A doença do infantilismo: Maradona, o futebol e o feminismo, por Camila Koenigstein

Se por um lado o futebol liberta o homem de determinadas amarras sociais, por outro expõe toda a força do patriarcado

Foto Revista Lance!

A doença do infantilismo: Maradona, o futebol e o feminismo.

por Camila Koenigstein

Vinte e cinco de novembro era reconhecido como o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, mas, com a morte inesperada do maior ídolo do futebol da Argentina, Diego Armando Maradona, a data seguramente ganhará novos contornos.

Diante da comoção nacional, homens em sua grande maioria saíram às ruas de todo o país para prestar homenagens ao legado futebolístico do jogador, mas também era notório que muitos destacavam o envolvimento de Maradona com regimes políticos com forte direcionamento de esquerda e apoio à classe trabalhadora, exaltando o argentino de origem humilde, que caminhava junto com o povo oprimido, expondo mais uma vez a força que tal esporte tem no âmbito do simbólico/imaginário.

A capacidade do futebol de ser um símbolo de identidade nacional há muito é conhecida. No meu livro sobre nacionalismo eu escrevi que “a comunidade imaginária de milhões parece ser mais realista do que um time de onze pessoas”. Atualmente, indubitavelmente, isto é mais importante do que nunca na história, já que grandes jogadores são recrutados de quase todos os cantos do mundo. Acho que só participar de uma Copa do Mundo é que faz as pessoas que vivem no Togo ou em Camarões darem-se conta de que são cidadãos de seus países. Posso entender o apelo deste tipo de patriotismo, mas eu não tenho entusiasmo nenhum pelo nacionalismo.

(Eric Hobsbawm)

Sua ascensão meteórica, assim como a de tantos outros jogadores que saíram da pobreza por meio do seu talento nato, foi exemplo de superação para toda uma geração de meninos argentinos.

Ficou famoso por suas fotos com Fidel Castro, Hugo Chaves e sua tão difundida tatuagem de Che Guevara, o que o aproximava mais ainda das massas.

No entanto, sua simpatia por regimes de esquerda não o tornou um indivíduo melhor nem lhe garantiu um comportamento exemplar como muitos gostariam – o contrário, foi um homem com fortes contradições, que, apesar da origem pobre e de representar muito da cultura popular, usou a fortuna e o prestígio para usufruir de todos os privilégios que o patriarcado fornece aos homens, principalmente aqueles que ficam famosos, e de forma mais contundente os que pertencem ao âmbito esportivo, espaço que gera somas astronômicas de dinheiro. Mas tal fator sempre foi ofuscado pelo caráter irreverente e combativo de Maradona, que personificava o homem simples, sem muita instrução, humano e passível de erros. De maneira geral, os homens são encaixados nessas categorias, o que possibilita a isenção de responsabilidade pelos seus atos. Não à toa a expressão pibe de oro (menino de ouro) é amplamente utilizada pelos fãs, uma forma de eternizar a figura do menino que existia em Diego, e meninos não erram, se equivocam.

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É certo que o futebol é um dos poucos esportes com essa capacidade de aglutinar grupos variados, permitindo que tensões sociais existentes fora do campo sejam diminuídas pelo sentimento de pertencimento ao time do coração, deixando de lado sobretudo a questão de classe – homens ricos e pobres podem torcer para o mesmo time. Também é notório que é um esporte apreciado mais por homens que por mulheres, talvez por permitir o afeto explícito entre eles. No estádio podem se abraçar, chorar, gritar e atuar sem os freios morais impostos pela cultura machista, tendo como pano de fundo o campo verde cheio de outros homens correndo para levar seu time rumo à vitória.

Se por um lado o futebol liberta o homem de determinadas amarras sociais, por outro expõe toda a força do patriarcado, com ofensas que envolvem grupos minoritários sendo facilmente pronunciadas, algo que por muito tempo foi naturalizado, e que somente nos últimos anos começou a ser observado com maior atenção.

Após o anúncio do falecimento, rapidamente diversas vertentes do movimento feminista, principalmente na Argentina, começaram a mostrar o lado sombrio do jogador, e prontamente foram julgadas de moralistas e desumanas, que não era o momento apropriado para tal conduta. A pergunta é: quando foi ou será um bom momento de expor as condutas abusivas dos homens? Os casos de violência doméstica, abuso de menores, agressões e insultos a mulheres que trabalham no meio esportivo foram recorrentes na vida do atleta, mas pronunciar algo naquele preciso momento foi considerado pouco oportuno, colocando mais uma vez o lado político e ideológico de Maradona como mais importante do que a violência cometida por anos contra muitas mulheres, fato que merece cair no esquecimento.

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O cenário armado a partir daí foi bastante esclarecedor, não só para compreender meandros culturais da sociedade argentina, que carrega até os dias de hoje o orgulho por Juan Domingo Perón (1895-1974), mesmo que esse tenha estabelecido vínculos com nazistas por um largo período, como também para compreender que análises críticas são consideradas ofensivas dentro de um continente carente de instrução e informações sérias.

