A cortina de fumaça do coronavírus, por Aracy. P. S. Balbani

A realidade é duríssima. Até outro dia, planos de saúde privados preferiam patrocinar clubes de futebol em vez de investir em treinamento permanente dos profissionais de sua rede credenciada.

A cortina de fumaça do coronavírus

por Aracy. P. S. Balbani

Para quem já denuncia publicamente os desmandos com a saúde no Brasil há duas décadas e, mais recentemente, também o virulento neofascismo verde-amarelo, diante do muito que se tem dito e escrito sobre a pandemia do novo coronavírus não sobra quase nada inédito para acrescentar.

Confesso que poucas vezes li e ouvi tanta asneira, preconceito explícito e picaretagem de grosso calibre sobre um mesmo tema de saúde. Muitas patacoadas e mentiras deslavadas foram propagadas, até por médicos. Que vergonha!  Quem tiver um pingo de consciência vai se dar conta do papel ridículo e nocivo a que está se prestando, e fazer a mea culpa. Caberá ao Ministério Público, aos conselhos profissionais, aos órgãos de defesa do consumidor e mesmo à polícia tomar providências.

Orteg y Gasset afirmou: “Não é verdade que o sonhar não custa nada. Custa, sim, se afastar da realidade e depois retornar a ela”.

A realidade é duríssima. Até outro dia, planos de saúde privados preferiam patrocinar clubes de futebol em vez de investir em treinamento permanente dos profissionais de sua rede credenciada. Muitos gestores públicos optaram por sucatear a estrutura existente e terceirizar a gestão do SUS, em lugar de expurgar os maus servidores e os parasitas politiqueiros. Sequer exigiram profissionalismo e ofereceram capacitação técnica e ética aos seus quadros. O lobby da indústria farmacêutica ainda dá as cartas na maioria dos países. Parte da classe média deu muito mais atenção aos tratamentos estéticos do que à lavagem das mãos e à vacinação. A imprensa usou e abusou das concessões públicas de radioteledifusão para privilegiar artistas de telenovelas e golpistas ignorantes, sem levar ao ar serviços maciços de utilidade pública para educação em saúde no horário nobre. Espertalhões estão se aproveitando da crise sanitária e cobrando preços extorsivos pelo álcool 70º, luvas descartáveis, máscaras cirúrgicas, desinfetantes e ouros insumos indispensáveis para que nós, profissionais de saúde, possamos trabalhar com um mínimo de segurança.

O novo coronavírus implantou na marra o Mais Povão. A miséria, a fome, o desemprego, os lixões a céu aberto, a degradação pela dependência química, a prostituição de calçada, a falta de saneamento básico e de acesso à água potável, e o descaso com a pesquisa científica explodiram violentamente na cara da sociedade hipócrita e dos nossos políticos incompetentes. Agora, a burguesia fede mesmo.

Quem tem vida tem medo de adoecer com sofrimento e de morrer. Apesar do gongo ter soado na cabeça de muita gente, não tenho a ilusão de que teremos uma civilização mais solidária, justa e fraterna. Não sonho que igrejas doarão parte do dízimo para pesquisas sobre o coronavírus e oferecerão seu espaço colossal para instalar hospitais de campanha e abrigar os sem-teto e dependentes das Cracolândias. Nem ponho meu dedo no fogo que não haverá nenhuma corrupção nas compras e contratações emergenciais para enfrentar a pandemia.

Aliás, a corrupção acabou? Já foi concluído o inquérito sobre a morte do miliciano Adriano da Nóbrega na Bahia? E no que deu o caso do interfone da portaria do condomínio Vivendas da Barra? E o episódio do torcedor corintiano que teria sido intimidado por PMs durante uma partida de futebol em São Paulo em 2019? Isso para ficar em apenas três tópicos que desapareceram atrás da cortina de fumaça da COVID-19.

Mas ainda há esperança. Muita. Quando leio as notícias maravilhosas de colaboração entre pesquisadores brasileiros de várias áreas, como na produção de um rodo desinfetante ultravioleta ou da câmara ozônio para desinfecção de máscaras N95, sinto que a vida inteligente e a honestidade intelectual pulsam muito fortes. E vão vencer o desafio.

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