conseguiu sair livre e mudou-se para a Argentina em 1950, onde faleceu. Deixou um grande grupo e uma enorme família enobrecida por casamentos.

O ramo Thyssen Bhornermiza, com nacionalidade húngara e holandesa, foi representada por um personagem emblemático da alta sociedade europeia na segunda metade do Século XX, o Barão Heini Thyssen casou-se  cinco vezes, a 4ª vez com uma brasileira, Denise Shorto, com quem teve um filho e, na 5ª, com a ex-Miss Espanha Carmen Cervera, que herdou a maior parte de sua coleção de arte, maior coleção privada da Europa, parte da qual permitiu a criação do Museu Rainha Sofia em Madri. A familia Thyssen ainda mantém o controle do Grupo Thyssenkrupp, com 670 empresas e faturamento de 50 bilhões de Euros em 2018, é a maior fabricante de elevadores da Europa e do Brasil, onde também tem siderúrgica.

SCHNEIDER

Considerada a Krupp francesa, por sua imensa produção de artilharia pesada na Primeira Guerra nas usinas de Le Creusot. Fundada em 1836 como forjaria, fabricou de canhões a tanques e material elétrico pesado. Chegou a nossos dias como um grupo sólido, está bem implantado no Brasil com as chaves e disjuntores Telemecanique, Merlin Gerin  e Square D, é grande também nos EUA. O grupo tem 144.000 empregados e faturou 24 bilhões de Euros em 2018.

SIEMENS

Grande grupo alemão fundado em 1847, está no Brasil desde 1867, quando instalou a linha telegráfica do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul, portanto no Brasil há 152 anos. No regime nazista teve participação em todo o processo de rearmamento, com acusações sobre o fornecimento de fornos para os campos de extermínio, da qual a companhia se defendeu. O grupo tem 670.000 empregados e em 2018 faturou 83 bilhões de Euros. A família Siemens ainda é grande acionista do grupo. A Siemens teve acusações de corrupção nos EUA e pagou pesadas multas.

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VESTEY

A família que inventou a frigorificação da carne no Século XIX e com isso possibilitou o desenvolvimento da Argentina como a maior produtora e exportadora de carne bovina entre 1890 e 1930. Os Vestey chegaram a ter, em 1923, 3.000 açougues na Inglaterra e tinham seus próprios navios para transportar carne da Argentina e da Austrália para a Europa, a BLIE STAR LINE, com frota de 120 navios, transportando carne, carga geral e passageiros.

O grupo existe até hoje, é muito sólido e de propriedade privada da familia Vestey. O chefe é Lord Vestey, de 78 anos. A família tem grandes fazendas no Brasil e Argentina. Há um artigo antigo meu sobre a família, com mais detalhes [aqui].

UNILEVER

Uma das maiores multinacionais do mundo, a empresa que inventou a margarina, chegou a ter grandes extensões de terra na África para o plantio de palmeiras, a base de seus alimentos, e sabões era o óleo de palma. Seu líder for Lord Leverhulme. Presente em todo o mundo, a Lever House, em Nova York, é um prédio emblemático na cidade. Grande no Brasil há quase 100 anos, hoje fatura 60 bilhões de Euros e emprega 170 mil pessoas, empresa símbolo de bens de consumo e alimentação, tem base jurídica na Inglaterra e na Holanda, empresa inovadora em propaganda, não sai de moda.

A LÓGICA DO CAPITALISMO DE ELITE

Os grupos tradicionais do grande capitalismo precedem o neoliberalismo vulgar dos anos 70, são empresas que atravessaram guerras, grandes crises econômicas e políticas, ocupação de países, quedas de governos e de regimes, rupturas institucionais e golpes de Estado, seu grande know how é a sobrevivência em quaisquer condições, é uma expertise muito própria que não se ensina nas escolas moderninhas de administração de empresas.

Do ponto de vista político foram pontas de lanças de seus países-sede, cujos Estados sempre as protegeram de cruzadas moralistas, são consideradas em seus países patrimônio nacional, mesmo sendo empresas privadas, MAS que representam o interesse MACRO de seus países em quaisquer circunstâncias. Foi por essa razão que sobreviveram, seu interesse privado se confunde com o interesse nacional porque geram empregos e trazem divisas para seus países-sede, por isso jamais foram perseguidas em suas bases nacionais e em cada história existem graves acusações de malfeitorias. Krupp, Thyssen por sua aliança ao nazismo, Schneider por colaboracionismo com os alemães, Siemens pelos fornos dos campos de extermínio, Lever pela exploração da África negra e com todo tipo de acusações. Mas em nenhum caso, cruzadas moralistas em seus países, tocaram nas empresas porque o interesse nacional precede questões éticas ou assim apresentadas como alegações de grupos ideológicos contra a própria existência de grandes empresas de interesse nacional.

