A Rainha de Copas e o Teatro do Poder
Autoridade arbitrária da fantasia vitoriana à política contemporânea
por Gisele Agnelli
“Off with their heads!” — “Cortem-lhe a cabeça!”
A frase ecoa repetidamente em Alice’s Adventures in Wonderland (1865), de Lewis Carroll, quase como um reflexo automático de autoridade. A Rainha de Copas não governa por meio de instituições, leis ou procedimentos. Governa pelo gesto. Cada ordem de execução é menos uma decisão administrativa do que uma performance política. O comando dramatiza o poder.
Durante muito tempo, leitores trataram a personagem como uma caricatura infantil: uma monarca histérica em um universo nonsense. Mas a Rainha de Copas revela algo mais profundo. Ela encarna um arquétipo literário do poder arbitrário. Carroll constrói, com humor e ironia, uma sátira sofisticada da autoridade política e jurídica ao imaginar um sistema em que decisões precedem procedimentos e em que a lei funciona, essencialmente, como encenação.
O episódio do julgamento do Valete de Copas — acusado de roubar tortas da rainha, é particularmente revelador. O veredito parece decidido antes mesmo do início do processo. O tribunal funciona segundo uma lógica absurda: testemunhos irrelevantes, regras improvisadas, evidências sem sentido. A justiça existe apenas como ritual. A sentença já está dada.
Essa lógica (da autoridade que se legitima pela performane) não pertence apenas ao universo da fantasia vitoriana. Ela reaparece com frequência na política moderna, especialmente em contextos de polarização intensa e personalização do poder.
O sociólogo Max Weber descreveu um tipo de autoridade que ajuda a compreender esse fenômeno: a autoridade carismática. Diferentemente da autoridade legal-racional, baseada em regras e instituições, ou da autoridade tradicional, baseada em costumes e linhagens, o poder carismático emerge da figura do líder. Ele depende da crença coletiva na excepcionalidade dessa figura.
O líder carismático governa tanto por meio de decisões concretas quanto por meio de gestos simbólicos que reafirmam continuamente sua autoridade.
Nesse sentido, a Rainha de Copas funciona como uma caricatura extrema desse tipo de poder. Seu governo depende da repetição constante de ameaças dramáticas. Cada “cortem-lhe a cabeça!” é simultaneamente uma punição potencial e um ritual simbólico de autoridade. O gesto importa mais que o resultado.
Na política contemporânea, algo semelhante ocorre quando líderes transformam o exercício do poder em espetáculo retórico. A autoridade passa a ser reafirmada por meio de declarações grandiosas, ameaças simbólicas e confrontos públicos cuidadosamente dramatizados.
A retórica internacional de Donald Trump oferece um exemplo particularmente revelador dessa dinâmica. Em diversas ocasiões, Trump descreveu a política externa em termos altamente performativos, enfatizando gestos de domínio e decisões extraordinárias. Ao comentar a possibilidade de uma intervenção em Cuba, afirmou acreditar ter “a honra de tomar Cuba de alguma forma”. Em relação à Venezuela, declarou que os Estados Unidos não descartavam uma “opção militar”.
Essas declarações não funcionam apenas como propostas estratégicas. Elas operam como gestos retóricos que dramatizam o poder presidencial. O líder aparece como protagonista de um drama geopolítico no qual a autoridade se afirma pela possibilidade permanente de ação excepcional.
O paralelo com a Rainha de Copas não implica equivalência entre ficção e realidade. O que ele revela é uma afinidade estrutural: em ambos os casos, o poder se manifesta como espetáculo. A autoridade precisa ser continuamente encenada diante de uma audiência.
Essa dimensão teatral da política foi analisada pelo filósofo Guy Debord em sua célebre formulação da “sociedade do espetáculo”. Em sociedades profundamente mediadas pela comunicação de massa, argumentava Debord, a política tende a assumir forma dramatúrgica. Gestos simbólicos, declarações hiperbólicas e confrontos públicos tornam-se instrumentos centrais de poder.
Donald Trump parece compreender intuitivamente essa lógica. Sua comunicação política frequentemente se estrutura como evento midiático: uma sucessão de declarações destinadas a dominar o ciclo de notícias e mobilizar emoções coletivas.
A psicologia política ajuda a iluminar ainda mais esse fenômeno. Em seus estudos sobre a personalidade autoritária, Theodor Adorno observou que certos líderes prosperam em ambientes de polarização extrema. Eles simplificam o mundo em categorias morais rígidas : amigos e inimigos, patriotas e traidores … transformando a política em um conflito moralizado.
A Rainha de Copas encarna uma versão literária desse padrão psicológico. Sua autoridade depende da divisão constante do mundo entre leais e culpados. Cada nova ameaça de execução reafirma essa fronteira simbólica.
A psicanálise oferece uma leitura ainda mais profunda dessa dinâmica. Sigmund Freud argumentou que líderes carismáticos frequentemente funcionam como objetos de identificação coletiva. Eles condensam fantasias de poder e ordem que circulam no imaginário social.
Jacques Lacan ampliaria essa ideia ao sugerir que o líder pode operar como um ponto de condensação do desejo coletivo. A autoridade política, nesse sentido, não é apenas institucional. Ela é também imaginária.
A Rainha de Copas governa porque os habitantes do País das Maravilhas acreditam, de alguma forma, na realidade de seu poder. O sistema inteiro depende dessa crença coletiva.
É precisamente essa crença que Alice rompe no momento final da narrativa.
Durante o julgamento do Valete de Copas, ela finalmente percebe a incoerência do sistema. Quando a rainha ordena mais uma execução, Alice responde com uma frase simples e devastadora:
“Vocês não passam de um baralho de cartas.”
A autoridade da rainha colapsa imediatamente. As cartas voam pelo ar, o tribunal se dissolve e o universo fantástico desaparece.
Esse momento literário antecipa uma das intuições centrais da sociologia do poder. Pierre Bourdieu argumentou que toda autoridade política possui uma dimensão simbólica: ela depende da crença social em sua legitimidade.
Mesmo regimes autoritários necessitam de algum grau de reconhecimento coletivo. O poder não é apenas imposto; ele também é acreditado.
A Rainha de Copas governa enquanto os personagens aceitam o encantamento de sua autoridade. Quando Alice rompe essa crença, o poder revela sua fragilidade.
É nesse ponto que a literatura de Carroll revela sua surpreendente modernidade. Alice’s Adventures in Wonderland não é apenas um jogo linguístico ou uma fantasia infantil. É também uma reflexão aguda sobre autoridade, imaginação política e teatralidade do poder.
A Rainha de Copas permanece como uma das mais poderosas metáforas literárias da política moderna. Ela nos lembra que o poder pode ser simultaneamente temível e ridículo….uma mistura instável de violência potencial e performance dramática.
E, como Alice descobre ao final da história, às vezes basta um momento de lucidez para que o espetáculo inteiro comece a desmoronar.
Gisele Agnelli – Socióloga com especialização em ciências políticas, graduada pela PUC-SP, pós-graduada em Marketing e em Gestão da Informação, ambos pela ESPM. Fundadora do #VoteNelas. Atualmente reside nos EUA e faz parte do Movimento de Lideranças Femininas do Partido Democrata, Hoosier Women Forward.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário