A infraestrutura brasileira em 2026
por Augusto Cesar Barreto Rocha
Seguimos a privatizar ou conceder o que é possível, transferindo os custos de manutenção para a sociedade, sem muita avaliação de efetividade, sem análise crítica sobre o que dá certo e o que não dá. As análises que aparecem são usualmente relativas a redução de gasto do Estado, mas o custo da operação, que não era diretamente da sociedade, passou para ela. Saiu de um bolso e foi para o outro.
As regiões mais pobres e carentes de infraestrutura seguem do mesmo jeito. Não há um plano para redução das desigualdades regionais ou nacionais. Aliás, muito ao contrário disto, pois as premissas dos Planos em elaboração nem colocam isso nas perspectivas de discussão.
As regiões mais ricas seguem a atrair muitos recursos. Regiões periféricas, como o Norte do Brasil atraem investimentos no sentido de extrair mais recursos ou para servir como corredor de exportação – um caminho de passagem. Retirar impostos ou recursos naturais: simples de analisar.
Assim, as áreas mais isoladas seguirão isoladas. Não há um interesse em incluir. O interesse é dos grupos econômicos de maior porte, que se fazem ouvir de alguma forma. Somos realmente muito conservadores, onde se conserva os poderes e as alocações patrimonialistas. E não há perspectivas de mudanças, porque isso sequer é discutido nas pautas públicas.
Há muita perspectiva para concessão, para privatização e para construções de modelos para privatização. Não há grandes pautas para mudar a infraestrutura nacional. O Plano Nacional de Logística segue em discussão, mas sem os planos transformadores que poderia trazer.
Assim, 2026 chegará sem ambições transformadoras. Chegará com mais do mesmo, conservando tudo como está e concedendo tudo que é possível. Pouco a pouco, até os Servidores de Carreira do Estado percebem este caminho como a “única saída”, porque não há espaço para outra coisa. Poderia ser diferente, mas não é. O Estado está ficando distante das aspirações dos Constituintes, que conceberam um Estado moderno, com servidores de carreira, para superar o patrimonialismo.
E este ambiente não é uma exclusividade nacional. As perspectivas internacionais não são muito diferentes, como noticia o Washington Post (20/12/2025, p. A5), onde apresenta a troca de nome do “The Kennedy Center for the Performing Arts” para “The Donald J. Trump and The John F. Kennedy Memorial Center for Performing Arts”. Aqui, esta troca seria ilegal e, segundo a reportagem, lá também, mas foi feito.
Da logística para a arte? Sim. O que vale olhar é como as instituições veem o Estado e seu papel frente ao uso do recurso para a sociedade ou para os grupos poderosos. O que se estimula e o que não se prioriza. O que se conversa e que se considera, versus o que se ignora. Onde se corrigem as alocações de recursos e onde se aloca ainda mais recurso. Discutir o papel do Estado para as oligarquias ou para as pessoas, para os 99% ou para o 1%.
Será que em algum dia mudaremos de perspectiva? Parece que não será em 2026, pois a alternativa que lutamos é tímida: manter um regime de liberdade e de boas práticas somadas com as leis cumpridas. O mundo e o Brasil parecem ficar cada dia mais longe de uma sociedade igualitária e em desenvolvimento que inclua todos.
Augusto Cesar Barreto Rocha – Professor da UFAM.
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