Na história dos primórdios do grande capitalismo não há moral alguma, as várias Companhias das Índias colonizavam territórios ocupados por povos antigos, tomavam terras, faziam escravos, os corsários ingleses, franceses e holandeses tomavam na mão grande navios espanhóis para roubar seu ouro, os piratas não eram fora da lei em seus países de origem, ao contrário, portavam CARTAS DE CORSO assinadas pelo seu Rei, que era sócio na pirataria.

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Assim formou-se a base de capital do imperialismo europeu, por empresas e grupos representando o interesse de seus Estados que os protegiam.

AS EMPRESAS DE INTERESSE NACIONAL

A liquidação das empreiteiras brasileiras, empresas fundamentais para a projeção dos interesses do Brasil no exterior, foi um processo na contramão da trajetória de expansão dos grandes países. Através de EMPRESAS DE INTERESSE NACIONAL liquidamos um grande movimento de projeção do Brasil em nome de um moralismo tosco de porta de igreja que trouxe prejuízos incalculáveis ao País como potência. Ao lado das Forças Armadas e das demais Instituições de Estado, as EMPRESAS DE INTERESSE NACIONAL são instrumentos da projeção do Estado no mundo.

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9 comentários

  1. Prezado senhor André Araújo,

    Nada disso vi, uma sequencia absurda de puritanismo hipócrita do mais fino viralatismo.

    Servi na Africa ocidental, em Kiel, em Toulouse e só ouço gente de varanda gourmet, que ouve e repete J10, CBN e JP como sapiência.

    Olho ao redor, as varandas, quase não mais me posiciono. Gente que acha e acha que pensa ser CORRETO a tal limpeza a jato.

    Haja cruzada suicida. Alias, conheço engenheiros desempregados ou sub e suas famlias que defende a cruzada carwash ainda que diretamente prejudicados…

    Haja cegueira…

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  2. André, depois coloca esse texto lá no twitter. Seus textos precisam chegar ao maior número possível de pessoas.

  3. Suas matérias são reveladoras e didáticas. Novamente mostram toda a estupidez quntomundista que se abate sobre esta Nação-Potência a partir dos anos de 1930. O Mundo destroçado à espera das Nações Democráticas que irão reconstruí-lo numa ‘ Nova Era ‘ de prosperidade, progresso e liberdade. Permitimos que os EUA racista, xenófobo, vestissem a carapuça de multiracial, interracial, agregador, libertário. Somos Inacreditáveis. Um Negro norteamericano só se tornou definitivamente um Cidadão NorteAmericano no começo da década de 1970. Ou seja ontem. Não estamos falando do começo do século passado, mais de século atrás, de duas grandes guerras saindo do Período Medieval. Estamos falando de 1970, de TV colorida, do ‘homem no espaço’, de viagens áreas e regulares por todo planeta, de computadores,… Alguns ainda insistem com o discurso embolorado : ‘ mas o Brasil foi o último a se libertar da escravidão ‘. É inacreditável. Pois bem, este Mundo destroçado, esperando por Democracia Brasileira que Navios alemães, italianos, japoneses, americanos, suíços, russos, cheios de desespero, miséria, sarna, pulgas, fome, fugindo de todo tipo de perseguição e totalitarismos, como acontece atualmente com Navios Africanos, desembarcam no “Porto da Esperança” em Santos. O que Nós fazemos em 1930? Viramos o rumo. Abandonamos a Industrialização e Democracia Paulistas. Entramos de cabeça numa Ditadura Caudilhista Esquerdopata Absolutista Assassina Fascista, que nos carregará por 9 décadas ao atraso, desindustrialização, pobreza, analfabetismo. O que farão estes países destroçados cuja População se atirava ao Mar, rumo à vanguarda mundial até 1930? Se fincarão na Democracia, abandonando o Fascismo e Nazismo, que a partir desta década começamos a flertar. Nações absolutamente destruídas se reerguem, enquanto Nos afundamos. A história de como permitimos que grandes grupos destroçados se reerguessem, amplamente ligados ao Brasil, mas que em muito pouco contribuíram para tornarmos também uma Potência Industrial. Fizeram isto por seus países. Somos caso único na história da Psiquiatria. Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação.

