12 de junho de 2026

A cultura do linchamento e as redes sociais, por Paulo Fernandes Silveira

Pelas análises dos sociólogos, os linchamentos nos EUA e no Brasil, nas primeiras décadas do século XX ou nos dias atuais, respondem à uma demanda sádica da população.
Cena final do videoclipe “This is America”, de Donald Glover

A cultura do linchamento e as redes sociais

por Paulo Fernandes Silveira

“Em 1904, o afro-americano Luther Holbert foi amarrado a uma árvore em Doddsville, no Estado americano do Mississippi, por uma multidão que o acusava de ter matado um fazendeiro branco. (…)

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Junto de Holbert, também presa a uma árvore, estava uma mulher – acredita-se que era sua esposa. Ambos foram obrigados a erguerem as mãos. Em seguida, seus dedos foram cortados um a um, e depois jogados para a multidão, como uma espécie de souvenir macabro. Suas orelhas também foram cortadas.

Além disso, os dois foram espancados. Uma espécie de saca-rolhas foi usado para fazer buracos em seus corpos e retirar pedaços de suas carnes. Finalmente, Holbert e a mulher foram jogados em uma fogueira e morreram queimados. (…)

A tortura e o assassinato de Holbert e da mulher desconhecida foram assistidos por uma multidão de homens, mulheres e até crianças, todos brancos. Enquanto presenciava o linchamento, o público comia ovos recheados e bebia limonada ou uísque, com a mesma atitude tranquila de quem está fazendo um piquenique.”

“’Lincha, mata’, ouviu o policial apedrejado durante o protesto em SP”, esse foi o título de uma das reportagens da FOLHA de São Paulo sobre as manifestações de junho de 2013. Em abril de 2014, numa entrevista concedida ao EL PAÍS, o sociólogo José de Souza Martins afirma que, após as manifestações, o número de linchamentos no Brasil saltou de três ou quatro por semana para mais de um por dia.

Em suas pesquisas, Martins reconhece uma cultura do linchamento nos EUA e no Brasil. Segundo o sociólogo, no século XIX, os linchamentos tinham uma clara motivação racial. Para um negro ser linchado bastava entrar nos espaços dos brancos. Atualmente, tanto nos EUA quanto no Brasil, um negro não é linchado por ser negro, mas a prontidão para linchar um negro é maior do que para linchar um branco que tenha cometido o mesmo delito.

Ao analisar o videoclipe “This is America”, de Donald Glover, o sociólogo David Pilgrim destaca as referências aos espetáculos de menestréis e ao período dos linchamentos nos EUA. No seu videoclipe, Glover coloca lado a lado essas duas práticas, a do teatro e da arte de negros para entreter os brancos, e a dos brancos perseguindo os negros.

Num trabalho fundamental sobre o tema, a socióloga Maria Victória Benevides alerta para uma pesquisa realizada em 1980, segundo a qual 44% dos brasileiros apoiavam o linchamento; em 2018, esse índice era de 23,5%. Entre os dados e os depoimentos apresentados e analisados por Benevides, chama a atenção as palavras de um morador humilde e idoso da Baixada Fluminense: “o rádio diz a toda hora para o povo colaborar com a polícia; o povo colabora linchando”.

No início do século XX, relata o sociólogo Stewart Tolnay, jornais americanos, como o New Orleans State e o Starkville Daily News, convocavam a multidão para participar de alguns linchamentos. Numa reportagem de 2018, publicada pela Época, o jornalista Ariel Palacios explica o formato do chamado “linchamento 2.0”. Nas redes sociais, certos grupos espalham rumores sobre supostos crimes, organizam a população para o linchamento e, posteriormente, divulgam imagens das atrocidades cometidas.

Na leitura primorosa de Celso Favaretto, com suas músicas, imagens e poesia, a Tropicália compôs significados valendo-se de uma linguagem caleidoscópica que justapõe fragmentos de notícias, ideias e experiências. Sem ter o talento dos tropicalistas, de Donald Glover, de Hermano Vianna ou de Djamila Ribeiro, que também dominam essa linguagem caleidoscópica, tentei aproximar cenas de horror e de barbárie. Pelas análises dos sociólogos, os linchamentos nos EUA e no Brasil, nas primeiras décadas do século XX ou nos dias atuais, respondem à uma demanda sádica da população. Seguindo a lógica das redes sociais, o atual governo parece comprometido com essa demanda.

Paulo Fernandes Silveira – FEUSP e IEA-USP

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

2 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Marly

    31 de julho de 2019 10:34 am

    Linchamento criminoso também foi cometido ao Lula e seu partido. O que hoje revela o corajoso Intercept, há anos já comentavamos nesse espaço. Inclusive acerca do golpe fatal do TRF4, onde habitam os “compadres” de Moro, com suas decisões espúrias. Lula terá direito à liberdade em setembro. Com certeza, as mesmas escórias humanas, atuarão para condena-lo pela farsa do sítio pertencente à familia de Jacó Bittar, seu amigo desde a década de 70. Urge que, caso o Intetcept possua mostras desse conluio, que as apresente, para conhecimento do público e que sejam desmascarados mesmo que venham a dar continuidade à prisão de Lula. Embora há anos tenhamos conhecimento de toda essas artimanhas, não temos o poder de publicação ampliada. É CHEGADA A HORA DE BOTAR A CAMA NA RUA!!!

  2. midias sociais

    10 de agosto de 2019 10:52 pm

    Quanto delírio!!

Recomendados para você

Recomendados