5 de junho de 2026

A volta dos homens-caranguejo, por Fabianna Freire Pepeu

Imagem: Elisa Mendes, da peça ‘Caranguejo Overdrive’
 
A volta dos homens-caranguejo
 
por Fabianna Freire Pepeu
 
Entre os anos 1930 e 1970, o médico, cientista social e escritor pernambucano Josué de Castro, falecido em 1973, na França, onde ficou exilado em função das sanções impostas pela ditadura militar brasileira, lutou bravamente pela erradicação da fome. Dizia que o fenômeno da fome tinha chegado aos seus olhos por meio dos mangues, ao longo do rio Capibaribe, nos bairros miseráveis do Recife. Dois de seus livros mais famosos, Geografia da Fome e Homens e Caranguejos, inspiraram o Manguebeat, que ganhou notoriedade nacional e internacional com Chico Science nos anos 1990. 
 
Em 2008, ano do centenário de nascimento desse escritor e crítico contundente das desigualdades brasileiras, a repórter Ciara Carvalho e o fotógrafo Arnaldo Carvalho (prêmio Esso por um dos trabalhos dessa reportagem), do Jornal do Commercio, percorreram, a partir da capital pernambucana, 10 mil quilômetros, passando pelos nove estados nordestinos. Dessa viagem, trouxeram um caderno intitulado Feridas Abertas da Fome.

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Ao ler a reportagem, meu corpo se retorceu. Era impossível ficar imune, por exemplo, às histórias das crianças cegas de um ou mesmo dos dois olhos por desnutrição. Crianças que raramente bebiam leite, mas garapa – uma mistura de água com farinha. A tríade dor, desespero, desesperança, presente nos relatos das mães das crianças, é tatuagem indelével.
 
Agora, a Pública, uma agência de jornalismo investigativo, traz entrevista com o economista Francisco Menezes, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), na qual o pesquisador, que também é especialista em segurança alimentar, afirma que o Brasil deve mesmo voltar – conforme anunciado ano passado – ao Mapa da Fome da FAO, organização da ONU que trabalha a questão da alimentação e agricultura. 
 
Um conjunto de políticas públicas implantadas nos governos Lula e Dilma – desde políticas de caráter macroeconômico, que contemplavam correção do salário mínimo acima da inflação, beneficiando não apenas o assalariado, mas a economia local; formalização do trabalho, bem como, entre várias outras ações, o Bolsa Família, transferência de renda tão duramente criticada por quem mora muito longe da miséria e não sabe o que é uma garapa – levaram o Brasil a sair, em 2014, desse tenebroso mapa. 
 
Mas o golpe, mantido sem a menor decência pelo judiciário, com o apoio sistemática da grande mídia, na mesma velocidade em que sucateia o país, também nos obriga a lembrar dos caranguejos que andam sempre para trás.
 
E, na noite que ninguém sabe ao certo quando acaba, escuto com clareza a voz de Chico, em Da Lama ao Caos: 
 
“Ô Josué, eu nunca vi tamanha desgraça.”
 
Fabianna Freire Pepeu é jornalista. Trabalhou como repórter no Jornal do Commercio e TV Globo, no Recife, e na TV Cultura, em Brasília. Atualmente, mora em São Paulo. 
 
 

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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3 Comentários
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  1. Mello

    17 de julho de 2018 2:35 am

    Homem Caranguejo

    Sem esquecer a forma como alguns bairros foram erguidos sobre os mangues aterrados, num golpe que perdurou por anos, por aqui. A situação de penúria alimentar e moradia eram propositais para manter o valor de bagatela, uma vez que o mangue conquistado, era ocupado por esses desprezados, removidos à força pela polícia em reintegrações de posse orquestradas. Existe uma razão para isso.

    Agora, estamos assitindo à ocupação de terrenos públicos alguns localizados à beira dos rios, com projetos de privatização das margens. Uma procudaora bem combativa a essa prática, foi removida do cargo faz alguns anos. 

    A estrutura da bagatela continua a mesma. Apenas mudou o alvo. Não são mais favelas, mas os terrenos da União como o Cais José Estelita, e o Cais de Santa Rita. A bola da vez agora é a Vila da Marinha.

     

    Na foto, podemos identificar as duas torres construídas à beira do rio, violando o código florestal, em área histórica de ocupação por portugueses e holandeses. Pela avenida que segue em alinhamento com as torres, identificamos o Cais José Estelita, palco de disputa entre moradores, prefeitura e construtora. No canto direito da foto, a favela de Brasília Teimosa, que deixou de ser alvo das construtoras em vista de não ser mais a antiga bagatela. 

    Resultado de imagem para projeto cais jose estelita

    A primeira proposta para o Cais José estelita. A privatização da beira-rio pela apropriação pelo projeto de suas margens, pegou muito mal com a população então foi modificado, “abrindo mão” da tomada das margens. Esse projeto, após muita pressão e mobilização, teve a bagatela de sua venda, cancelada pela justiça.

    Resultado de imagem para vila da marinha recife

    Esse é o novo projeto sobre área da união, um bairro com vista e acesso exclusivo ao encontro do Capibaribe com o Beberibe e a saída direta para o mar, passando por esse canal, diante desses armazéns no canto inferior da foto. Na parte superior da foto, a favela de Santo Amaro, e o Shopping Tacaruna, construído na vizinhança. 

  2. Ubiratan Nazaré

    17 de julho de 2018 4:14 am

    O artigo, além da informação
    O artigo, além da informação principal que é o alerta para a volta do Brasil ao mapa da fome, apresenta várias referências utilizadas na construção do texto que o tornam muito rico.
    Parabéns!!

  3. Paulette Cavalcanti

    17 de julho de 2018 11:36 am

    Homens caranguejos
    Fabianna,
    Muito bom texto! Estamos, pelo interior de Pernambuco e até na capital, presenciando cenas de desnutrição que não víamos desde os primeiros anos deste século, em casas sem nada para comer. Muito triste. E o pior é ter tão pouco a fazer, fazendo a denuncia cada vez mais necessária.

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