A imprensa brasileira e a construção do Minotauro, por André Luan Nunes Macedo

Em meio a uma pandemia, mais uma vez a imprensa brasileira se mostra mais conectada com os desejos de Nova Iorque do que com as maiorias populares

A imprensa brasileira e a construção do Minotauro: coice no culturalismo reacionário bolsonarista e o casamento ideológico com Paulo Guedes

por André Luan Nunes Macedo[1]

Gramsci desde a prisão definiu a construção de hegemonia como o casamento entre coerção e consenso. Se por um lado a sociedade política – aqui entendida não somente pelo grupo de intelectuais (deputados, presidente, ministros, juízes, governadores et. caverna) – é a detentora da direção estatal e do monopólio da força, por outro lado a mesma sociedade política também consolida seus consensos, formando intelectuais com sua visão de mundo, seja individual ou coletiva que a dispersa no seio da sociedade civil. Nesse sentido, um veículo de informação seria o construtor de consensos[2].

Consenso aqui não é entendido como um mero contrato ou aperto de mãos entre sociedade civil e sociedade política, como certas leituras liberais sobre o sardenho tendem a fazer[3]. Afinal, o consenso prescinde da coerção, pré-determina a linguagem e as regras do jogo do convencimento. O amálgama contraditório entre sociedade civil e sociedade política pressupõe a estrutura de um Estado Ampliado, nas palavras de Gramsci. Tal Estado, com estruturas mais solidificadas de difusão do pensamento e de mediação das contradições políticas entre grupos sociais antagônicos, gera as condições fundamentais para a produção de hegemonia. Em alguns momentos, Gramsci chega até a realizar tal operação por meio de exemplos matemáticos (Hegemonia = Sociedade Civil +Sociedade Política)[4].

Para descrever o amálgama da hegemonia, Gramsci se utiliza da mitologia grega para dar um desenho sobre seu pensamento. Segundo ele, a construção de um consenso que prescinde a coerção teria o comportamento de um Minotauro. Metade animal (coerção), metade humano (consenso), a sociedade viveria momentos maiores onde os pactos são mais coesos por meio da supremacia de uma perspectiva política em detrimento das demais. Nesses períodos, o senso comum está tão bem instalado que o conflito e a reivindicação transformadora são tratados como mero foco minoritário. Em outros, a trincheira de enfrentamento é mais agressiva, pois a lógica se dá pela destruição do pacto anterior. Sente-se o coice do Minotauro em declarações de políticos, no avanço da repressão policial contra manifestações sindicais e, em larga medida, de ideias de contraposição à ordem vigente.

Diante das duas opções ilustradas, creio que vivemos o período do “coice do Minotauro”. Se por um lado temos um presidente que produz rompantes contrários a uma fração importante da sociedade política (Congresso e o Supremo Tribunal Federal), por outro temos uma imprensa que endossa o lado “cheiroso” do bolsonarismo, traduzido na “modernidade” da política econômica de austeridade proposta por Paulo Guedes.

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Como historiador, me baseio na empiria. E convido o leitor a uma rápida pesquisa dos editoriais dos principais veículos de informação do país, como Folha de São Paulo, Estadão e o Globo. A tríade oligárquica vive esperneando com a falta de elegância do presidente, seus ataques às instituições democráticas e as ameaças diretas a seus funcionários durante coletivas de imprensa. Ela produz uma jogada ardilosa: tenta dar o coice na “ignorância” e “falta de conduta presidencial”, “intolerância”, seu “machismo, homofobia e racismo” de Bolsonaro e seus lacaios, como Olavo de Carvalho. Por outro lado, usa sua mente para “perfumar” a economia política de austeridade – que nada mais é que uma cópia brega das soluções europeias para a crise em 2008 – implantada desde o primeiro governo Dilma, passando por Temer, Bolsonaro e os respectivos ministros Joaquim Levy, Henrique Meirelles e Paulo Guedes. A tríade intelectual dos economistas em questão pode ter uma diferença aqui e ali no varejo, mas duvido que alguém vá dizer que possui divergências estruturais no atacado.

