A escolarização do vagabundo, por Samuel Lourenço

A escolarização do vagabundo

por Samuel Lourenço Filho

Dentro do presídio, poder sair da tranca para ir à escola é um processo muito louco, e libertador em alguns sentidos. Confinado dentro de uma cela, em que a quantidade de pessoas por metro quadrado não corresponde ao proposto nas normas, uma das poucas possibilidades que o preso tem, para “passear” na galeria, é no momento que o inspetor abre a cela e faz a chamada dos alunos. Trancafiados 24h por dia (NÃO EXISTE ESSE TRECO DE BANHO DE SOL DIÁRIO), os poucos presos que conseguem ir à escola, são beneficiados por um monte de coisas que passo a explicar:

Capturados para fins de confinamento integral, o preso que consegue um momento de trânsito entre uma galeria e outra já é um sortudo. Não são todos os presos que conseguem sair da cela para alguma atividade específica. Já presenciei situações em que o preso solicita atendimento médico, apenas para dar um rolê na cadeia, e de brinde conseguia uns analgésicos. Então, um trajeto que exija uns 70 passos já torna a temporada na prisão mais leve. Nesse sentido a escola é libertadora.

Depois, a escola promove um bem estar pela forma de identificação: os professores chamam os alunos pelo nome, em sua grande maioria. Em geral, os presos são identificados de maneira bem diversa. O colega preso sempre chama o outro preso por um apelido, vulgo ou sigla das iniciais do nome (Mosquito ; Dudu Capeta; MK…). Já os agentes variam na chamada: é “interno”, “preso”, “bandido”, “vagabundo”, “senhor”, “cidadão”, “malandro” e, às vezes, pelo nome, quando o preso é marcado. Sendo assim, chegar à escola e ser chamado pelo nome, o nome que sua mãe gritava na hora da bronca, é fantástico. Ter o nome citado, talvez seja uma das poucas ações efetivas no resgate da humanidade do sujeito.  E nesse sentido, ajuda pra caramba ao elemento, no cotidiano prisional.

E quando chega na sala de aula? Tem luz, tem cor, tem ventilador. É SALA E NÃO CELA! O cheiro muda um pouquinho. “Ah, então aquilo lá é um paraíso” – óbvio que não! Mas não reconhecer o bem que faz sentar numa cadeira, e não no chão, é um bom caminho. Beber água gelada no bebedouro, e não água quente que sai do cano três vezes ao dia, é outa coisa que cabe destaque. Escrever, ler, ter contato com colegas de outras celas, poder andar de cabeça erguida e braços soltos são coisas que não acontece de maneira tranquila. Se está escrevendo na cela, o guarda pode achar que é um catuque, um toque, um “bilhete” pra outros amigos de outras celas, pedindo droga, pedindo pra telefonar… E se não anda com as mãos para trás, leva um tapão: “Tá andando igual pato, acha que isso aqui é Shopping?”. Se anda de cabeça erguida, logo é “motivado” a abaixar a cabeça, para não ficar olhando muito a cara do guarda, ou seja, poder fazer tudo isso na escola, é sim, um alívio. Olhar para o professor, para a professora, e ser visto e não vigiado é de uma dignidade sem fim.

Tem muita coisa que pode ser dita em favor da escola, críticas devem ser feitas também. Às vezes as críticas são sempre mais “importantes”, o que sufoca um pouco as outras coisas que precisam ficar expostas também. E a desvalorização da escola pública e do ensino público prejudica a relação entre os sujeitos e as instituições. Mas, hoje, acordei com vontade de falar sobre algumas coisas que senti na escola da prisão. Tem escolas em alguns presídios, sabiam? E queria destacar que fui muito feliz ali dentro, estar na escola, além de caminhar na galeria, era um passo de liberdade, em liberdade para a liberdade. Com carinho, escrevo para as pessoas que conheci na escola da prisão.

Samuel Lourenço Filho – Cronista, palestrante, egresso do Sistema Prisional, aluno de Gestão Pública para o Desenvolvimento Econômico e Social -UFRJ

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