A Nigéria para além dos números: parceria estratégica e resultados econômicos com o Brasil
Por Vanessa Africani e Ronaldo Vieira
Em geral, as relações entre países costumam ser medidas por tratados, visitas oficiais e declarações diplomáticas. Há, porém, outras formas de compreender uma parceria internacional. Algumas delas surgem quando empresários buscam novos mercados, quando pesquisadores se dedicam a entender sociedades distantes e quando pessoas de origens diferentes descobrem interesses comuns. É nesse terreno mais humano, menos visível nas estatísticas e nos comunicados oficiais, que nossa reflexão sobre as relações entre Brasil e Nigéria foi construída.
Nós chegamos a esse tema por caminhos distintos. Vanessa Africani aproximou-se da Nigéria a partir do trabalho de campo. Entre 2023 e 2025, participou de iniciativas de promoção de investimentos, acompanhou missões oficiais, organizou eventos, esteve em contato com representantes de governos estaduais, empresários e instituições nigerianas e observou de perto os esforços realizados para ampliar as relações econômicas entre os dois países. Seu trabalho consistiu menos em analisar documentos e mais em ouvir pessoas, compreender experiências e identificar como a Nigéria é percebida por aqueles que atuam diariamente em seu ambiente econômico.
O caminho de Ronaldo Vieira foi marcado pela diplomacia e pela pesquisa. Além de servir na Nigéria como Ministro-Conselheiro da Embaixada do Brasil em Abuja e, posteriormente, retornar ao país para chefiar o Consulado-Geral do Brasil em Lagos, dedicou-se também ao estudo acadêmico das relações Brasil-Nigéria. A pesquisa resultou em uma tese construída a partir de entrevistas, documentos históricos e análises de diferentes momentos da relação bilateral. Ao revisitar essa trajetória, tornou-se evidente que os períodos de maior aproximação entre os dois países sempre estiveram associados à capacidade de transformar afinidades políticas e culturais em iniciativas concretas de cooperação econômica e social.
Foi a convergência dessas duas experiências que deu origem a este artigo. Ao longo dos últimos anos, percebemos que grande parte das informações disponíveis sobre a Nigéria continua sendo produzida a partir de perspectivas externas. Organizações internacionais, centros de pesquisa sediados na Europa e na América do Norte e grandes instituições multilaterais oferecem contribuições importantes para a compreensão do país. Entretanto, frequentemente deixam em segundo plano elementos que se revelam fundamentais para quem trabalha diretamente com a realidade nigeriana. Nossa intenção aqui é apresentar uma visão construída a partir da observação direta, da pesquisa, do diálogo e da convivência com pessoas que atuam na Nigéria contemporânea.
Nesse processo, tivemos a oportunidade de manter conversas particularmente enriquecedoras com Yusuf Maitama Tuggar, ex-Ministro das Relações Exteriores da Nigéria e ex-Embaixador da Nigéria na Alemanha. Após deixar o comando da diplomacia nigeriana em 2026, Tuggar voltou-se para suas atividades empresariais e para sua atuação política em seu estado natal, Bauchi. Nossos encontros não tiveram o formato convencional de entrevista. Foram diálogos longos e abertos, nos quais ideias eram apresentadas, questionadas, aprofundadas e frequentemente reformuladas à luz das experiências acumuladas por cada um de nós.
Uma das primeiras conclusões que emergiu dessas conversas foi a necessidade de ir além dos números. A Nigéria costuma ser apresentada ao mundo por meio de sua população, de seu PIB, de suas reservas energéticas ou de projeções sobre seu crescimento demográfico. Todos esses indicadores são relevantes, mas não explicam como o país efetivamente funciona. Ao longo de nossas experiências, percebemos que compreender a Nigéria exige conhecer suas seis regiões geopolíticas e seus 36 estados, suas dinâmicas culturais, suas cadeias de valor, suas formas de organização econômica e os mecanismos pelos quais oportunidades se transformam em negócios.
