21 de maio de 2026

A real politik em livro de Pedro Costa Jr, por Euclides de Sousa

Livro de Costa Jr. é apresentado em resenha que evidencia a importância de entender a geopolítica para visualizar mundo atual.

Pedro Costa Júnior analisa a rivalidade EUA-China desde Nixon, destacando a ascensão econômica da China e a mudança estratégica dos EUA.
Os EUA adotaram políticas firmes contra a China, como o “pivot to Asia”, TPP, QUAD e AIKUS, intensificando a competição global.
O livro alerta para o risco da “armadilha de Tucídides”, com disputa crescente em tecnologia e defesa, sem confronto militar direto.

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A real politik em livro de Pedro Costa Jr, por Euclides de Sousa

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COSTA JUNIOR, Pedro Donizete da. EUAxChina: a luta pelo poder global. São Paulo: Escuta Geopolítica, 2026.

Mais que uma releitura histórica da relação entre EUA e China, a obra de Pedro Costa Júnior elabora uma reconstrução teórica das relações diplomáticas e de competição entre aqueles países. Tendo como base a disputa do poder global sob o ponto de vista da tese do sistema interestatal capitalista, de José Luís Fiori, em primeiro plano — mas não só — a narrativa nos conduz ao impasse momentâneo do embate entre os dois Estados. E nos coloca uma grande questão, uma grande pergunta: até onde as duas nações vão continuar competindo sem cair na chamada “armadilha de Tucídides”, isto é, o ponto onde o embate armado direto torna-se inevitável.

A tese da competição interestatal indica que a pressão competitiva só faz aumentar, quando um Estado desafia o outro, o hegemon, por meio de aumento de poder econômico e influência política, como está fazendo a China no mundo inteiro, modificando o perfil da economia-mundo e deslocando o eixo dinâmico para a Ásia, tornando assim o Pacífico um novo ponto de referência estratégico-logístico.

O livro inicia o estudo das relações EUA-China desde a gestão Nixon, nos anos 1970, por onde as relações com a China são reestabelecidas e a partir daí tratada sob uma ótica integracionista — de aproximação, mas não apenas política, também econômica. Naquele momento o principal objetivo de política externa dos EUA era isolar a URSS. A partir daí a China desenvolve-se economicamente num ritmo acelerado, até chegarmos ao século XXI onde o grande país asiático se posiciona como um desafiante de peso na competição global. 

Não por acaso, a administração Obama nos EUA, ainda em seu primeiro mandato, lança uma nova estratégia: o pivô para a Ásia (pivot to Asia). Após décadas entre ora uma política de contenção, ora de engajamento, os EUA decidem por uma política mais firme com relação à região e à China especialmente. O Oriente Médio deixa de ser uma prioridade; as atenções se voltam para o Pacífico — os EUA promovem a TPP (Transpacific Partnerhip), uma parceria com os Estados asiáticos objetivando isolar a China. Mas as dificuldades encontradas no mundo islâmico, como Líbia e Iraque, não permitiram a implementação de tal política. Enquanto isso a China avança ferozmente em seu desenvolvimento, o que faz com que o próximo governo norte-americano, sob Trump, afirme peremptoriamente que seu inimigo é a China. A gestão de Trump retira os EUA da TPP, mas não a China do cenário de “guerra econômica” e afirmando uma ofensiva de “posição de força”. Portanto, estamos para além de contenção versus engajamento: agora a disputa vai para o enfrentando nas diversas áreas: ciência, tecnologia, engenharia, indústria. Ao mesmo tempo a ordem internacional que se desenvolveu no pós-guerra é abandonada pelo principal ator que a impôs ao mundo — os EUA se retiram de vários organismos internacionais, exceto FMI e Banco Mundial. A administração Biden, embora menos beligerante, reconhece, formalmente, a China como principal ameaça à segurança dos EUA, retomando inclusive o QUAD (Quadrilateral Security Dialogue — cooperação estratégica e militar) com EUA, Japão, Austrália e Índia; bem como uma nova aliança de defesa, a AIKUS (Australia, United Kingdom, United States).  Podemos dizer que é uma alteração de qualidade a partir de um governo democrata, pela primeira vez com relação à China. Por meio de um documento oficial do Departamento de Defesa, a China é declarada um desafio no Indo-Pacífico, bem como a Rússia é na Europa. Entrementes, prossegue a disputa em relação à tecnologia 5G e a dos semicondutores, além da “novidade” da IA.

Ao mesmo tempo que a pressão competitiva se eleva, o orçamento de defesa também aumenta significativamente — evidentemente para todos os países envolvidos diretamente. Durante décadas, afirma o autor, a política externa norte-americana com relação à China consistiu na tendência integracionista, de engajamento na economia mundial, deduzindo com isso que ela se conformaria nos moldes da ordem econômica liberal. O que não ocorreu, como sabemos. A inserção da China na economia-mundo deu-se muito ativamente, sem ficar dependente das potências ocidentais.

O que nos leva à encruzilhada da guerra, tal como explicitada no livro:

“À medida que a competição global pelo poder se aprofunda e desmorona a ordem internacional ‘baseada em regras’, o espectro da ‘armadilha de Tucídides’ se torna mais eminente.” (p.225)

E finalmente, conclui o autor, temos duas posições: uma em que os EUA se posiciona como agente desestabilizador; outra, em que a China tenta se manter prosseguindo em suas políticas econômicas e diplomáticas, como agente estabilizador da economia-mundo e, portanto, evitando ao máximo o choque direto com a grande potência militar. O livro termina com uma interessante citação de Deng Xiao Ping, aconselhando seu sucessor neste sentido.

Enfim, a obra é uma referência para quem busca uma exposição condensada e ao mesmo tempo bastante explicativa das relações EUA-China e de como chegamos ao momento presente. Há uma exposição muito elucidativa de teoria e metodologia no primeiro capítulo. No conjunto, uma aula de real politik, relações internacionais, diplomacia e reflexão sobre o choque entre as nações.

Euclides Roberto Novaes de Sousa, 64. – É servidor público estadual, graduado em Ciências Sociais, História e Filosofia. Licenciado em Sociologia. Especialização em Textos em Língua Portuguesa e amante de Literatura.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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