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  4. Quando a JBS entrou na lavanderia a jato eu assisti um documentário na Netflix sobre a quebra dos donos de granjas nos EUA e o domínio crescente da JBS sobre eles. A sequência a gente já sabe.

  5. Muito bom Andy!
    Alias, vale lembrar também a trupe dos “robber barons”.
    E empresas como Phillips , Telefunken,na Segunda Guerra Mundial e as “experiências” das farmacêuticas durante a Primeira Guerra Mundial.
    Tudo muito nobre!

  6. No Brasil, além do entreguismo de empresas como a Vale, Telebrás,etc. temos que lembrar de empresas como a CICA, que era a maior empresa de produtos agrícolas do mundo e foi “garfada” pelos gringos…
    A Petrobrás foi entregue aos americanos por FHC quando começou a negociar suas ações em NY. Tornou-se refém dos desejos americanos, não da lei ou de alguma lei, tornou-se refém dos desejos deles.
    Tudo calculado, planejado.
    Com o silêncio dos militares.
    Agora estão de olho na JBS…
    Com uma ajuda do MPF…
    Com a concordância tácita de nossos milicos.

  7. Carta Aberta dos Engenheiros da Petrobras
    AEPET 021/19
    Rio de Janeiro, 08 de outubro de 2019
    Ilmo. Sr.
    Presidente do Conselho de Administração da Petrobrás
    Eduardo Bacellar Leal Ferreira
    Av. Henrique Valadares, 28, Torre A/19º andar
    Nesta
    Assunto: Plano Estratégico da Petrobrás
    Prezado Presidente,
    Trazemos para a consideração deste Conselho, os seguintes dados e informações:
    O petróleo do Brasil tem sido exportado em volumes recordes, cerca de 1,2 milhões de barris de petróleo por dia, volume equivalente a 45% da produção de petróleo cru no país.
    Existe relação entre o consumo de energia, o crescimento econômico e o desenvolvimento humano. O consumo per capita de energia no Brasil é muito baixo, quase seis vezes menor em relação aos Estados Unidos e quase cinco em relação a Noruega. No entanto, quase metade do petróleo produzido no Brasil não tem sido consumido no país, está sendo exportado, em grande medida por multinacionais estrangeiras.
    Enquanto se exporta o petróleo cru do Brasil, o país importa cada vez mais seus produtos refinados. São importados cerca de 500 mil barris de derivados de petróleo por dia, a maior parte produzida nos Estados Unidos.
    2) A política de preços da Petrobrás, desde 2016, é de paridade em relação aos preços dos combustíveis importados. A prática de preços mais altos que os custos de importação tem viabilizado a lucratividade da cadeia de importação e a competitividade dos combustíveis importados, em especial dos Estados Unidos.
    O combustível brasileiro mais caro perde mercado para o importado, o que resulta na ociosidade das refinarias da Petrobrás, em até um quarto da sua capacidade.
    O consumidor brasileiro paga preços vinculados ao petróleo no mercado internacional e à cotação do dólar, além dos custos estimados de importação, apesar do petróleo ser produzido no Brasil e de haver capacidade de refiná-lo no país, enquanto isso a Petrobrás perde mercado.
    De janeiro a julho de 2019, 82% do diesel importado pelo Brasil foi produzido nos Estados Unidos. Da gasolina 71% e do etanol – que ocupa o mercado da gasolina – 94%.
    Nenhum país se desenvolveu exportando petróleo cru por multinacionais estrangeiras e importando produtos refinados.
    3) Matriz energética mundial revela a importância dos fósseis
    As fontes primárias de origem fóssil – carvão, petróleo e gás natural – responderam por 80,2% da demanda total em 2000. Em 2017, a participação dos fósseis se elevou para 80,8%.
    A participação das energias de origem fóssil na demanda de energia mundial se manteve estável nos últimos 25 anos. É improvável que percam importância relativa nas próximas décadas, considerando sua qualidade (flexibilidade, facilidade de uso, densidade energética e confiabilidade) e quantidade (disponibilidade), em comparação com as demais fontes primárias de energia.
    Figura 1: Consumo por fonte de energia primária mundial (2017) (IEA, 2019)
    4) Elevação da produção de petróleo por multinacionais estrangeiras
    A elevação da exportação do petróleo cru brasileiro, com o aumento da importação dos produtos refinados e da ociosidade das refinarias da Petrobrás, foi acompanhada da elevação da produção de petróleo do Brasil por multinacionais privadas e estatais estrangeiras.