Em meio à crise do coronavirus, mais uma vez a Folha de São Paulo cumpre o papel cerebral do bolsonarismo no país, ao defender a continuação do regime de austeridade por meio da Emenda 95, que congela gastos públicos por 20 anos no Brasil. Em meio a uma pandemia, mais uma vez a imprensa brasileira se mostra mais conectada com os desejos de Nova Iorque do que com as maiorias populares, sem emprego e à espera de uma solução enérgica, de retomada do emprego e do crescimento.

Se hoje contamos com uma classe trabalhadora que vive do setor de serviços e se encontra no trabalho informal dos aplicativos e, por outro lado, se verá impedida de trabalhar para conter os danos de proliferação do vírus, a Folha de São Paulo – por meio do seu analista, Samuel Pessoa[5] –  e Paulo Guedes falam em redução da taxa de juros (!) e a manutenção do superávit primário (!!). O tratamento da saúde pública se daria por meio de doses homeopáticas de créditos suplementares. No mundo dos sonhos em que as grandes maiorias vivem com R$ 435, num ambiente de falência do “céu de brigadeiro” da Bovespa, Pessoa e a Folha de São Paulo ainda acreditam na caridade econômica vinda de investidores de outros países. É surreal.

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Por mais que haja esperneio midiático e uma briga declarada da imprensa contra Bolsonaro, sugerindo uma porradaria dos dois lados, há um acordo tácito de bastidores do sacrossanto Teto de Gastos e da Reforma Liberal da Previdência –sim existia uma Reforma de corte Desenvolvimentista, proposta pelo PDT de Ciro Gomes. Quem defende a Emenda 95 nesse momento defende a desestrutura e o desamparo do povo brasileiro. Defende uma política de “seleção natural” contra os mais idosos. Defende implicitamente o malthusianismo social e parece torcer para a morte de aposentados em larga escala para reduzir “o déficit da Previdência”. Por mais que o Minotauro possua contradições, ele hoje, no atacado, enfrenta a Constituição Brasileira e a utopia do Estado de Bem-Estar Social.

 


[1] Historiador. Doutorando em História pela Universidade Federal de Ouro Preto e Visiting Scholar na Universidade de Wisconsin-Madison pelo Programa Doutorado Sanduíche no Exterior.

[2] Ver Cadernos do Cárcere, especialmente nas Notas políticas sobre Maquiavel, 2001.

[3] Referimo-nos principalmente à leitura proposta por Norberto Bobbio sobre Gramsci.

[4] Gramsci, Idem.

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2 comentários

  1. Imprecisões
    “…a economia política de austeridade – que nada mais é que uma cópia brega das soluções europeias para a crise em 2008 – implantada desde o primeiro governo Dilma, passando por Temer, Bolsonaro e os respectivos ministros Joaquim Levy, Henrique Meirelles e Paulo Guedes…”
    Desdo o primeiro governo Dilma? Ô, historiador! Mais atenção, por favor. Talvez você tenha querido dizer “desde o fim do primeiro…” Mas não basta a intenção. Precisa escrever.
    “…sim existia uma Reforma de corte Desenvolvimentista, proposta pelo PDT de Ciro Gomes.”
    Ô historiador! Será que é mesmo possível dizer que o PDT de Ciro Gomes queria isso? Se queria, por que Ciro não ficou no Brasil para apoiar Haddad (já que o fim da PEC 95 estava nas propostas do PT) e tentar impedir a vitória do Bozo?

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  2. Por que não simplificar a história: os lucros em queda, a emissão de montanhas de dólares e euros para tentar salvar … as montanhas de dólares e euros … A América Latina sendo sugada pelo vampiros neoliberais. Falta apenas a guerra, ou não ?

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