Frequentemente observamos investidores estrangeiros chegarem ao país munidos de relatórios detalhados, mas com pouco entendimento sobre a realidade local. Em nossas conversas, Tuggar insistia que uma oportunidade de negócios na Nigéria não pode ser identificada apenas em uma planilha. É preciso compreender onde ocorre a produção, quem participa de cada etapa da cadeia produtiva, quais regiões influenciam determinados setores e de que maneira fatores culturais afetam processos de negociação. Essa observação nos pareceu particularmente importante porque coincide com aquilo que Vanessa encontrou repetidamente em suas pesquisas de campo e com aquilo que Ronaldo observou em sua atuação diplomática.
Outra reflexão recorrente dizia respeito ao futuro da parceria entre Brasil e Nigéria. Durante décadas, os dois países cultivaram uma relação marcada pela diplomacia, por afinidades históricas e por interesses estratégicos compartilhados. Entretanto, nossa percepção comum era de que o próximo capítulo dessa relação dependerá cada vez mais da capacidade de produzir resultados concretos para empresas, empreendedores, pesquisadores, artistas e investidores. Não se trata de substituir a diplomacia pelos negócios, mas de reconhecer que o fortalecimento da relação bilateral passará necessariamente pela expansão de iniciativas econômicas sustentáveis.
Ao discutir as possibilidades de cooperação, percebemos que o conceito de complementaridade aparecia constantemente. Em vez de enxergar Brasil e Nigéria como concorrentes em determinados setores, Tuggar defende que os dois países possuem ativos que podem ser mutuamente vantajosos. O Brasil acumulou experiência reconhecida internacionalmente em agricultura tropical, pesquisa agropecuária e desenvolvimento tecnológico para o campo. A Nigéria, por sua vez, amplia sua capacidade industrial na produção de fertilizantes e dispõe de abundantes reservas de gás natural. O que emerge dessa combinação transcende o caráter de dependência, e se apresenta como uma oportunidade de intercâmbio entre capacidades complementares.
A mesma lógica apareceu quando discutimos mineração, energia e infraestrutura. O ex-ministro argumenta que a diversificação geográfica da produção de recursos estratégicos tornou-se ainda mais importante em um contexto internacional marcado por tensões comerciais, tarifas e incertezas geopolíticas. Ao mesmo tempo, observamos que empresas brasileiras possuem competências técnicas reconhecidas em áreas como exploração offshore, construção de infraestrutura e geração de energia, setores nos quais a Nigéria apresenta demanda crescente e oportunidades relevantes tanto na parte de exploração, quanto no que tange à qualificação de sua mão-de-obra, que por sinal, é altamente competente, ainda que lhes falte escala.
Sobre este tópico, em especial, discutimos com o Tuggar a percepção de insegurança jurídica comum nas empresas brasileiras sobre o setor de mineração da África. Ele argumentou que o setor de minerais sólidos da Nigéria é, na verdade, um dos mais claramente regulamentados do continente, contando com um arcabouço jurídico abrangente e um sistema de cadastro transparente. As empresas que compreendem o processo de licenciamento e seguem as normas operam com segurança real. Grande parte dessa percepção decorre da mineração artesanal e ilegal dispersa; no entanto, existem muitos agentes consolidados e em conformidade no setor, e o governo vem promovendo um forte esforço de formalização. Para as empresas brasileiras, isso torna o momento excelente para ingressar no mercado.
Talvez o aspecto mais marcante de nossas conversas tenha sido a ênfase dada ao empreendedorismo. Quando procurávamos identificar a principal característica da Nigéria contemporânea, a resposta de Tuggar foi direta: trata-se de um país de empreendedores. Talvez aqui, o setor privado brasileiro devesse se inspirar no modelo de empreendedorismo nigeriano. Essa percepção coincidia inteiramente com aquilo que tínhamos encontrado em nossas próprias experiências. Ao longo de inúmeras entrevistas e encontros, observamos uma capacidade notável de adaptação, criatividade e iniciativa em diferentes setores da economia nigeriana. Em vez de definir a Nigéria apenas pelos desafios que enfrenta, passamos a enxergá-la também pela extraordinária energia mobilizadora de sua sociedade.
