A importância do esclarecimento e do pensamento dialético na educação
por Michel Aires de Souza Dias
No século XVIII, em seu ensaio “O que é esclarecimento” (1784), Kant se inseriu no debate da Aufklãrung: a questão de saber se a Alemanha e a Europa viviam em uma época esclarecida. Ele chegou à conclusão de que não, pois as pessoas em sua época viviam em um permanente estado de menoridade, devido à covardia e a preguiça de se fazer uso do próprio entendimento. Colaborava com isso, o advento dos instrumentos mecânicos, os preceitos e fórmulas, e o mau uso dos dons naturais no ser humano. Em pleno século XXI, parece que a situação não se modificou. Os indivíduos permanecem em um estado de menoridade. Mas, hoje, é possível sustentar que os meios de comunicação de massa, os novos sistemas de informação, e as novas tecnologias são os principais fatores que mantêm os indivíduos em um permanente estado de menoridade. Por meio de toda essa aparelhagem, eles são impedidos de pensar e de agir de forma autônoma, além de que esses instrumentos perpetuarem os modos de pensar vigentes: os preconceitos, as crenças e as ilusões, que servem de rédeas à grande maioria destituída de autonomia e de reflexão crítica.
O fato de vivermos na era da pós-verdade, já se caracteriza como uma época de menoridade. Hoje, os fatos objetivos têm menos importância do que os desejos, as crenças e convicções pessoais. As fakenews ganharam força diante da realidade. A experiência do pensamento e a reflexão crítica cederam lugar às emoções e aos sentimentos. O uso das plataformas e mídias digitais para manipular os afetos e a consciência, gerando uma falsa representação da realidade, tornou-se uma arma poderosa nas mãos de grupos políticos. Hoje, milhares de pessoas se informam por meio de uma midiosfera extremista, ignorando todos os outros canais de informação e conhecimento. O resultado disso é a dissonância cognitiva, que deforma a compreensão da realidade. Esse delírio coletivo se caracteriza por um curto-circuito entre as crenças do indivíduo sobre o mundo e a própria realidade factual. O indivíduo perde a capacidade de reflexão e julgamento da realidade, perde a capacidade de avaliar e interpretar sua existência de forma autônoma. É por esta razão, que a educação se torna fundamental em nossa época. É necessário recuperar a função primordial da pedagogia iluminista, que era educar para o esclarecimento, para a autonomia intelectual e para a participação política. É necessário retomar o antigo primado da Aufklärung: Separe Aude (Ouse Saber).
Se no século XVIII, Kant compreendeu a menoridade como a condição de tutela, causada pela preguiça e covardia do homem em se servir de seu próprio entendimento, em nossa época, o filósofo Theodor Adorno interpretou a menoridade em termos de perda da experiência. Hoje, os homens não são mais aptos à experiência da realidade, pois entre eles e o mundo existe o aparato técnico, que impede um verdadeiro esclarecimento e compreensão da realidade. O problema mais grave estaria ligado aos meios de comunicação de massas e as novas tecnologias da informação, que são instrumentos a serviço dos interesses de classe, na formação ou deformação da consciência.
O conceito kantiano de esclarecimento tem uma enorme importância para Adorno, justamente porque a aptidão à experiência é definida como conscientização, como esclarecimento sobre a realidade. A conscientização ocorre por meio de uma reflexão direta sobre o mundo, sem a mediação de modelos ou estereótipos já cristalizados, na consciência, pelos meios de comunicação de massa ou pelos vários mecanismos da dominação social. Desse modo, para o pensador frankfurtiano (1995), a aptidão à experiência se vincula ao próprio conceito de consciência, mas não como a capacidade formal de pensar ou ao desenvolvimento lógico formal. O que caracteriza propriamente a consciência é o pensar em relação à realidade, ao conteúdo, a relação entre as formas e estruturas de pensamento do sujeito e aquilo que este não é. É nesse sentido que “[…] a educação para a experiência é idêntica à educação para a emancipação.” (ADORNO, 1995, p. 151).
Em uma passagem de “Educação – para quê?”, Adorno indica, de maneira contundente, sua concepção de educação. Ele deixa bem claro que o grande objetivo da educação não é apenas o de transmitir conhecimentos ou modelar as pessoas, a partir de um ideal, mas sua verdadeira finalidade deve ser a conscientização. Como ele mesmo afirma: “[…] gostaria de apresentar a minha concepção inicial de educação. Evidentemente não a assim chamada modelagem de pessoas, porque não temos o direito de modelar pessoas a partir de seu exterior; mas também não a mera transmissão de conhecimento, cuja característica de coisa morta já foi mais do que destacada, mas a produção de uma consciência verdadeira. Isso seria inclusive de maior importância política; sua ideia, se é permitido dizer assim, é uma exigência política. Isto é: uma democracia com o dever de não apenas funcionar, mas operar conforme seu conceito, demanda pessoas emancipadas. Uma democracia efetiva só pode ser imaginada enquanto uma sociedade de quem é emancipado.” (ADORNO, 1995, p. 141-142).
De acordo com Adorno, para que o indivíduo desenvolva uma experiência autêntica da realidade, se conscientizando do mundo a sua volta, é necessário que ele apreenda a realidade dialeticamente. Em sua opinião, a emancipação “[…] encontra-se relacionada a uma dialética. Esta precisa ser inserida no pensamento e na prática educacional.” (ADORNO, 1995, p. 143). Desse modo, a transformação da realidade deve ser pensada como problema central na educação. O processo pedagógico deve possibilitar aos indivíduos a compreensão da realidade, em seu devir. O que é essencial é a reflexão sobre a relação dialética entre sujeito e objeto, no processo histórico. Não se trata de pensar os fenômenos de forma unilateral pela causalidade, como faz o positivismo, todavia, de refletir sobre a ação recíproca entre os fenômenos e a totalidade que os condiciona.
No processo pedagógico, é relevante que os indivíduos aprendam a observar as condições materiais de existência como um processo histórico espontâneo, governadas por leis independentes da vontade humana, mas que inexoravelmente determinam o comportamento e a consciência dos seres humanos. O importante é compreender nos fenômenos a lei de sua transformação, de seu desenvolvimento, ou seja, as mudanças de uma forma para outra, de uma ordem de relações para outra. O pensamento só pode conhecer a realidade em sua plenitude, apreendendo o objeto idealmente em seu movimento real. Para Marx, “[…] o ideal não é mais do que o material transposto para a cabeça do ser humano e por ela interpretado.” (MARX, 2016, p. 28). Dessa maneira, é necessário que a reflexão se apodere da matéria, em seus pormenores, de analisar suas diferentes formas de desenvolvimento e de perquirir a conexão íntima entre elas. Só a partir disso é que se pode descrever, adequadamente, o movimento real (MARX, 2016).
Na realidade social, não existe nada isolado; os fenômenos sociais não podem ser pensados como coisas, independentes de suas determinações. Em Para a crítica da economia política, Marx pensou os fenômenos sociais pela categoria da mediação e de totalidade concreta. Em suas análises, ele procurou mostrar que não devemos compreender a realidade, começando por categorias gerais, mas devemos partir do mais simples para reconstruir suas conexões, de sorte a assim chegar ao todo vivo e concreto: “[…] o curso de pensamento abstrato que se eleva do mais simples ao complexo, corresponde ao processo histórico efetivo.” (MARX, 1982, p. 15).
O pensamento dialético tem como traço fundamental o trabalho com categorias concretas e não com conceitos. Nesse sentido, todo fenômeno social é parte de uma totalidade mais complexa. Como Marx (1982) exemplificou, a mais simples categoria econômica, o valor de troca, nunca poderia ser pensado sem pressupor uma população produzindo em determinadas condições e, também, certos tipos de famílias, de comunidades ou Estado. O valor de troca nunca poderia existir de outra maneira, senão como relação unilateral, abstrata, de um todo vivo e concreto já dado: “[…] o concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações, isto é, a unidade do diverso.” (MARX, 1982, p. 14). É nessa perspectiva descrita por Marx que se torna necessária a reflexão sobre as condições de produção de toda sociedade e de seu impacto nas formas de existência humana.
Ao contrário de Hegel, para quem o concreto pensado é autocriação do conceito, que vai além da intuição e da representação, Marx insiste que o ponto de partida do processo cognoscitivo está no concreto real (GORENDER, 1982). Para ele, as categorias exprimem “[…] formas e modos de ser, determinações de existência.” (MARX, 1982, p. 18). As categorias não são estruturas somente lógicas que a razão constrói, independentemente, nem tampouco hipóteses intelectivas, mas se configuram como estruturas que a razão extrai do real, reproduzindo mentalmente o que realmente existe (PONTES, 1999). Nesse sentido, a totalidade concreta é o fundamento de toda realidade.
Para esclarecer melhor a relação entre o método dialético e o conhecimento da realidade concreta, vamos nos reportar aqui ao texto de Friedrich Engels, Do socialismo utópico ao socialismo científico. Nessa obra, ele contrapõe dois modos de compreender a realidade: o modo estático ou metafísico de pensar e o modo dinâmico ou dialético de pensar.
No método metafísico de pensar, a natureza é analisada em suas diversas partes. Os diversos processos são classificados, os corpos orgânicos são pesquisados, a partir de suas estruturas internas. Esse modo de proceder fundamenta-se no método científico da observação. Contudo, esse método é limitado, porque produz o hábito de observar “[…] as coisas e os processos da natureza isoladamente, subtraído a concatenação do grande todo; portanto não na sua dinâmica, mas estaticamente, não como substancialmente variáveis, mas como consistências físicas, não na sua vida, mas na sua morte.” (ENGELS, 1984, p. 46). Conforme Engels, esse método de investigação metafísica contaminou o modo de refletir da filosofia, nos últimos séculos. Em nossa época, a filosofia concebe as coisas e as suas representações de maneira isolada, fixa, rígida, como algo acabado e perene. O resultado disso é que esse método é unilateral, limitado, abstrato e se perde em insolúveis contradições, uma vez que é incapaz de enxergar as concatenações entre os fenômenos e o todo (ENGELS, 1984).
Ao contrário do modo metafísico de pensar, a dialética materialista focaliza as coisas e as suas imagens conceituais substancialmente, nas suas conexões, na sua concatenação, na sua dinâmica, na sua relação entre o particular e o todo concreto:Somente seguindo o caminho da dialética, não perdendo jamais de vista as inumeráveis ações e reações gerais do devir e do perecer, das mudanças de avanço e retrocesso, chegamos a uma concepção exata do universo, do seu desenvolvimento e do desenvolvimento da humanidade, assim como da imagem projetada por este desenvolvimento nas cabeças dos homens. (ENGELS, 1984, p. 49).
No pensamento pedagógico de Adorno, a educação deve recuperar essa dimensão formativa, em que cabe aos indivíduos abrir-se à experiência dialética da realidade, compreendendo os fenômenos em suas conexões, na sua dinâmica, no seu processo de nascimento e caducidade. O grande mérito da filosofia alemã foi conceber todo o mundo da natureza, da história e do espírito como um processo, ou seja, em constante movimento, mudança, transformação e desenvolvimento, tentando, além disso, ressaltar a íntima conexão que preside a esse processo de movimento e desenvolvimento (ENGELS, 1984). É no esforço de compreender o movimento dos fenômenos, em suas conexões íntimas, elaborando sínteses, que os indivíduos poderão compreender a realidade. De acordo com Konder (2008, p. 36), “[…] a síntese é a visão de conjunto que permite ao homem descobrir a estrutura significativa da realidade com que se defronta, numa situação dada. E é essa estrutura significativa – que a visão de conjunto proporciona – que é chamada de totalidade.”
Na opinião de Adorno, “[…] só haveria humanidade e não seu simulacro onde se desfizesse o princípio da totalidade” (ADORNO, 1992, p. 220). Contudo, a compreensão do todo se torna problemática, na sociedade capitalista, porque os indivíduos são submetidos inexoravelmente à divisão social do trabalho, que os enclausura em uma vida de labuta e opressão. O processo econômico repressivo, o mercado concorrencial, o sacrifício cotidiano, o medo de ficar à margem e a divisão técnica do trabalho impedem uma orientação autônoma. O próprio Adorno enfatiza: “Os indivíduos, investidos de sua função cognitiva pela divisão das funções próprias da sociedade, baseada na divisão do trabalho, limitam-se a tal ponto às atividades particulares e tecno-práticas, que encontram obstruídos o caminho para a compreensão do todo.” (ADORNO, 1978, p. 151).
No pensamento educacional de Adorno, é só por meio da experiência formativa que os indivíduos podem compreender a totalidade reificada que os governa. Eles devem se desidentificar com essa totalidade. Esse é o primeiro passo para a emancipação. Porém, a educação deve mudar a sua atual situação como instância de dominação de classe. Ela não pode ser pensada a partir de reformas isoladas, mas precisa ser pensada como um fim em si mesmo. O processo formativo tem que atingir todos os âmbitos da cultura e da existência social. A emancipação só pode ser efetiva, ser for “[…] elaborada em todos, mas realmente em todos os planos de nossa vida.” (ADORNO, 1995, p. 182-183).
Referências
ADORNO, T.W. Progresso. Lua Nova, n. 27, p. 217-236, dez. 1992.
ADORNO, T. W. Educação e Emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.
ADORNO, T. W.; HORKHEIMER, M. Estudos da comunidade. In: ADORNO, T. W.; HORKHEIMER, M. Temas básicos de sociologia. São Paulo: Cultrix, 1978. p. 151-171.
ENGELS, F. Do socialismo utópico ao socialismo científico. São Paulo: Global , 1984.
GORENDER, J. Introdução. In: MARX, K. Para a crítica da economia política: salário, preço e lucro; o rendimento e suas fontes; a economia vulgar. São Paulo: Abril Cultural, 1982. p. VII-XXIII. (Col. Os economistas).
KANT, I. Resposta à pergunta: Que é iluminismo? In: KANT, I. Apaz perpétua e outros opúsculos. Petrópolis: Vozes, 2008. p.11-9.
KONDER, L. O que é dialética. São Paulo: Brasiliense, 2008.
MARX, K. O capital: crítica da economia política: Livro. Rio de janeiro: Civilização brasileira, 2016.
PONTES, R. A categoria de mediação em face do processo de intervenção do Serviço Social. Cadernos Técnicos, n. 23, p. 60-68, 1999
[1] Mestre em filosofia pela UFSCAR. Doutor em educação pela USP.
L. L. Vanderlei
7 de janeiro de 2023 9:01 amArtigo oportuno e necessário.
Marcos A.C.Marques
10 de janeiro de 2023 7:39 amDe maneira mais direta as colocações e elaborações de Adorno tangenciam a velha e empedernida alienação pelo trabalho, trazendo ao homem um aprisionamento, pela falta de conhecimento, experiência e consciência ( aprisionamento mais duro e difícil de ser percebido).