A História do Mundo – parte IV, por Gustavo Gollo
Surgimento dos planetas e origem da vida
Desequilíbrios na produção de energia no interior dos núcleos estelares – baseada na aglutinação, ou fusão, de núcleos atômicos – acabam, eventualmente, produzindo algo similar a uma bomba de hidrogênio descomunal, que explode espalhando o material da estrela no espaço ao redor – vasta quantidade de hidrogênio, somada a hélio e demais elementos atômicos forjados nos núcleos estelares, como resultado da fusão que a aquece.
Regida pela gravidade, a matéria expelida pela explosão começa a se reaglutinar em grumos cada vez mais massivos. 2, ou mais, grumos, podem absorver a maior parte da matéria estelar expelida, iniciando a formação de sistemas estelares múltiplos, com duas, ou mais, estrelas, orbitando, umas em torno das outras.
Algumas vezes, a maior parte da matéria expelida aglutina-se em uma única massa central, formando uma estrela em torno da qual orbitam aglomerados menores. Para se tornar uma estrela, um aglomerado de matéria deve possuir certa quantidade mínima. Quantidades inferiores de matéria não são capazes de “acender” o astro e transformá-lo em uma estrela, resultando em planetas, onde as temperaturas relativamente baixas permitem a manutenção dos processos químicos, impossíveis sob o intenso calor estelar, inviáveis nas gélidas extensões do espaço.
O surgimento da vida
Toda a vida existente surgiu de uma “semente” primeva, de um replicador original cujas cópias, sob múltiplas variações, correspondem aos seres vivos atuais. Reconstruamos uma dessas possibilidades, baseada em ideia do escocês Graham Cairns-Smith.
Minúsculos núcleos abrasivos lançados pelo vento, ou água, à rocha que os originou, replicam-se, gerando uma infinidade de partículas cristalinas similares a si, cujas superfícies tendem a adsorver (grudar nelas) moléculas variadas existentes no meio ao redor, sob as mais diversas conformações.
Dentre a infinidade de compostos formados pela adsorção de moléculas a um cristal de argila, alguns possuem mais estabilidade que outros, sendo capazes, eventualmente, de perdurar o suficiente para capturar e adsorver ao composto, um cristal similar ao que o compõe.
A cumplicidade da multiplicidade nos permite considerar um composto relativamente estável, cujos íons aderidos a sua superfície favoreçam a escolha de seus vizinhos, tendendo a aglutinar, em torno de um novo núcleo recém-incorporado ao composto, uma sequência de moléculas similar à que reveste o núcleo iniciador do procedimento. A repetição do processo gera um aglomerado cujos complexos que o compõem eventualmente destacam-se da cadeia, iniciando processo análogo ao que o gerou.
A instabilidade relativa de tais compostos, faz com que o processo de seleção natural tenda a manter e replicar os tipos de maior estabilidade, eliminando os tipos mais instáveis, propiciando, dessa maneira, a obtenção de tipos cada vez mais estáveis e capazes de gerar mais réplicas similares a si.
Andaimes
Inúmeros mistérios da natureza são encarados com menos estupefação se considerarmos a utilização de “andaimes” para a construção do elemento assombroso. Andaimes são artifícios utilizados durante a construção de edifícios, para facilitar, especialmente, o acabamento externo de prédios altos, de suas fachadas. Acoplado ao exterior da construção, o andaime permite, por exemplo, a aplicação de revestimentos na parede externa do edifício, façanha quase impossível, sem a implementação de tal artifício. A peculiaridade dos andaimes que os torna dignos de nota e causadores de tal espanto, é o fato de serem retirados de cena depois do uso, tornando o resultado de sua utilização bizarramente inexplicável, desconsiderando-se seu auxílio.
Seres vivos se utilizam corriqueiramente de artifícios análogos aos andaimes, necessários durante a autoconstrução da criatura, e posteriormente eliminados de onde tiveram sua utilização exigida.
Entre os seres vivos, o uso de andaimes é chamado “metabolismo”. A efetuação de metabolismo é uma das exigências para que uma criatura qualquer seja considerada viva. Vírus, por exemplo, são criaturas inertes, não metabolizam, razão pela qual não são considerados seres vivos.
Surgem os seres vivos
Tornemos aos replicadores compostos por íons adsorvidos ordenadamente a um grão de argila, já sujeitos aos ditames da replicação e da seleção natural, exatamente quando um deles passa a utilizar e descartar um conjunto de íons utilizados previamente, para, em seu lugar, incorporar outro complexo, que o substitui sobre a superfície do grânulo, usando tal artifício como instrumento para a replicação da criatura, que, por executar tal processo, já pode ser considerada viva. Trata-se de um ser que metaboliza, que resgata compostos do meio para sua utilização como instrumento para a confecção de réplicas.
Sujeito à seleção natural, o protosser vivo prossegue em sua saga autorreplicativa, gerando inúmeras réplicas, muitas delas imperfeitas e inúteis, algumas imperfeitas, e, no entanto, mais hábeis que o progenitor em se replicar, gerando quantidade maior de réplicas que seu predecessor, para povoar o espaço ao redor com replicadores mais eficientes, sujeitos ao mesmo processo de seleção natural que, continuamente, seleciona os mais eficientes no empenho da autorreplicação, gerando criaturas cada vez mais hábeis em tal façanha.
E assim, as criaturas se diversificam e povoam o planeta.
Do mesmo autor:
https://jornalggn.com.br/noticia/ciencia-e-arte-por-gustavo-gollo/
https://jornalggn.com.br/artigos/portais-para-o-infinito/
Um adendo: Onde está todo mundo?
A descrição acima, do surgimento do protosser vivo, dadas sua candidez, simplicidade, plausibilidade, poder explicativo e convencimento, reforça uma antiga pergunta atribuída a Enrico Fermi que, ao se deparar com cálculos otimistas sobre a probabilidade de surgimento de seres inteligentes teria perguntado? E ondé que tá todo mundo?
Bem, alguém tinha que ser o primeiro a chegar na festa.
Gustavo Gollo é multicientista, multiartista, filósofo e profeta
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