Essa realidade manifesta-se em áreas tão diversas quanto tecnologia financeira, comércio, agricultura, cultura e serviços. A ascensão internacional das fintechs nigerianas, o crescimento de empresas locais e a projeção global da música e da produção audiovisual do país refletem um dinamismo que muitas vezes não recebe a mesma atenção dedicada aos indicadores macroeconômicos ou às dificuldades estruturais.
A cultura, aliás, surgiu repetidamente como um tema central em nossas reflexões. Não apenas como herança histórica ou instrumento de aproximação diplomática, mas como componente efetivo do desenvolvimento econômico ainda pouco explorado. Em determinado momento, conversamos sobre um exemplo aparentemente simples: muitos nigerianos desconhecem que os brasileiros consomem acarajé, enquanto muitos brasileiros desconhecem que o akara, alimento que deu origem ao acarajé, possui raízes profundas na tradição da África Ocidental. Por trás dessa conexão gastronômica existe uma história de circulação de pessoas, conhecimentos e práticas culturais entre os dois lados do Atlântico que precisa ser visibilizada.
Percebemos que essa herança compartilhada pode servir como ponte para iniciativas em áreas como turismo, economia criativa, audiovisual, gastronomia e intercâmbio educacional. É preciso deixar de ver a cultura como elemento acessório, para incorporá-la como instrumento de aproximação capaz de gerar confiança e facilitar relações econômicas duradouras.
Ao final de nossos encontros, permanecemos com a impressão de que o principal desafio das relações Brasil-Nigéria não está na falta de oportunidades. As oportunidades existem e são numerosas. O verdadeiro desafio consiste em superar percepções superficiais e construir um conhecimento mais profundo, mais autêntico e mais atento às realidades concretas de ambos os países.
Nas conversas que mantivemos com ex-Ministro Tuggar evidenciou-se a nossa percepção ao longo dos últimos anos de pesquisa: Brasil e Nigéria já dispõem de bases concretas para aprofundar sua parceria por meio de setores nos quais suas capacidades são complementares. Agricultura, fertilizantes, energia, mineração, infraestrutura e tecnologia apareceram como áreas em que ambos os países possuem ativos relevantes e interesses convergentes. Além da relação de cooperação e econômica tradicional, a discussão ressaltou a existência de oportunidades de negócios e investimentos sustentadas pelas vantagens específicas de cada economia ainda inexploradas.
Outro tema recorrente foi a importância da circulação de pessoas e do intercâmbio de conhecimentos. Tuggar destacou que empresários, pesquisadores, artistas e estudantes desempenham papel tão importante quanto os governos no fortalecimento das relações bilaterais. A cooperação entre universidades, centros de pesquisa e empresas constitui instrumento capaz de aproximar os dois países em áreas como inovação, segurança alimentar, inclusão financeira, inteligência artificial e desenvolvimento tecnológico adaptado às realidades dos trópicos. Ao discutirmos os vínculos históricos que conectam Brasil e Nigéria, percebemos que gastronomia, música, audiovisual, turismo e patrimônio afro-atlântico constituem expressões culturais compartilhadas que devem ser usados como importantes instrumentos de diplomacia pública.
A tese a que chegamos ao final é, em verdade, simples: o aprofundamento das relações Brasil-Nigéria passa pela integração entre economia, ciência, cultura e intercâmbio humano, aproximando duas sociedades que ainda se conhecem menos do que o potencial de sua parceria permite. Porque, ao longo dessa jornada, chegamos à mesma conclusão: a Nigéria não pode ser compreendida apenas por estatísticas, relatórios ou análises produzidas à distância. Ela precisa ser compreendida por meio de suas pessoas, de seus empreendedores, de suas instituições, de suas regiões e de suas histórias. E talvez seja justamente nesse exercício de compreensão mútua que Brasil e Nigéria encontrem os caminhos para construir uma parceria mais ambiciosa, mais concreta e mais duradoura nas décadas que estão por vir porque, quando duas sociedades reconhecem aquilo que as une, o que antes parecia distância pode se transformar em encontro e encontro, em futuro.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário