10 de junho de 2026

A China e o destino da transição energética global, por Erick Kayser

Experiência chinesa revela singularidade: a capacidade do Estado atuar de modo planejado e coordenado para reestruturar setores da economia.
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A China e o destino da transição energética global

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por Erick Kayser

No debate sobre a urgente transição energética global, é impossível ignorar a questão chinesa. A China ocupa um papel central e paradoxal no cenário energético global: é a maior emissora de dióxido de carbono do mundo, mas também a nação que mais investe e avança na transição para fontes renováveis. Este duplo papel a coloca numa posição única, onde as medidas para “limpar” a sua produção industrial têm um impacto descomunal no combate global às mudanças climáticas. A sua jornada, repleta de contradições, é um elemento indispensável para qualquer análise sobre o futuro do planeta.

Durante décadas, a China foi conhecida como a “fábrica do mundo”, concentrando boa parte da produção industrial que alimenta o consumo global. Esse processo, intensificado pela globalização neoliberal, implicou uma dependência estrutural de energias fósseis e a construção de um parque industrial gigantesco, cuja pegada de carbono é proporcional ao tamanho de sua economia. O crescimento chinês tornou o país o maior emissor de CO₂ do mundo, responsável por cerca de 30%, em 2020, das emissões globais provenientes da queima de combustíveis fósseis. As cidades industriais chinesas tornaram-se símbolo do custo ambiental do desenvolvimento, com níveis alarmantes de poluição atmosférica e degradação ecológica. Assim, qualquer transição energética de alcance mundial dependerá, necessariamente, de uma transformação profunda neste modelo produtivo.

Enquanto o debate sobre a superação deste modo de produção não ganha a centralidade necessária, a experiência chinesa com sua recente “guinada” nas políticas ambientais merece nossa atenção. Um exemplo notável é a “guerra à poluição do ar” declarada pelo governo de Xi Jinping em 2013, em que, com um investimento bilionário, estabeleceu um plano com metas para reduzir a poluição em 35% nos quatro anos seguintes. As medidas incluíram o encerramento de minas e centrais a carvão, a redução da capacidade de produção de ferro e aço e restrições a veículos poluentes. Este esforço resultou numa redução de 40% das partículas nocivas no ar entre 2013 e 2020. Paralelamente ao combate à poluição, a China empreendeu uma revolução nas energias limpas, tornando-se a maior produtora global de tecnologias renováveis.

Não é exagero afirmar que a China tem se tornado o maior laboratório do planeta em busca de uma “economia verde”, descontando aqui, por ora, alguns dos limites contidos no próprio conceito. Fato é que nenhum outro país investe tanto em tecnologias de energias renováveis. Em 2024, mais da metade das novas instalações de energia solar e eólica do mundo foram erguidas em solo chinês. O país lidera com folga a produção e instalação de turbinas eólicas, ultrapassando a soma de EUA e União Europeia. No setor solar, a escala impressiona igualmente: em abril de 2025, o país instalou mais capacidade solar num único mês (45,2 GW) do que a Austrália em toda a sua história, concentrando hoje mais de 70% da produção global de painéis solares fotovoltaicos. O sucesso chinês não é fruto do acaso, mas de uma estratégia de Estado deliberada e de longo prazo. Esse movimento, impulsionado por um forte planejamento estatal e pesados subsídios, mostra que em boa medida o governo chinês não apenas reconhece o problema, mas aposta em liderar a transição como um novo vetor de desenvolvimento.

Mas essa transição também é marcada por contradições. Grande parte da cadeia de produção das energias “limpas” continua dependente de práticas ambientalmente degradantes, como a mineração intensiva de metais raros e a geração de resíduos industriais. Além disso, as exportações de painéis solares e baterias elétricas reforçam uma assimetria global, em que países do Norte importam tecnologias verdes enquanto mantêm sua dependência do trabalho e dos recursos naturais do Sul. A “limpeza” da produção, nesse sentido, não significa uma superação automática das lógicas de exploração e desigualdade que sustentam o capitalismo global.

A trajetória da China está longe de ser linear e enfrenta contradições profundas. Apesar dos investimentos recorde em renováveis, o país continua a construir centrais a carvão, sob alegação de garantir a segurança energética do seu vasto território e economia. Mesmo com a maciça ampliação da capacidade solar e eólica, o carvão ainda é a principal fonte energética do país. Esta coexistência gera críticas e revela a complexidade de uma transição de tal magnitude. O plano chinês de longo prazo é que ocorra uma queda estrutural na participação do carvão na matriz energética nacional. Seu sucesso – rumo a uma possível eliminação total das energias poluentes – é de importância crucial, ainda que hoje pareça distante.

Em termos políticos, a experiência chinesa revela uma singularidade importante: a capacidade de o Estado atuar de modo planejado e coordenado para reestruturar setores inteiros da economia. Esta abordagem contrasta radicalmente com a anarquia inerente aos mercados desregulados; onde decisões fragmentadas e orientadas exclusivamente para o lucro de curto prazo frequentemente falham em enfrentar desafios coletivos de longo prazo, como a transição energética. Por meio de planos quinquenais, políticas industriais estratégicas e investimento maciço em pesquisa e desenvolvimento, o Estado chinês demonstra uma capacidade única de orientar recursos, coordenar agentes públicos e privados e superar a lógica do interesse particular imediato. Esta governança coordenada permite realizar transformações estruturais em escala e velocidade impossíveis em modelos baseados puramente na autorregulação dos mercados, posicionando a China como um ator indispensável na reconfiguração do sistema energético global.

A transição energética não é apenas um desafio técnico, mas um campo de disputa política e civilizatória. Entre os limites impostos pela lógica do crescimento e a urgência ecológica, a China surge como o ator com maior capacidade objetiva de redefinir o curso da crise climática. O caminho é complexo e repleto de ambiguidades, mas se há hoje um país com condições materiais e institucionais para liderar uma transformação energética em escala planetária, este país é a China, não apenas pela força de sua economia e tecnologia, mas pela presença de um Estado capaz de planejar, coordenar e agir estrategicamente diante do tempo curto que nos resta. Portanto, acompanhar e compreender a transição energética chinesa não é uma mera opção acadêmica, mas uma necessidade para se vislumbrar um futuro com energia limpa e estável em escala global.

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