    Em maio de 2019, a Petrobrás, na condição de empresa concessionária, foi responsável por 75,15% da produção nacional de petróleo e gás natural, alcançando 2,61 milhões bep/d. A Shell/BG Brasil, com a produção de 427 mil bep/d, que representa 12,29% do total nacional, classificou-se como a 2ª em produção. A 3ª empresa concessionária com maior produção foi a Petrogal Brasil, tendo obtido 3,36% da produção do País, com média de 117 mil bep/d. A Repsol Sinopec foi responsável por 2,62% da produção nacional, sendo a 4ª concessionária com maior produção, obtendo 91 mil bep/d. A Equinor Energy, como a 5ª maior concessionária, produziu 1,47%, com 51 mil bep/d e a Equinor Brasil, como a 6ª produtora, atingiu 1,15% da produção, com 40 mil bep/d. As demais concessionárias alcançaram a parcela de 3,96% da produção nacional, com o volume de 137,4 mil bep/d.
    Em termos absolutos e relativos cresce a desnacionalização da produção do petróleo brasileiro.
    Uma típica colônia extrativa e primário exportadora fornece matérias primas a países estrangeiros, sem agregar valor, e importa produtos, tecnologias e serviços valorizados.
    Em maio de 2019, foi exportado petróleo cru do Brasil para os seguintes países: China (51%), EUA (21%), Uruguai (6%), Chile (5%), Espanha (4%) e outros (13%).
    5) Elevação da importação combustíveis produzidos nos Estados Unidos
    Em 2015, o diesel produzido nos Estados Unidos representou 41% do total de 16200 toneladas por dia importado pelo Brasil.
    Em 2019, de janeiro a julho, a fração do diesel importado dos Estados Unidos se elevou para 82% do total importado que alcançou 25561 toneladas por dia.
    Em 2015, a gasolina produzida nos Estados Unidos representou 23% do total de 5020 toneladas por dia importadas pelo Brasil.
    Em 2019, de janeiro a julho, a fração da gasolina importada dos Estados Unidos se elevou para 71% do total importado que se elevou para 9874 toneladas por dia.
    A política de preços paritários aos de importação (PPI), responsável pela elevação dos preços dos derivados produzidos no Brasil, a redução da sua competitividade e a consequente ociosidade das refinarias da Petrobrás reduziu tanto a produção quanto a competitividade da gasolina em relação ao etanol produzido no Brasil e importado.
    A Petrobrás perde com a redução da sua participação no mercado. O consumidor paga mais caro, desnecessariamente, com o alinhamento aos preços internacionais do petróleo e à cotação do câmbio.
    Em 2014, foram produzidos quase 50 milhões de metros cúbicos de diesel no Brasil. A produção nacional de diesel foi reduzida em 16%, para menos de 42 milhões de metros cúbicos em 2018.
    A Petrobrás pode praticar preços inferiores aos paritários de importação (PPI) e obter melhores resultados empresarias, com a recuperação da sua participação no mercado brasileiro e a maior utilização da sua capacidade instalada de refino.
    Somente a Petrobrás consegue suprir o mercado doméstico de derivados com preços abaixo do paritário de importação e, ainda assim, obter resultados compatíveis com a indústria internacional e sustentar elevados investimentos que contribuem para o desenvolvimento nacional.
    No entanto, a política de preços dos combustíveis e a privatização das refinarias pode impedir que a Petrobrás exerça seu potencial competitivo para se fortalecer e impulsionar a economia nacional com seu abastecimento aos menores custos possíveis.
    6) Aceleração dos leilões de petróleo promove o ciclo extrativo e primário exportador do tipo colonial
    Com relação a exploração e produção do pré-sal deve ser considerada a velocidade dos leilões sob o regime de partilha e o volume de 5 bilhões de barris equivalentes de petróleo (bep) no qual a Petrobrás opera sob o regime da Cessão Onerosa.
    Com o 1º leilão da partilha e a Cessão Onerosa, a Petrobrás detinha 60% das reservas recuperáveis sob estes dois regimes. As multinacionais estrangeiras privadas (Shell e Total) alcançavam 26,7% e as empresas estatais chinesas 13,3% de um total estimado em 15 bilhões de barris equivalentes de petróleo (bep).
    Nos quatro leilões de partilha seguintes, as multinacionais privadas, International Oil Companies (IOCs), aumentaram significativamente suas reservas no pré-sal. Neste período, a Petrobrás garantiu acesso à apenas 17,4% do volume leiloado. Sendo o restante do volume distribuído da seguinte forma: empresas estrangeiras privadas (Shell, BP, Total, ExxonMobil, Chevron e Petrogal) alcançaram 54,7%, a estatal norueguesa (Equinor, ex Statoil) ficou com 10,9%, as estatais chinesas com 9,8%, a estatal colombiana 4,1% e a estatal do Catar 3,0% do volume total estimado (e riscado) como recuperável de 12,21 bilhões bep.
    Considerando os cinco leilões e a Cessão Onerosa, a Petrobrás tem 41%, enquanto as empresas estrangeiras, privadas e estatais, têm acesso a 59% do total volume recuperável estimado de 27,21 bilhões de bep.
    O volume recuperável estimado, cedido onerosamente para a Petrobrás somado aos concedidos nos cinco primeiros leilões de partilha, alcança cerca de 27 bilhões de barris de petróleo equivalente. Este volume, comparado com as reservas nacionais provadas, representa a 15ª maior reserva internacional. Mais do que duas vezes maior do que a atual reserva provada do Brasil (13,0 bilhões bep) e da Argélia (12,2), mais do que três vezes maior que as reservas de Angola (8,3), Equador (8,3), México (7,3) e Azerbaijão (7,0) e mais do que quatro vezes a reserva provada da Noruega (6,6).
    7) Novos leilões de partilha: Excedente da Cessão Onerosa e 6ª rodada
    Apesar do expressivo volume do pré-sal já concedido por meio da Cessão Onerosa e das cinco primeiras rodadas de partilha, estimado em mais de 27 bilhões de barris (bep), e da corrente exportação de mais de um milhão de barris por dia, o governo federal planeja realizar ainda em 2019 o leilão do Excedente da Cessão Onerosa e a 6ª rodada de partilha do pré-sal.
    Estima-se que o volume recuperável no Excedente da Cessão Onerosa possa alcançar até 15 bilhões de barris de petróleo equivalente. Estamos diante da aceleração do ciclo primário exportador do petróleo brasileiro.
    Para justificar o ciclo extrativo e primário exportador do petróleo brasileiro foi criado o mito da Petrobrás quebrada, a falácia da necessidade da privatização de ativos para redução da dívida e a lenda do petróleo que brevemente se tornaria um mico (sem valor)
    8) Maiores petrolíferas são estatais
    As estatais já são 19, entre as 25 maiores empresas de petróleo e gás natural, controlando 90% das reservas e 75% das produções mundiais.
    As vendas de ativos da Petrobrás não se justificam pela redução do endividamento e estão em contradição com o aumento da integração vertical e da internacionalização das companhias de petróleo, inclusive as estatais.
    O governo federal não dispõe de uma política para o controle da produção e da exportação de petróleo. Não conhece todo o potencial de reservas do pré-sal, mas apressa leilões de áreas que podem conter dezenas de bilhões de barris de petróleo, apenas para cobrir déficits fiscais. Esta política poderá levar ao esgotamento prematuro das reservas nacionais.
    É necessário investir na delimitação de jazidas e na definição das reservas do pré-sal, como condição para definir a extensão das concessões. O petróleo produzido deve ser direcionado, prioritariamente, para o uso interno e para a produção de derivados pelo parque de refino nacional. A exportação deve ser residual.
    O objetivo do planejamento da produção deve ser a segurança energética nacional e o abastecimento aos menores custos possíveis.
    A natureza e o trabalho de gerações de brasileiros nos deram a grande oportunidade que é o petróleo do pré-sal. Precisamos ser capazes de empreender um projeto soberano para, desta vez, usar as riquezas naturais brasileiras em benefício da maioria da população.
    É do nosso entendimento que os dados e informações apresentados devem ser levados em consideração para que a Petrobrás volte a ter como objetivo estratégico o abastecimento do País, aos menores custos possíveis para a população, garantindo os recursos para os investimentos necessários do setor.
    Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET)
    Anexo: Brasil e o ciclo extrativo do petróleo – Nova colônia em pleno século 21
    Felipe Coutinho, setembro de 2019
    C.C: Conselho de Administração da Petrobrás
    Roberto da Cunha Castello Branco; Ana Lúcia Poças Zambelli; Clarissa de Araújo Lins; João Cox; Nivio Ziviani; Walter Mendes de Oliveira; Danilo Ferreira da Silva; Marcelo Mesquita de Siqueira Filho; Sônia Júlia Sulzbeck Villalobos

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