O fato também serviu para refletir sobre como a sociedade latino-americana, mesmo que tente avançar, ainda carrega a marca do positivismo, criando próceres de caráter duvidoso, mas que diante da morte têm o seu passado apagado, uma espécie de renascimento de uma figura “limpa”, quase santificada.

A indignação de muitas mulheres não foi precisamente pela dor da perda do ídolo controverso, mas pela reação descomunal dos homens, que literalmente se jogaram no chão, chorando como crianças a perda de alguém que não conheciam de verdade, exceto pela televisão ou por alguma partida que possam ter visto.

A total frieza da população masculina diante da violência que só cresce anualmente sobre os corpos femininos e feminizados, e que durante a quarentena gerou índices alarmantes de feminicídios, uma barbárie sem fim, não causou até o momento nenhuma reação na população masculina. As marchas são compostas de mulheres, crianças e familiares e o silêncio predomina, como se todas essas mortes não fossem parte de um mesmo pacote protegido pelas estruturas sociais que permitem que Maradona entre para história como um grande homem e que as irmãs Mirabal, mortas em 25 de novembro de 1960 pelo ditador Rafael Trujillo, na República Dominicana, fiquem esquecidas ou nem sequer sejam recordadas pela coragem de enfrentar uma das piores ditaduras que o continente conheceu.

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Assim como Diego, outros jogadores de futebol seguem construindo o seu legado mesmo após denúncias e mais denúncias de abusos, a exemplo do jogador Robinho, que debochou publicamente do movimento feminista e justificou o seu comportamento no caso do estupro coletivo contra uma jovem alegando que ela estava completamente bêbada.

Ao longo da história, mulheres famosas foram julgadas por seus comportamentos “controversos”. Cantoras, escritoras e atrizes ficaram conhecidas muito mais por sua conduta moral e pessoal do que por seu talento, e exemplos não faltam: Etta James, Billie Holiday, Whitney Houston, Amy Winehouse, Judy Garland, Sylvia Plath, Maysa, Dolores Duran, Frida Kahlo e mais uma lista interminável de mulheres que tinham uma enorme capacidade dentro de suas áreas de atuação, mas cujo talento ficou em segundo plano, e a vida pessoal ganhou notoriedade.

É lamentável viver em um continente que não problematiza suas contradições e idiossincrasias, que prefere tapar os ouvidos e seguir na “infantilidade” eterna,  apoiados em significantes que não aportam avanços nos debates sociais, que criam mitos intocáveis, o eterno culto ao indivíduo.

A morte de Diego é somente uma pequena representação sobre o valor que determinadas vidas têm, o que expõe muito do comportamento ético e moral de todo um continente, que segue a eterna política do pão e do circo.

Camila Koenigstein. Graduada em História, pela Pontifícia Universidade Católica – SP e pós graduada em Sociopsicologia pela Fundação de Sociologia e Política – SP. Atualmente faz Mestrado em  Ciências Sociais, com ênfase em América Latina y Caribe pela Universidade de Buenos Aires (UBA).

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3 comentários

  1. A autora do texto afirma:

    “Também é notório que é um esporte apreciado mais por homens que por mulheres, TALVEZ POR PERMITIR O AFETO EXPLÍCITO ENTRE ELES. No estádio podem se abraçar, chorar, gritar e atuar sem os freios morais impostos pela cultura machista, tendo como pano de fundo o campo verde cheio de outros homens correndo para levar seu time rumo à vitória”.

    Olha o que o Reys fez com o Gallardo, comemorando o gol marcado por este:

    https://www.elmundo.es/elmundodeporte/2001/11/27/liga/1006874812.html

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  2. Até que enfim vejo um feminista problematizando sobre o futebol!! O futebol é, no mundo inteiro não só no Brasil, o maior código de reconhecimento e reafirmação do machismo patriarcal.
    Quando uma criança nasce, se for do sexo masculino, com certeza um dos primeiros presentes que ganhará será relacionado a futebol, quase sempre aquelas horríveis e caríssimas camisas de times de futebol (em resumo simples empresas que NADA PRODUZEM). Quando vão a estádios os homens se sentem libertados da “opressão familiar” para expressar a toda voz os “mantras” machistas, racistas e homofóbicos, apoiados pela voz de milhares de similares. Tudo no futebol é “masculinizado”! Os xingamentos ao adversário (qual é mesmo a necessidade de xingar o adversário?) são todos relativos à sexo, cor e opção sexual das pessoas (ex. em MG atleticanos chamam cruzeirenses de “marias” e os cruzeirenses chamam atleticanos de “frangas”).
    Para mim é uma questão inexplicável como uma mulher pode torcer por um time de futebol! Além de ser uma coisa completamente imbecil de se fazer ainda reforça todo este patriarcalismo machista, racista e homofóbico que domina o país.
    Por que todos seguem negando coisas TÃO ÓBVIAS assim??!!

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  3. Concordo com parte das colocações da articulista. Mas para mim pretensas questões morais jamais foram empecilho para admirar Billie Holiday, Sylvia Plath, Maysa, Amy Winehouse e todas as demais citadas.

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