21 de maio de 2026

A reorganização mundial após um quarto de século XXI, por Luciano Alencar Barros

Em síntese, o balanço deste quarto de século revela que o período foi marcado por importantes continuidades e rupturas.
Derek Fordjour

O primeiro quarto do século XXI foi marcado por eventos como ataques, crises financeiras, pandemia e guerras, com continuidades e rupturas globais.
Mantém-se o sistema monetário baseado no dólar e o neoliberalismo, com intervenções estatais temporárias em crises como 2008 e pandemia.
Rupturas incluem ascensão da China e Índia, desaceleração da globalização e aumento dos gastos militares devido a tensões geopolíticas.

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Permanências e rupturas: a reorganização mundial após um quarto de século XXI

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por Luciano Alencar Barros

A virada de 2025 para 2026 marca o fim do primeiro quarto do século XXI. Além de ser pontuado fatos históricos importantes, como o ataque às torres gêmeas, a crise financeira de 2008, a pandemia e as inúmeras guerras, o período foi marcado por continuidades e rupturas em termos de economia e política internacionais, algumas que apontam para um prognóstico pouco alentador para os próximos anos.

Em termos de continuidade, tem-se todo o arcabouço institucional global, pautado na utilização do dólar sem lastro como moeda de referência, e na atuação de diversas instituições internacionais, ainda que estas venham perdendo relevância recentemente. Ademais, a própria teoria econômica dominante mantém-se, em larga medida, a mesma adotada desde os anos 1970, quando da ascensão do monetarismo.

Assim, tem-se continuidade do capitalismo (neo)liberal, intercalado por intervencionismos esporádicos – keynesianismos de emergência – que visam mudar o mínimo para manter. Exemplos nítidos foram as intervenções após as crises de 2008 e da pandemia. Dada a urgência da situação social, os governos são instados a fazer políticas expansionistas que são abandonadas tão logo se supera a parte mais crítica da crise, de modo que se retoma a austeridade. Não à toa, os últimos cinquenta anos foram marcados por baixas taxas de crescimento – para além de um nítido processo de concentração de renda – quando se compara com o período pós-guerra.

No que diz respeito às rupturas, os fatores mais marcantes do período são a ascensão do sul e sudeste asiático (com destaque para a China e a Índia), em detrimento da Europa e do Japão, e um movimento mais recente de arrefecimento do avanço da globalização, aliado ao enfraquecimento do multilateralismo e da institucionalidade internacional.

O século se iniciou dez anos após o colapso da União Soviética, com a reafirmação do capitalismo liberal no mundo, sob a liderança da então única potência mundial, os Estados Unidos. Porém, combinando elementos de mercado com forte direção estatal, o modelo chinês exibia seu potencial de crescimento já no limiar do século. Assim, nos últimos 25 anos, enquanto os EUA mantiveram sua parcela do PIB global, a China aumentou consideravelmente, em detrimento dos demais países do G7 (ou seja, Alemanha, França, Itália, Reino Unido, Canadá e Japão).

A rápida ascensão chinesa, longe de proporcionar uma opção alternativa de relação entre Estado e mercado para o capitalismo global, teve por consequência reforça-lo, ao estimular seu crescimento, demandando matérias primas de países menos desenvolvidos e barateando os bens manufaturados no mundo. Se o início do século foi marcado pela aceleração da integração econômica global, nos últimos anos a tendência tem sido de desaceleração, ainda que seja precipitado falar em um movimento de reversão, ou de “desglobalização”.

Este arrefecimento da integração econômica internacional se delineia a partir da desaceleração pós-crise de 2008 e ganha corpo em de meados da década passada, com o Brexit e a primeira eleição de Trump nos EUA, começando uma (inicialmente tímida) guerra comercial com a China. Este processo seria reforçado durante a pandemia, e, principalmente, com o retorno de Trump ao poder. Diferentes tensões geopolíticas acirradas nos últimos anos catalisariam essa tendência, em especial a competição entre EUA e China e a eclosão da guerra na Ucrânia. Assim, observa-se que esta desaceleração da globalização vem sendo acompanhada de uma importante reconfiguração entre os diferentes atores.

Para além das mudanças nos fluxos internacionais de comércio e capitais, e nas cadeias globais de valor, o novo cenário geopolítico impôs posturas mais defensivas para as nações. Com o conflito com a Ucrânia, a Rússia expandiu fortemente seus gastos militares, o que, somado à pressão dos EUA , impulsiona os gastos em defesa da Europa. Estes também têm se expandido fortemente nos EUA, cuja pressão sobre diferentes países (em especial na América Latina) também indica a necessidade das demais regiões de investirem mais em defesa. No âmbito da disputa hegemônica global isto ainda pressiona a China por mais gastos militares, principalmente no contexto atual no qual o Japão pretende se rearmar.

Em síntese, o balanço deste quarto de século revela que o período foi marcado por importantes continuidades e rupturas. Por um lado, tem-se a manutenção do sistema monetário internacional, bem como dos preceitos neoliberais dos anos 1970, com suas consequências em termos de baixo crescimento e concentração de renda. Por outro, observa-se uma reconfiguração da economia mundial, com desaceleração da integração internacional e o acirramento de disputas geopolíticas. Assim, o acúmulo de pressões internas e externas – em meio à erosão democrática, à escalada do armamentismo e ao declínio do multilateralismo – aponta para um cenário global mais instável e preocupante para os próximos anos.


Luciano Alencar Barros – Professor do Instituto de Economia da UFRJ e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ.

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