A transição climática exige Estados fortes. Mas quem financiará a reconstrução verde do século XXI?
por Carmem Feijó e Fernanda Feil
A transição para uma economia de baixo carbono requer uma transformação estrutural abrangente, capaz de reconfigurar os sistemas produtivos, a infraestrutura, os padrões de consumo, os sistemas de transporte, a produção agropecuária e a organização territorial. A magnitude dessas mudanças implica um processo de reestruturação econômica e institucional sem precedentes em um curto espaço de tempo, demandando elevados volumes de investimento, inovação tecnológica e coordenação entre os setores público e privado.
Em escala e velocidade, o esforço excede à reconstrução das economias devastadas pela Segunda Guerra Mundial. Naquele momento histórico, os Estados assumiram papel central. Governos planejaram investimentos, coordenaram setores estratégicos, financiaram infraestrutura e mobilizaram recursos públicos em uma dimensão inédita. O Plano Marshall, os bancos públicos de desenvolvimento e os sistemas nacionais de planejamento foram instrumentos decisivos para reconstruir a Europa e impulsionar décadas de crescimento econômico, transformando o período subsequente a guerra no período de ouro do capitalismo.
O enfrentamento da crise climática, ambiental e social necessita de um ambicioso processo de transformação, com o advento de que a capacidade de ação dos Estados foi profundamente reduzida ao longo das últimas décadas. A ascensão do neoliberalismo, a liberalização financeira e a crescente financeirização das economias limitaram os instrumentos de política econômica disponíveis aos governos, especialmente nos países do Sul Global.
Em vez de liderarem diretamente o processo de investimento, os Estados passaram a desempenhar a função de reduzir riscos, oferecer garantias e criar incentivos para que o capital privado financie a transição verde. A narrativa dominante sustenta que o sistema financeiro internacional seria capaz de direcionar os trilhões de dólares necessários para projetos sustentáveis, desde que os sinais econômicos e regulatórios corretos sejam fornecidos.
Essa estratégia, entretanto, contém uma contradição fundamental.
A transição climática tem como objetivo produzir um bem público global: a estabilidade do sistema climático. Seus benefícios ultrapassam fronteiras nacionais e geracional. Contudo, a lógica que orienta o sistema financeiro privado não é a provisão de bens públicos, mas a maximização do retorno ajustado ao risco. Espera-se, assim, que instituições privadas assumam uma responsabilidade que não lhes pertence por natureza.
O resultado é que grande parte das políticas climáticas acaba sendo desenhada para garantir rentabilidade privada. O Estado deixa de ser protagonista da transformação produtiva e passa a atuar como segurador de última instância dos mercados.
Na prática, isso significa que um processo destinado a produzir benefícios coletivos pode acabar subordinado aos interesses e aos critérios de rentabilidade do capital financeiro. O risco é transformar a transição ecológica em mais uma fronteira de valorização financeira, em vez de tratá-la como um projeto de desenvolvimento voltado para o interesse público.
A questão torna-se ainda mais delicada para os países do Sul Global.
Na Europa e nos Estados Unidos, os governos ainda dispõem de moedas fortes, mercados financeiros profundos e maior capacidade de endividamento. Já economias como o Brasil enfrentam limitações financeiras severas. Restrições fiscais, elevadas taxas de juros, volatilidade cambial e dependência de fluxos internacionais de capital reduzem significativamente o espaço de política econômica necessário para conduzir investimentos de longo prazo.
Paradoxalmente, são justamente os países em desenvolvimento que concentram grande parte dos recursos estratégicos para a transição verde. O Brasil possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, enormes reservas de minerais críticos, vasta biodiversidade e um dos maiores potenciais globais para energias renováveis. A África, a América Latina e partes da Ásia também desempenham um papel central no fornecimento dos insumos e das soluções necessários para descarbonizar a economia mundial.
No entanto, esses países correm o risco de ocupar novamente uma posição subordinada na divisão internacional do trabalho: exportadores de recursos naturais e receptores de projetos financiados externamente, enquanto as decisões estratégicas e os ganhos tecnológicos permanecem concentrados nas economias centrais.
A transição climática não será justa se reproduzir as mesmas assimetrias que marcaram a globalização das últimas décadas.
Por isso, a discussão sobre financiamento climático não pode ser reduzida à mobilização de recursos privados. A questão central é quem controla os investimentos, define prioridades e captura os benefícios econômicos da transformação produtiva.
Se a transição verde for conduzida predominantemente pelos mercados financeiros, haverá uma tendência natural de concentração dos investimentos em projetos de retorno rápido e risco reduzido. Regiões pobres, infraestrutura social, adaptação climática e necessidades das populações mais vulneráveis poderão permanecer subfinanciadas.
Uma transição verdadeiramente democrática exige a reconstrução das capacidades estatais enfraquecidas ao longo da era da financeirização. Isso significa fortalecer bancos públicos de desenvolvimento, ampliar instrumentos de planejamento, criar mecanismos de financiamento de longo prazo e recuperar a capacidade dos governos de coordenar investimentos estratégicos.
O desafio do século XXI não é apenas tecnológico ou ambiental. É também político e institucional. A pergunta decisiva não é se haverá recursos suficientes para financiar a transição climática. O mundo possui riqueza e capacidade produtiva para isso.
A questão é quem comandará essa transformação.
Se a resposta continuar sendo exclusivamente o mercado financeiro, estaremos privatizando a provisão de um bem público global. Se, ao contrário, os Estados recuperarem sua capacidade de liderar investimentos e coordenar estratégias nacionais de desenvolvimento, a transição climática poderá se converter em uma oportunidade histórica para construir economias mais sustentáveis, menos desiguais e mais democráticas.
Para países como o Brasil, essa escolha não é apenas ambiental. É uma decisão sobre o próprio futuro do desenvolvimento nacional.
Carmem Feijó – Diretora Acadêmica no Centro de Finanças Sustentáveis – CeFiS, Professora titular na UFF, pesquisadora CNPQ e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento – Finde/UFF
Fernanda Feil – Diretora de Finanças Sustentáveis no CeFiS, Professora colaboradora no Programa de Pós-graduação em economia da UFF e pesquisadora do Finde/UFF
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